Gerir este estabelecimento só tem um pequeno senão. É que se se passa mais de alguns dias sem escrever, logo surge um indignado: “atão!?” (o rolo da massa mal escondido atrás das costas). Dantes incomodava um pouco – essa ideia de não estar a cumprir expectativas – mas com o tempo a pedrinha saltou do sapato. Claro que, para mim, este espaço só faz sentido se for para ser lido e, de preferência, comentado. De outro modo guardam-se as ideias em cadernos e gavetas. Caixas de sapatos. Ou então é largá-las algures no fundo de ouvidos atentos.
Também tenho a noção de que para cada acção existe um reacção e, na ausência de novidades, o interesse esmorece. Regra absoluta, que aceito prontamente, sem amuos.
Apesar de a minha real gana estar mais ou menos virada para outro lado, vejo-me esta noite “obrigada” a escrever uma pastelada qualquer. A causa é nobre e fraterna: M. enfrenta diariamente significativa percentagem de tempos mortos no escritório –
karma desgraçado – e nesse seu ócio forçado, dedica-se a bonitas leituras electrónicas (como a que deste blog resulta!). Então, com todo o meu amor para M., aqui fica algo com que gastar cinco minutos. Pensando bem, por cinco minutos não é uma grande ajuda...
Comentava outro dia
aqui a Sinhora Maria, amiga recém-bloguista, que uma das grandes questões com que se depara actualmente é “qual a relevância da minha tese?”. Deixou a coisa mais ou menos em aberto, sublinhando que não deixa de delirar quando descobre índices novos (cambada de
nerds que eu conheço, chiça!..). Mas a questão que nos exibe Sinhora Maria parece-me, em si mesma, de particular relevância. Está longe de ser a primeira vez que a ouço e suponho que ainda mais longe de ser a última. Por coincidência ou não, ainda há uns dias recebi um mail
deste gajo, como resposta a um artigo que lhe tinha enviado e que, segundo o próprio, o fez passar uns dias a pensar “porque raio é estou a fazer um doutoramento e onde é que isto me vai levar?”. As vezes que eu própria enfrentei a pergunta este ano foram algumas. Porquê? Para quê? Acho engraçado que a dúvida e a inquietação surjam com tanta frequência em quem se dedica à investigação e em tão menor grau no resto da população. Não me parece que seja apenas o factor económico e a instabilidade do sistema de remuneração por bolsas a dar o mote. Um doutoramento dura quatro anos, o que talvez não seja garantia menor do que a oferecida pela maioria dos empregos actualmente, para quem quer começar a trabalhar. Porque é que passamos o tempo a questionar-nos se vale realmente a pena, se tem utilidade, quando as pessoas que atendem telefones, analisam leis, criam soluções informáticas, limpam casas-de-banho, vendem imóveis ou dobram camisolas na Zara, parecem fazê-lo com tanta tranquilidade e aceitação? Sinceramente ainda não percebi porque é. À minha volta toda a gente aparenta estar segura da utilidade daquilo a que se dedica. Precisamos de casas para viver e de telemóveis para falar, de trocas comerciais e de toda a gestão, marketing e publicidade que daí advêm. Precisamos de informação, de garantir justiça, de saudinha para cá andar e de manter tudo nos conformes, dentro das normas que criámos para o efeito. Tudo bem, parece até haver um sentido comunitário. Mas individualmente, o que mantém as pessoas? A senhora que atende telefones dia após dia, o que a mantém? Ou mesmo a que gere a sua empresa, teclando no excel até altas horas da noite, o que a mantém? Porque não duvidam elas daquilo que fazem? Como é que se aceita? Como se transforma uma ideia, um conceito de necessidade, na repetição imensa dos dias? A mim faz muita confusão.
Para animar, parece que a felicidade está nas pequenas coisas. Por exemplo, não é por se substituir um peugeot 205 (grande máquina, por sinal) por um porshe que o nosso
standard de felicidade se eleva. O que acontece é uma explosão de bem-estar na altura da aquisição e logo um rápido regresso aos valores de base. O que nos faz
realmente sentir bem são os pormenores do dia-a-dia: um banho quente, uma refeição saborosa, umas gargalhadas, um passeio descontraído e, assim como assim, uns minutos de leitura...
(no meu caso, apanhar um gavião a jeito também surte efeito)