Viajar. Viajar é um daqueles verbos que enchem qualquer frase em que se vejam metidos. Sai-se do hábito num pico de expectativa e de deslumbramento com os próprios passos, com uma segurança que nasce do medo quase paralisante… Da superação dos medos nasce a euforia que leva depois ao apaziguamento consigo próprio, ao entendimento profundo de que somos uma entidade perfeita em que nada falha. Nada, nunca, falha. Tudo é.
Se soubéssemos aquilo que cada viagem nos reserva, não seria uma viagem. Na verdade, chegar onde quer que seja não tem o mesmo impacte do que se sente até lá. Mas a meta tem importância porque sem ela não se começaria nada, sem ela o primeiro passo não seria dado ou, pelo menos, o segundo não manteria o rumo. Este é o encanto dos objectivos: promovem a acção.
Um amigo emprestou-me um livro, chama-se “mood of future joys” e relata na primeira pessoa uma volta ao mundo de quatro anos em bicicleta. Por alguém que saiu de Inglaterra lavado em lágrimas, querendo voltar para trás a cada segundo. Então por que o terá feito? Por que não cedeu ao instinto de dar meia volta, fazer soar a campainha da bicicleta no quintal dos pais, gritar aos amigos que ali ficava, encontrar de novo os braços da namorada?... É difícil de explicar, nem o próprio consegue.
Superar medos é crescer, é ir mais além. Quase todos queremos a segurança, em diferentes graus e de diferentes maneiras, mas poucos são os sábios que procuram desafiar-se constantemente. Dá trabalho. Mas como tudo o que é trabalhoso, tem retorno. Stanislavski dizia aos seus alunos que a cada dia deviam fazer uma coisa que lhes metesse medo, ainda que ao fim de um tempo pudessem começar ficar sem ideias. Ainda que se dedicassem a medos pequenos, coisas tontas. Penso que a ideia fosse progredir todos os dias um pouco mais no sentido de chegar ao interior de cada um. Porque, se pensarmos bem, os medos vão-nos sendo acoplados a partir do ambiente. Quando nascemos não tememos nada, existimos em estado puro e absoluto. E voltar aí é, sem dúvida, a verdadeira meta. No fim, tudo acaba como começou. O que fizemos entretanto? A quem andámos a enganar senão a nós mesmos?
19/08/09
09/08/09
being back
Abro uma página na internet e leio um link associado que diz “Fotoadrenalina de 17 dias na Índia e no Nepal”. Logo me ponho a pensar nos meus novos colegas de trabalho, nove almas do Bangladesh, uma da Índia. Adrenalina é tudo menos o que transmitem as suas caras serenas e sorridentes. Pelo menos ao fim da noite, quando nos sentamos todos a contar gorjetas… No pico do stress nocturno do restaurante, lá para as dez horas, há um claro lapso comunicacional entre a cozinha e a sala: cá fora os grunhidos são em português, lá dentro viaja-se de repente para oriente e a verdade é que se não cheira a caril, quase parece que sim. De Sara, passo logo a Zhala (ou “minina” para quando a língua quer ser mais rápida que o cérebro) e muitas vezes a melhor opção é saltar directamente para o inglês que, em conjunto com alguma mímica, lá vai facilitando a coisa. Bottle, water, large! tem resultados muito mais eficazes do que passa-me uma água de litro se fazes favor. Ainda por cima traz à situação uns laivos de filme cómico.
É divertido trabalhar num restaurante. Uns gritam só porque sim. Outros também. Há ainda quem julgue que aquilo é a tropa e que a posição que lhe coube foi a de general. O truque é ter muita calma: com os clientes, com os chefes, com os colegas. E manter presente que estar ali é como saltar de dimensão, entrar num jogo em que cada pessoa tem determinado papel. É preciso concentrar-se para saltar por cima dos fossos e atravessar as areias movediças, conseguir apanhar todas as moedinhas possíveis, de passagem combater o dragão com a espada que se encontrou no túnel secreto e, se possível, cheirar ainda as flores pelo caminho (isto só para os mais audazes). Ao fim da noite estamos cansados – pela concentração e pelo movimento, pela dança que tem que ser fluida – mas não nos dói os olhos, nem a cabeça nem as costas. Vimos muitas caras, falámos com muita gente, sorrimos muitas vezes. Eu sorrio sempre com sinceridade e isso faz-me sentir bem.
É divertido trabalhar num restaurante. Uns gritam só porque sim. Outros também. Há ainda quem julgue que aquilo é a tropa e que a posição que lhe coube foi a de general. O truque é ter muita calma: com os clientes, com os chefes, com os colegas. E manter presente que estar ali é como saltar de dimensão, entrar num jogo em que cada pessoa tem determinado papel. É preciso concentrar-se para saltar por cima dos fossos e atravessar as areias movediças, conseguir apanhar todas as moedinhas possíveis, de passagem combater o dragão com a espada que se encontrou no túnel secreto e, se possível, cheirar ainda as flores pelo caminho (isto só para os mais audazes). Ao fim da noite estamos cansados – pela concentração e pelo movimento, pela dança que tem que ser fluida – mas não nos dói os olhos, nem a cabeça nem as costas. Vimos muitas caras, falámos com muita gente, sorrimos muitas vezes. Eu sorrio sempre com sinceridade e isso faz-me sentir bem.
07/03/09
vontades
A textura das situações, como se fossem coisas, a textura de um sorriso, tal como do tampo de uma mesa ou da frieza de um copo, era, de facto, o que eu gostava de escrever.
13/12/08
Estou em vias...
...de acabar de ler “The God Delusion”, de Richard Dawkins, e dá-me vontade de o recomendar a todos. Não só os que procuram entender uma data de coisas, mas também os que julgam ter o assunto arrumado. O livro explora os eventuais motivos para tendência humana para a crença, as consequências que isso teve ao longo da história, e o pouco sentido que faz alimentar rivalidades ilusórias. Enfim, é a minha leitura. Fá-lo de um modo extensivo, crítico e – o melhor – sem pôr paninhos quentes.
Vou ali num instante deitar-me na cama de rede e acabar de ler. :)
Deixo só uma citação (que encontrei no livro) do comediante norte-americano George Carlin, que me fez rir:
Religion has actually convinced people that there’s an invisible man – living in the sky – who watches everything you do, every minute of every day. And the invisible man has a special list of ten things he does not want you to do. And if you do any of these ten things, he has a special place, full of fire and smoke and burning and torture and anguish, where he will send you to live and suffer and burn and choke and scream and cry forever and ever ‘til the end of time… But He loves you!
Vou ali num instante deitar-me na cama de rede e acabar de ler. :)
Deixo só uma citação (que encontrei no livro) do comediante norte-americano George Carlin, que me fez rir:
Religion has actually convinced people that there’s an invisible man – living in the sky – who watches everything you do, every minute of every day. And the invisible man has a special list of ten things he does not want you to do. And if you do any of these ten things, he has a special place, full of fire and smoke and burning and torture and anguish, where he will send you to live and suffer and burn and choke and scream and cry forever and ever ‘til the end of time… But He loves you!
18/11/08
acho que vou voltando
Aos Domingos a cidade parecia saída de um sonho.
[Nos sonhos deambula-se muitas vezes sozinho, encaram-se portas fechadas em largas ruas de asfalto coberto por pó alaranjado. Anda-se meio anestesiado pela simples quietude do mundo.]
O vento quente levantava-lhe os cabelos, como antes imaginara. Antes. Antes de estar ali, nessa cidade aos Domingos fantasma.
Mas, descendo a rua, metia-se outra vez em Moscovo, no apartamento que se encaixotava num subúrbio, na rigidez dos olhares que se lhe cruzavam e no vestido azul da protagonista. É que, às vezes, os livros não nos largam.
E então tinha que parar e deixar passar um carro ocasional, dado que na cidade fantasma as passadeiras tinham apenas função decorativa. Deixava-o passar: uma carrinha negra grande, acelerando os vidros fumados alcatrão abaixo; coelhinho da playboy colado na traseira.
Para chegar onde ia, o único café aberto em dia de descanso, desceria ainda dois quarteirões mais. Cruzaria três hippies sentados num degrau, expondo os seus artesanatos. Topá-los-ia à distância, as rastas de um, os óculos redondos do outro (protegendo do sol num dia cinzento), a preguiça dos dois, e os olhos da rapariga a estudá-la, de cima abaixo, em busca de referência. “Do you want to see our art?” decidido que ficava, como apropriado, o modo de abordagem. Uns breves segundos atentos no livro que levava na mão bastariam. Mas que não, gracias.
Chegada à esquina encontraria um altifalante virado para a rua, pregado na parede, deitando para a rua a música que se fazia ouvir no café. “Um chamariz”, pensaria. “Um chamariz de turistas, pensam eles”. Êxitos internacionais em versão chill out por vozes de cama. Plumas nos canteiros à porta. E uma selecção gourmet de chocolates e bombons lá dentro, para além de grande poltronas entre o ferro e o salmão, iluminadas por focos impecáveis. Algo caído de um outro hemisfério a que, quando calhava, acabava por recorrer.
Faria sentido pensar em Moscovo? Em macacos que têm medo a colibris? Em saltos quânticos de objectos perdidos na selva? Faria sentido que uma pessoa levasse sempre mosquitos consigo, onde quer que fosse? E que uma dupla face pudesse ter filhos sem antes escolher quem é?
Sentar-se-ia então lendo Dawkins negar a existência de Deus. Não entenderia por que raio seria ainda necessário fazê-lo. Tudo o mais parecia bastar.
[Nos sonhos deambula-se muitas vezes sozinho, encaram-se portas fechadas em largas ruas de asfalto coberto por pó alaranjado. Anda-se meio anestesiado pela simples quietude do mundo.]
O vento quente levantava-lhe os cabelos, como antes imaginara. Antes. Antes de estar ali, nessa cidade aos Domingos fantasma.
Mas, descendo a rua, metia-se outra vez em Moscovo, no apartamento que se encaixotava num subúrbio, na rigidez dos olhares que se lhe cruzavam e no vestido azul da protagonista. É que, às vezes, os livros não nos largam.
E então tinha que parar e deixar passar um carro ocasional, dado que na cidade fantasma as passadeiras tinham apenas função decorativa. Deixava-o passar: uma carrinha negra grande, acelerando os vidros fumados alcatrão abaixo; coelhinho da playboy colado na traseira.
Para chegar onde ia, o único café aberto em dia de descanso, desceria ainda dois quarteirões mais. Cruzaria três hippies sentados num degrau, expondo os seus artesanatos. Topá-los-ia à distância, as rastas de um, os óculos redondos do outro (protegendo do sol num dia cinzento), a preguiça dos dois, e os olhos da rapariga a estudá-la, de cima abaixo, em busca de referência. “Do you want to see our art?” decidido que ficava, como apropriado, o modo de abordagem. Uns breves segundos atentos no livro que levava na mão bastariam. Mas que não, gracias.
Chegada à esquina encontraria um altifalante virado para a rua, pregado na parede, deitando para a rua a música que se fazia ouvir no café. “Um chamariz”, pensaria. “Um chamariz de turistas, pensam eles”. Êxitos internacionais em versão chill out por vozes de cama. Plumas nos canteiros à porta. E uma selecção gourmet de chocolates e bombons lá dentro, para além de grande poltronas entre o ferro e o salmão, iluminadas por focos impecáveis. Algo caído de um outro hemisfério a que, quando calhava, acabava por recorrer.
Faria sentido pensar em Moscovo? Em macacos que têm medo a colibris? Em saltos quânticos de objectos perdidos na selva? Faria sentido que uma pessoa levasse sempre mosquitos consigo, onde quer que fosse? E que uma dupla face pudesse ter filhos sem antes escolher quem é?
Sentar-se-ia então lendo Dawkins negar a existência de Deus. Não entenderia por que raio seria ainda necessário fazê-lo. Tudo o mais parecia bastar.
06/10/08
flutuando
Já não escrevo para mim. O tempo vai passando e as teclas batem para outros, alheios que são (e porquê?), forasteiros em meus meandros. Olhos de fora (e porquê?). O que sobeja de mim nestas linhas não faz jus ao agora. Este momento de hoje. Recordo, a propósito de nada, uma igrejinha em Megéve, em noite fria e com cheiro a lume. Todos cantavam, apeteceu-me ficar dentro. Talvez pela primeira vez. Recordo a tarde no pão-com-chouriço em Mafra. A água a pingar do céu cinzento, a subir-nos pelas calças compridas demais – arrastando –, a desagradar. A falta de abrigo para comer e as mãos geladas a retirar o chouriço do pão. Outras mãos geladas dizendo “eu quero!”. Recordo coisas de que já nem me lembro (mas afinal porquê?).
11/09/08
as minhas desculpas...
a quem vem aqui e nao foi avisado. Mudei de residência física e resolvi ser uma boa opcao mudar também a residencia virtual. Estou agora, e pelos proximos meses, em: www.diasnafloresta.blogspot.com
Nao digo que nao continuarei a deixar aqui qualquer coisa de vez em quando. Mas ficara esta como casa de fim-de-semana.
Como estou em terra de habla castellana: saludos a todos!
Nao digo que nao continuarei a deixar aqui qualquer coisa de vez em quando. Mas ficara esta como casa de fim-de-semana.
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