28/12/07

já está

E agora vou à Escócia desligar a cabeça. Não sei se é a cabeça. Pouco interessa. Seja apenas que vou onde nunca fui, o que há-de bastar.


E se tivermos frio, logo surgirão simpáticos cavalheiros que oferecem os kilts sem hesitar.



A ideia que fica hoje:

Querer é bonito e não querer, enfim, não querer é visto com estranheza. As vontades definidas e os objectivos traçados são daquelas coisas que devemos trazer sempre à mão de semear - na carteira, no bolso das calças, escondidas no soutien... - não vá dar-se o caso de alguma autoridade competente fazer soar a sirene e pedir-nos para encostar. "Os comprovativos de ambição, por favor". E nós muito encolhidinhos (merda que os deixei em casa!). "Ah! E já agora a carta verde das motivações, a ver se está tudo em ordem". E o pessoal a remexer o porta-luvas, a apalpar debaixo dos bancos, a sorrir entalado para o senhor agente e oh! talvez esteja na mala!, onde se vai em seguida, já transpirando e antevendo a dura realidade: é que não estamos conforme.

Pagamos a multa.

Mas é só mais uma.

Fará diferença?


Um bom início de 2008 a todos os que passarem por aqui!! :)

18/12/07

não porque ande preguiçosa...

...mas sim um tanto ocupada, aqui fica um texto adaptado que me enviaram por mail. Alguns já conhecerão, mas o resto entretém-se. Só não percebi se o saltitar entre o "tu" e o "você" é obra do senhor Millôr ou uma tentativa anónima (e falhada) de aportuguesar a coisa. Anyhow, tá giro.


"Foda-se"
Millôr Fernandes


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. "Não quer sair comigo?! - então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!" O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?

No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo: "Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!". O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.

E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"? Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”

11/12/07

livros

Penso que é mal da idade: começam a ler-se vários livros ao mesmo tempo. Como consequência, os ditos vão-se acumulando em cima da mesa, à volta da cama – onde quiserem... – naquele processo conhecido como “a ocupação livral do espaço útil”. Pilhas de leitura começada e sem perspectivas imediatas de término vão medrando sem vergonha. Sempre tive na ideia que os livros são criaturas de parco embaraço. Confere.


Encetados no momento:

“A vida sexual da minha tia” de Mavis Cheek – relata as extraconjugalidades de uma mulher nos cinquenta com um homem de quarenta; giro, de fácil leitura e daqueles que agarram;

“Confieso que he vivido” de Pablo Neruda – as últimas memórias que o senhor escreveu; leio-o devagar, devagarinho, que é de coisa de substância; faz-me pensar e viajar;

“Our Inner Ape” de Franz De Waal – needless to say o quão genial considero este (para quem tem lido o blog e aturado as minhas conversas sobre bonobos, chimpanzés e pessoas); aos que têm curiosidade em conhecer melhor as raízes do nosso comportamento, aconselho vivamente; nada técnico, escrito para o público em geral e cheio de exemplos e histórias na primeira pessoa;

“Los refugios de piedra” de Jean M. Auel – quinto volume de uma saga sobre os humanos na pré-história (romance) que devorei na adolescência e que muito me frustrou não ter chegado ao fim porque não estava ainda escrito; descobri-o este Verão na fnac de San Sebastián e não resisti a comprar, mas desinteressei-me um pouco e ali está o triste, a meio...


Em vias de:

“Destructive Emotions” de Daniel Goleman – resultado de uma reunião de cientistas, filósofos e monges budistas que, durante uma semana, em 2000, discutiram o comportamento humano; tenho algumas expectativas nele;

“Por favor não matem a cotovia” de Harper Lee - sobre o racismo aos olhos de uma criança sulista, nos EUA, lá pelos anos trinta; prémio Pulitzer e, por enquanto, mais não sei.

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Quem tiver paciência/tempo que me comente os seus livros também! Os recentes, os antigos, os preferidos, os detestados, os de revelação, os de casa-de-banho... Adoro saber. :)

06/12/07

aniversários

Rara a pessoa que passa por eles indiferente, sendo que uns adoram e outros consideram a experiência desagradável, por um ou outro motivo. No meu caso, confesso, nunca fui grande fã. Tirando os anos da infância em que receber presentes e ter a casa cheia de gente me deixava verdadeiramente feliz, desde cedo que cada ano que passa me causa uma ligeira angústia. Não é por ficar mais velha, que essa noção nem sequer tem muito de real – não é de um dia para o outro que me transformo (ou talvez seja, mas decididamente não por fazer anos!). Há quem diga que é um dia em que se pensa muito em si próprio e que, havendo descontentamentos com a vida, eles saltam cá para fora menos controlados. Mas também não acredito que todo o santo ano – quase desde que me conheço – esteja descontente com a vida. Seria demais! Para além do que penso em mim própria e no lugar que ocupo no mundo dia sim, dia não.

Depois de muito ponderar, cheguei à conclusão que não gosto de fazer anos porque me sinto sozinha. Aquela atenção que nos dedicam em telefonemas, a cantar “parabéns a você”, a tratar-nos por “o nosso bebé”, resulta para mim como se me pusessem do lado de fora e me olhassem todos de dentro, sorrindo amigavelmente. É bom que sorriam e nos acenem, mas é ainda melhor fazer parte do todo, sem a segregação. Não gosto de me sentir de parte, que não partilhemos preparativos, detesto que segredem ideias para presentes e combinem encontros secretos para os comprar, onde eu não poderei ser incluída. Parece tonto? Pois que seja. Gozo com a M. por chorar quando lhe cantam os parabéns mas entendo-a perfeitamente. É o símbolo último dessa solidão de fazer anos: uma multidão alegre que canta, fixando-nos, enquanto somos forçados a ficar calados e suportar todo e cada olhar que se nos dirige. Socialmente, trata-se de uma exposição considerável e, para mim, um pouco agressiva.

Depois há os telefonemas vários de todas as pessoas com quem falamos uma vez por ano e nos lançam aquele género de perguntas “então, que andas a fazer agora?”, às quais nos apetece imediatamente desligar o telefone, nem que seja por exaustão (que andamos desde manhã a resumir a vida em capítulos hiper condensados para satisfazer quem liga). Neste dia vão-nos dar atenção de um modo quase exigente, vão querer saber que planos temos, porquê, onde e com quem. E nós temos que o permitir. Se organizamos um jantar, a lista de convidados tende a extender-se ao triplo do desejado porque “se vai este, então tem que vir também o outro” e, no final, sentar as pessoas de modo a que toda a gente tenha parceiro adequado e se sinta bem é outro desafio. A noite é passada a saltitar de um lado para o outro para se conseguirem dois dedos de conversa com cada um e, bem vistas as coisas, sabe sempre a pouco. Eu não sou assim, saltitante. Mas, como se faz anos, é suposto estar-se nas nuvens. Veste-se essa carapaça (é só mais uma) e amansam-se as expectativas sem fazer ondas. Então, se por um lado gosto muito do dia sete e o associo sempre a mim e à bisavó desconhecida que me deixou o nome, por outro lado também é verdade que ele acaba por ser um símbolo de solidão.

Há histórias engraçadas de aniversários aí fora para contar? Aqui em casa repete-se aquela do dia em que eu, com seis ou sete anos, me casei em cerimónia pomposa com o namorado da altura, um tal de Bruno, segundo orientação e preparativos da Ilda, a nossa empregada na época (personagem com muito que se lhe diga). Vestiu-me de branco, pintou-me e arranjou até pétalas que todos os miúdos lançavam, delirantes. O Bruno, também muito divertido, vestia um casaco do meu pai que lhe ia até aos pés. Do resto já não me lembro bem, mas creio que chegámos a ter um filho, se é que ele não ia já enfiado debaixo do vestido na altura do casamento. Algum dos presentes se lembra deste pormenor? Vindo da Ilda, é bem possível.

Trago também algumas recordações das festas em que a minha madrinha aparecia mais cedo e insistia em fazer a decoração da sala com grandes laçarotes por todo o lado. Como imaginam, sempre fui muito dada a essas coisas e não me envergonhava absolutamente nada quando as minhas amigas apareciam...

Bem, mas este ano a M. acabou de receber o primeiro ordenado e calcorreámos o Colombo há uns dias para ela dar provas da sua dedicação fraterna. E que bem que lhe ficou. Já compensa alguns telefonemas, senão mesmo um parabéns a você!

05/12/07

dúvidas assim-assim

Gerir este estabelecimento só tem um pequeno senão. É que se se passa mais de alguns dias sem escrever, logo surge um indignado: “atão!?” (o rolo da massa mal escondido atrás das costas). Dantes incomodava um pouco – essa ideia de não estar a cumprir expectativas – mas com o tempo a pedrinha saltou do sapato. Claro que, para mim, este espaço só faz sentido se for para ser lido e, de preferência, comentado. De outro modo guardam-se as ideias em cadernos e gavetas. Caixas de sapatos. Ou então é largá-las algures no fundo de ouvidos atentos.

Também tenho a noção de que para cada acção existe um reacção e, na ausência de novidades, o interesse esmorece. Regra absoluta, que aceito prontamente, sem amuos.

Apesar de a minha real gana estar mais ou menos virada para outro lado, vejo-me esta noite “obrigada” a escrever uma pastelada qualquer. A causa é nobre e fraterna: M. enfrenta diariamente significativa percentagem de tempos mortos no escritório – karma desgraçado – e nesse seu ócio forçado, dedica-se a bonitas leituras electrónicas (como a que deste blog resulta!). Então, com todo o meu amor para M., aqui fica algo com que gastar cinco minutos. Pensando bem, por cinco minutos não é uma grande ajuda...

Comentava outro dia aqui a Sinhora Maria, amiga recém-bloguista, que uma das grandes questões com que se depara actualmente é “qual a relevância da minha tese?”. Deixou a coisa mais ou menos em aberto, sublinhando que não deixa de delirar quando descobre índices novos (cambada de nerds que eu conheço, chiça!..). Mas a questão que nos exibe Sinhora Maria parece-me, em si mesma, de particular relevância. Está longe de ser a primeira vez que a ouço e suponho que ainda mais longe de ser a última. Por coincidência ou não, ainda há uns dias recebi um mail deste gajo, como resposta a um artigo que lhe tinha enviado e que, segundo o próprio, o fez passar uns dias a pensar “porque raio é estou a fazer um doutoramento e onde é que isto me vai levar?”. As vezes que eu própria enfrentei a pergunta este ano foram algumas. Porquê? Para quê? Acho engraçado que a dúvida e a inquietação surjam com tanta frequência em quem se dedica à investigação e em tão menor grau no resto da população. Não me parece que seja apenas o factor económico e a instabilidade do sistema de remuneração por bolsas a dar o mote. Um doutoramento dura quatro anos, o que talvez não seja garantia menor do que a oferecida pela maioria dos empregos actualmente, para quem quer começar a trabalhar. Porque é que passamos o tempo a questionar-nos se vale realmente a pena, se tem utilidade, quando as pessoas que atendem telefones, analisam leis, criam soluções informáticas, limpam casas-de-banho, vendem imóveis ou dobram camisolas na Zara, parecem fazê-lo com tanta tranquilidade e aceitação? Sinceramente ainda não percebi porque é. À minha volta toda a gente aparenta estar segura da utilidade daquilo a que se dedica. Precisamos de casas para viver e de telemóveis para falar, de trocas comerciais e de toda a gestão, marketing e publicidade que daí advêm. Precisamos de informação, de garantir justiça, de saudinha para cá andar e de manter tudo nos conformes, dentro das normas que criámos para o efeito. Tudo bem, parece até haver um sentido comunitário. Mas individualmente, o que mantém as pessoas? A senhora que atende telefones dia após dia, o que a mantém? Ou mesmo a que gere a sua empresa, teclando no excel até altas horas da noite, o que a mantém? Porque não duvidam elas daquilo que fazem? Como é que se aceita? Como se transforma uma ideia, um conceito de necessidade, na repetição imensa dos dias? A mim faz muita confusão.

Para animar, parece que a felicidade está nas pequenas coisas. Por exemplo, não é por se substituir um peugeot 205 (grande máquina, por sinal) por um porshe que o nosso standard de felicidade se eleva. O que acontece é uma explosão de bem-estar na altura da aquisição e logo um rápido regresso aos valores de base. O que nos faz realmente sentir bem são os pormenores do dia-a-dia: um banho quente, uma refeição saborosa, umas gargalhadas, um passeio descontraído e, assim como assim, uns minutos de leitura...



(no meu caso, apanhar um gavião a jeito também surte efeito)

29/11/07

mais de ser humano

Eu acho (e notem o peso destas duas palavritas juntas, apenas por prepararem uma emissão de opinião desta ilustre alma que vos escreve), acho mesmo, que sobrevalorizamos muito a racionalidade.

No início, era a emoção! – e assim devia começar toda uma bíblia, porque não? No início do que quer que seja, bate sempre a emoção. Qualquer uma. Ânimo ao receber uma boa notícia. Desagrado com um cheiro menos simpático. Medo do cão do vizinho. Encanto em frente a uns olhos perfeitos. Nervo miudinho na véspera de um exame. Tranquilidade ao entender que tudo acaba bem. No mínimo temos a dicotomia bom/mau a indicar um caminho. Gosto ou não gosto. Uma arma eficaz para as decisões rápidas. E depois lá entra o cognos ‘alto lá, alto lá, o que é que se passa aqui? Eu é que lidero, nada dessas manias primitivas de se precipitar! Os sentimentos têm um moootivo!’. E pronto, que somos bichos pensantes, logo que forçosamente, por a+b, ou por a+b+c, existem regras firmes e invisíveis para as emoções também. O que se deve ou não sentir. Aquilo que se aceita, muito bem, com palmadinha nas costas e aquilo que é repreensível (não tens vergonha de ser tão ganancioso?) e, até, moralmente inaceitável. Não sei muito bem o que significa a moral, mas hei-de investigar.

Suponho que tudo tenha motivos, sim. Mesmo as emoções. A questão é que elas não são controláveis. Posso sempre drunfar-me antes do exame, mas não é uma solução a longo prazo, nem evita que me sinta nervosa sempre que um novo aparece. Posso ocultar a inveja que sinto do amigo que conseguiu comprar casa ou posso mesmo até transformar esse sentimento num de alegria partilhada, que até ajuda a descomprimir. Posso morder a raiva que sinto quando me acordam sem motivo. Posso também mascarar a desilusão de receber um presente inútil ou, sei lá, a tristeza de uma crítica lá onde dói. O que quero sublinhar é que podemos ocultar, mas não deixamos de o sentir. Entendo que não se possa agir sempre em conformidade, que redes sociais são palcos altamente instáveis... Mas porque gastamos tanta energia a fingir que não somos feitos de emoções e, talvez até pior, a convencer-nos a nós próprios que as coisas não nos afectam?

Just a thought.

PS1 - Ainda não me livrei da coisa, mas já pouco falta.
PS2 - Obrigada pelos comentários, que vou sempre adorando ler. :)

23/11/07

diz que estamos quase naquela data

Lá vamos nós outra vez... Luzinhas, compras, música irritante por todo o lado, mais compras, e luzinhas, pessoas com sacos - e já mencionei as luzinhas em todo o lado? - outras pessoas com compras, pessoas em stress, pais natais a tocar musiquinha irritante... E daqui a nada começa o "se não nos virmos, Bom Natal" e o "muitas prendas no sapatinho". Aaahhhhh! Insuportável. Todos os anos decido que já basta, que é desta que passo por cima do acontecimento. Só que depois, como boa ovelha, deixo-me ir com o rebanho. Dia 24 à tarde lá faço umas corridas para que à noite tudo seja como esperado. O jantar é fixe, podíamos até combinar um dia para trocar presentes. Mas porquê o suplício da época do senhor gordo vestido de encarnado? Detesto ver tudo a piscar, todas essas mini-lâmpadas intermitentes que são uma verdadeira tortura visual. Odeio que sejamos todos iguais em toda a parte do mundo, não posso com a descaracterização. E irrita-me essa obrigação de comprar coisas só porque sim.

Sei que há muitos aí fora que são tão natalícios como eu... Então, para animar, deixo-vos o senhor Eddie Izzard. Cinco estrelas. Quase vale a pena que haja Natal só para o ver gozar!

17/11/07

fecharam as urnas!

Atingimos 28 votos, o que é quase 30 e, assim sendo, fico contentita. A análise dos resultados bastará ser gráfica, porque a coisa é simples... Observe-se a figura. “Prazer mútuo” bate aos pontos as restantes alternativas votadas, quer por machos, quer por fêmeas. Devo por isto depreender que existe uma preocupação com o próximo? Ou será que do acto se retira verdadeiro prazer? Altruismo ou egoísmo mascarado? (aprendam, é assim que os investigadores arranjam projecto atrás de projecto: logo que têm os resultados de um qualquer assunto, desatam a fazer mais perguntas e a pedir “ó faxavori, oriente aí mais um financiamentozeco para eu tirar esta dúvida chata que não me deixa dormir!”).


Falemos de oralidades. Ainda esta noite contava à caríssima SemNexo que o hábito símio de beijar na boca tem como base evolutiva a passagem de comida mastigada da progenitora para a cria. Como ela muito bem observou, dantes não havia Minipimer para ninguém! Então pensa-se que, à semelhança do que acontece ainda com os chimpanzés, as mães mastigavam a comida que depois estendiam no lábio inferior para a boca dos filhotes. Daí que um beijo seja, além do mais, um símbolo de confiança – não só se trocam fluidos e transmitem microorganismos como, segundo o senhor Franz de Waal, a boca é das zonas mais sensíveis que temos.


Também o sexo oral, até há relativamente poucos anos considerado uma invenção da máquina sexual humana, tem o seu match nos bonobos (para quem não conhece, uma espécie do género Pan – tal como os chimpanzés – que só se descobriu em 1929). Da mesma forma que com os chimpanzés partilhamos uma sistema de organização político e patriarcal, com os bonobos partilhamos um profundo "interesse" no sexo. É provável que o facto de sermos também os primatas que exibem sexo oral esteja relacionado com isto. (nota: últimas frases modificadas após pertinente comentário de joãopestana, preocupado que estava o colega (e com razão) com a transmissão de informação incorrecta ao meu "leque" de leitores)

Há tanto e tanto para dizer sobre este assunto... Mas como não estou para grandes pesquisas às cinco da manhã, tentarei abreviar o assunto. Duas mulheres responderam que só gostam de ser receptoras (o que até esperava que fosse mais vezes opção, por ambos os sexos) e um homem e uma mulher disseram que só gostam de fazer. Só gostam de fazer!! Haja diversidade. Por junto, não encontro nestas respostas grandes diferenças entre os sexos. Estavam à espera disto? Eu sei que a amostra é minúscula, mas mesmo assim tenho curiosidade em saber o que pensam. É que fui ouvindo comentários durante estes dias que me deixaram a sensação que cada um tem ideias bem marcadas: “ah, eles é assim!”, “não, não, elas é que tal e coiso...”, ou então “está-se mesmo a ver que vai dar isto”.

No final parece que tudo se rende do mesmo modo que o vizinho do lado, autor do inquérito, que acabou de escrever a comemoração do post nº69!

13/11/07

o que faz falta é animar a malta!

Do que eu gosto mesmo é que me digam – com aquele ar grave que rebenta ciência pelas costuras –, que “já está na altura de arranjar um namorado e assentar”. Porque pelos vistos existem alturas e parece que esta é a altura. Ou pelos menos uma das alturas. Verifica-se também que este imperativo é independente da pessoa escolhida para o efeito, porque pessoas, por amor da Santa!, é o que não falta neste mundo. Qualquer atitude em contrário é prova da minha má-vontade ou de uma teimosia estapafúrdia que só almeja estragar os planos bem-intencionados dessas altruistas almas que por mim sofrem.

Ora bem... Vou descrever então um episódio passado (onde, onde, quem adivinha?) numa bela boda que ocorreu há coisa de mês e pouco. Lá estava eu arrumadinha como manda o protocolo (para que não me acusem de ser do contra) quando chegam duas tias, aquelas-cujos-nomes-não-podem-nesta-crónica-ser-pronunciados, apoiando a querida avó e, a páginas tantas, não decidem nada melhor do que bloquear-me a passagem. Tipo operação stop. Aproxima-se logo a primeira, muito coladinha à minha cara e inspecciona-me de alto a baixo, dengosa: ai a minha sobrinha de vestido, está tããããão liiiiinda! E, vou eu, espeto o sorriso amarelo nº24 (ninguém nota, tenho-os todos treinados). Julgo escapar-me, mas devo estar é louca. Entra a segunda em cena, agarra-me firme no braço – como se para garantir que não me escapo – e segue com uma ladainha que nunca na vida pensei ouvir (êta minina ingênua!): Então e de moço como estamos? Olha que está na tua vez!, diz enquanto aponta com o nariz para os noivos que dançam na pista. E eu juro que lhe vejo uma faíscazinha a saltar dos olhos, qualquer coisa entre o gozo e o ódio que não consigo definir, mas que definitivamente me assusta. Vacilo. Na minha vez?? Não sabia que havia vezes... Ninguém me avisou que havia VEZES!! Como é que hei-de fazer isto agora, tão em cima da hora?? Balbucio qualquer coisa sem nexo, pois que fui apanhada de surpresa. Volta a primeira à carga: não te despaches não, que depois acontece-te como à A. porque as mulheres têm prazo de validade e como já lhe disse o médico esta brincadeira de esperar até depois dos trinta para ter meninos depois dá no que dá... E eu aqui penso seriamente em torcer o braço da que ainda me segura, fazer uma placagem lixada à primeira, resgatar a avó que me olha com alguma piedade e, com a justiça que me cabe, deitar por terra todo o Mal. Mas depois contenho-me. Com alguma dificuldade, e depois de engolir várias vezes em seco, consigo finalmente recolocar o sorriso. Desta vez o 37, mais apropriado para situações de choque pós-traumático. Segue-se um breve silêncio, no qual me sinto bastante incomodada. Os quatro olhos continuam a fixar-me com uma certa gula. Gula de fofocas, suponho, que não vejo do que mais possa ser. Ou gula de razão, que é o que quase toda a gente quer ter. Não sei. No fim, em vez de resgatar eu a avó, salva-me ela a mim, afastando com serena autoridade as duas graciosas e deixando-me com um: deixe lá filha, não ligue às suas tias, ainda é tão novinha, tem tempo para tudo o que lhe apetecer. E eu “uffff” (que para mim a voz da terceira idade é quase a voz da Deusa).

Estive quase, quase, quase para me virar para as duas e deitar a língua de fora, como se tivesse cinco anos (porque era tão giro quando tinhamos cinco anos!). Não o fiz, mas foi como se tivesse feito. Minhas caras, aqui não se vende fiado nem se aceitam encomendas, capiche?

10/11/07

às cinco da manhã

Chateia-me poder morrer a qualquer instante. Assim, pumba! Uma pessoa vai muito bem na sua vidinha e, sem mais nem menos, zás catrapás. Foi-se. E depois? Depois... Nem sequer é o depois que me apoquenta, é tudo aquilo que fica por fazer. Tudo o que nunca se experimentou. O que não se disse. Todas as gargalhadas por soltar e as lágrimas por ocultar. Todos os nervos, todas as dores, todos os achaques e compaixões. Todos os dias que passam de mansinho e os outros que disparam que nem loucos. Todos os cheiros e mais os olhares. Todos os comboios que se perdem sem sequer se correr atrás. Todo o chocolate por comer e os filhos por ter. Todas as letras que se esfumam e os sonhos que morrem sem chegar a ser. Todos aqueles que ficam e que continuam, porque sim. Só porque sim. Tudo aquilo que ainda será na minha ausência.

Li um dia, algures (como sempre), que já não sabemos viver com a morte. Que fazemos por esquecê-la por ser coisa de velhos – a que um dia chegaremos mas com calma que não há pressa. Que os nossos ritos são rápidos, a memória é curta e o lema é andar para a frente. Seguir com a vida, percebem? Nunca tinha pensado nisto. Dantes confrontava-se a morte cruamente, as crianças morriam, os jovens morriam, as mulheres morriam, os homens também morriam e, quem tivesse a sorte de chegar a velho, sorria sem dentes e agradecia a Deus. Agora não queremos saber do assunto (de que nos serve saber do assunto?) mas, na verdade, todos continuaremos a morrer. É uma questão de tempo. E o tempo, ui, o tempo... Se fosse peixe era uma enguia, de ágil e fugidio. E estranho que ele é, também! Complicado. “Ontem” é um mal-amanhado resumo de memórias filtradas por um cérebro particular, cheio de falhas. “Amanhã”, uma folhita amarrotada de tanto traçar e apagar, voltar a escrevinhar e de novo borrar...

Nem sei. Se morrer é uma questão de tempo, estou bem tramada.

08/11/07

inquérito

Pessoal é assim: tudo às urnas no blog do lado, a ver se conseguimos um N jeitoso. O tema mete sexo, pelo que interessa a toda a gente! (não finjam que não, eu sei que sim...)

Por coincidência ou não, acabei de encontrar no nick do messenger de um amigo a seguinte frase "sabes o que é melhor num broche? os 10 minutos em que estás calada!". Bastante a propósito. Vão votar.

Desde que haja dados para isso, no fim responsabilizo-me pela análise estatistica (se o calvinn o permitir, obviamente). :D

Ala! Vou voltar para os passarinhos agora...

07/11/07

incapacidades de ultimamente

Ando-me a sentir como uma laranja: espremidinha, espremidinha. Mesmo que queira deixar aqui umas linhas de vez em quando, não consigo... A sério que não consigo. Estou agora completamente formatada naquele discurso rígido e idiota, tipo "verificou-se existir uma tendência estatisticamente significativa entre o número de horas passadas sentada em frente ao computador e o agravamento da sanidade mental do indivíduo".
Perdi vocabulário (que já não digo coisa com coisa), volume neuronal na certa e sinto as sinapses bloqueadinhas. Não sei se voltarei a ser a mesma. Teme-se o pior.

31/10/07

no céu espelhado - VII

Neste momento pensam vocês esta gaja é parva, então tem uma tese pa escrever e vem outra vez falar do creoula?. Pois tenho. E cá estou. Mas este pequeno episódio já estava escrito e reparei que se escaparam 10 dias desde que postei o último. Os instruendos têm de ser alimentados.

Há a história do gato malhado e da andorinha sinhá. Há a história da gaivota e do gato que a ensinou a voar. E há a história do Cabo Costa e da andorinha-do-mar...

Era uma vez o Cabo Costa que manejava os seus cabos em descanso quando as instruendas atentas subiram a bordo, no Alfeite. Cabo Costa viera recentemente do mar do Norte, onde tinha estado a filmar mais um anúncio da Old Spice, ao eterno som Orffiano de Carmina Burana (aquela assim: “tan tan tan tan, TAN TAN, tan tan tan tan, TAN TAN, tan tan tan tannnnn tannn tan tan...” tão a ver, não é?). Das gravações intensivas ao som da música, Cabo Costa acabara por ganhar um olhar um pouco ausente, talvez misterioso, um ar que se tornava apelativo. Mas as instruendas miravam à distância, cada uma medindo em silêncio os seus poderes e calculando probabilidades baseadas em distribuições Gaussianas, como haviam aprendido (e com distinção) na Escola Mediana dos Supra-Heróis com Potencialidades e Mania das Grandezas - “EMSHPMG”, como se dizia para facilitar...

Cabo Costa só era avistado às vezes, normalmente à hora da faina de mastros em que todos eram obrigados a subir ao convés para içar as velas. Aí vinha ele, trazendo consigo o porte da Gant e cumpria com gosto o seu dever. Upa upa, força, muitos sorrisos, “VAI, VAI”, gritava aqui e ali e depois desaparecia. Era uma pessoa cordial e atenciosa. Logo na primeira faina, aquela em que Cajó passeava a máquina de filmar e soltava comentários à canal Odisseia, Cabo Costa deu-lhe a missão de rodar um certo botão para on à sua ordem. Cajó, compenetradíssimo, fixou todo o tempo o aparelho para que o botão não lhe fugisse. E, não só conseguiu, como filmou a proeza!! (foi nesse momento que virou o écrãn da máquina para si próprio, sorriu em rasgo e ergueu o punho num sinal claro de vitória). Pensei: Cabo Costa, além do mais, é esperto, ocupou o irritante e manteve-o quieto para não estorvar. Palavra mais linda, esta do estorvar...

E, de resto, quase não se deixou voltar a ver. Até à noite da andorinha.


Regressávamos já a Lisboa e deviamos navegar algures ao largo da costa vicentina. Tinha sido o primeiro dia de ondulação forte e as aves voavam agitadas por cima do mar. Nessa altura já só tínhamos turnos de dia e, naquele momento, começava a escurecer. O turno estava no fim pelo que, como sempre, mais de metade de nós sentava-se na popa, junto à ponte, a ver o tempo passar. Cabo Costa marcava presença, não sei se estaria de turno também. Começámos a prestar atenção a uma andorinha-do-mar que fazia vôos rasantes à ponte, circulava o local e era depois arrastada pelo vento. Impressionou-me como o bicho parecia uma folha de papel à mercê dos elementos. E Cabo Costa ficou também impressionado! Estava fascinado... Sussurrava quase tanto como a Rapariga-Sussurrante, para não incomodar a ave que, num arremesso, se conseguira atirar à ponte e encaixar lá num spot com menos vento. Podiamos aproximar a mão até uns 20 centímetros da gaja, que ela não se mexia. E o Cabo Costa, todo derretido, não lhe tentem mexer, não assustem a coitadinha, ela está estafada! E eu a pensar atão não é suposto serem marujos rudes do mar? Confesso que mal topei a andorinha achei que estava tudo fod... e que pouco tardaria para jantarmos Sterna hirundo no espeto, esse belo pitéu (sempre variava do atum, não era?). Mas, graças ao Cabo Costa, que fez ali guarda à bicha, afastando com ímpeto e alguma ofensa as “brincadeiras” dos amigos, a andorinha passou uma noite tranquila. Era bonzinho. Não desenvolvia muito, vim a perceber um pouco mais tarde, mas era bonzinho.

29/10/07

e o dia amanheceu com novidades

MAIS 15 DIAS!! Vou ter mais 15 dias!!!! O Senhor existe e ouviu-me! Prometo, prometo, prometo, promeeeeeto, que vou continuar muito concentradinha... Só que agora passo a dormir. :)

28/10/07

ainda há vida deste lado

Estou cansada. Por enquanto não posso escrever mais do que estas poucas linhas. Sublinhando que estou cansada. Durmo pouco. Dói-me as costas (passo o dia ao computador), os olhos (fixo linhas e quadradinhos o tempo todo), a cana do nariz (nunca chego a tirar os óculos) e, não esquecer, dói-me a cabeça – tudo isto não estaria completo sem ela.
É só mais uns diazinhos... Ainda falta tanta coisa... :(
Pela positiva, hoje ganhámos uma hora. Soube que nem ginjas.

21/10/07

no céu espelhado VI

A realidade não voltou a ser mesma desde que, cavalgando já um mar vagalhoso (notem como continuo a inventar adjectivos sem hesitar), entrei com a Wonder-Sister na casa de banho das fêmeas. A intenção era, segundo me recordo, fazer um aliviante xixi – coisa que quase peca pela vulgaridade, eu sei.

No momento em que abrimos a porta, o cheiro foi nauseabundo. E veja-se que já tenho cheirado muita coisa, dou garantia segura do calibre de mau cheiro!

- Bem, que pivete! Ganda nojo... (eu)
- Pois, parece que as meninas da faxina hoje não levaram a coisa muito a sério (ela)

Depois de todo um repertório de caretas, lá nos decidimos a dar o passo seguinte e aproximar-nos das retretes. Quando me apercebi, Wonder tinha entrado no compartimento que havia entre as retretes e o duche e saía a rodopiar já com o seu fato de super-heroína (acho que gramava da cena à Clark Kent) e mais que preparada para a batalha, de líquido de limpeza em riste. Surpreendi-me. Ena, que eficácia! E colei num post-it mental: Em caso de crise odorífera, chamar WS. Entretanto já o colei também num post-it real, no frigorífico aqui de casa – espero que ela não se importe, é que dá sempre jeito ter alguém com disponibilidade para dar um jeitinho às casas-de-banho.

Inspirámos fundo e abrimos as portinhas dos cubículos infernais.
.......................
Foi...
..........
......
uma visão.....
.......
.................
como dizer?...
.......
aterradora!

Aquele fundinho de água que costuma ficar lá em baixo e serve fundamentalmente para amplificar o som que o xixi faz ao cair (tshhhhhhh) e avisar aos demais ocupantes do espaço, quando este é público, que ainda não terminámos, um barulhico para as orientais muito constrangedor (não sei se sabem, ficam a saber), bem, dizia eu que aquele que costuma ser um fundinho de água estava, nesse momento, transmutado numa massa negra, de cheiro pestilento, que a cada balanço do barco subia perigosamente de nível. Wonder-Sister desatou a esguichar um desinfectante para dentro da água nojenta e foi puxando o autoclismo repetidamente, a ver se ajudava. Eu imitei, mas tivemos pouco sucesso.

- Não vale a pena, vou fazer xixi à casa-de-banho dos homens. (eu)
- Vais? Pois... não resta muita alternativa.. (ela)

Saímos para o corredor e eu espreitei a fresta da porta em frente. Não convinha surpreender um instruendo mais exibicionista que saísse do duche em pelota. Ainda por cima sempre ouvi dizer que os machos fazem concursos de tamanhos, pelo que adivinhava já um pelotão alinhado de régua e piloca em punho e queria poupar a Wonder, desgraçada, de semelhante visão! Só que a sabidona percebeu que eu lhe ocultava algo do outro lado e, num rápido spin fez-me saltar dali para fora, decidida a usar os seus poderes para abrir a porta. Com o que ela não contava era o próprio Creoula a ajudar! No momento em que aplicou a sua força bruta na porta, o barco deciciu balançar para o mesmo lado e a gravidade deu uns pózinhos de perlimpimpim. Resultado: Wonder entrou em pleno vôo na casa-de-banho masculina, conseguindo um impressionante efeito bate-cú e um olhar boquiaberto por parte do rapaz que se barbeava (em tronco nú, aha! eu sabia!) em frente ao espelho. Aqui a Cara-d’Anjo não evitou as gargalhadas que o momento exigia, Wonder que me perdoe.
E depois lá fizemos um belo xixi, com o rapazinho barbeado a vigiar a ocorrência, para que ninguém entrasse a voar e nos surpreendesse.

18/10/07

gostava de...

Despir os papéis. O Lobo Antunes diz que sim, que os despiu. Invejo-lhe a descontracção, esse modo como se orgulha sem vergonha. Diz que é para a eternidade que escreve... (também, o que é que se faz que não seja para a eternidade? )

Entendo-o. Escreve para a eternidade. Também eu tendo para infinito.

15/10/07

no céu espelhado - V

Urge apresentar o último elemento do esquadrão “Instruendos Fantásticos”, para que não se diga que há discriminação a pão e vodka (apenas pouco tempo e algumas falhas de criatividade).

PeterPan-de-RayBan não era mau moço. De todos, o instruendo mais dado às artes de bem navegar (embora não lhe escapassem outros prazeres desta vida) e também o mais camarada de seus compinchas marujos. Atento e preocupado com o próximo, houve até quem lhe visse certo dia um avental de cozinha que, em acto de profundo altruísmo, vestira para ajudar um não-companheiro de grupo (instruento-não-fantástico, portanto)! É o que consta…

A ele coubera também a complicadíssima tarefa de reunir os elementos do sexteto de sucesso. Que capacidade de cálculo, que visão!! Qual polvo gigante lançando cinco dos seus tentáculos para agarrar aqueles que lhe pareceram os melhores candidatos a super-heróis do Creoula, ao mesmo tempo que se apoiava a si próprio apenas nos três tentáculos restantes (notem, mais uma vez, o espírito de sacrifício), o homem lá conseguiu reunir um grupo de elite. Modéstia completamente à parte.

Resumindo, para quem já se perdeu: a jogar pela equipa dos machos tivemos Don-Lerpas, o non sense personificado para nos animar dia e noite e PeterPan-de-RayBan, argamassa da estrutura, a fundamental nata do strogonoff. Pela equipa das fêmeas jogou-se com Rapariga-Sussurrante que contribuia com vocábulos relativamente complexos e eloquência em barda, Wonder-Sister que apostava na plasticidade social e poder de mediação, Sininho (a.k.a. IC19) cujos entusiasmo e força atingiam qualquer um que lhe fizesse frente e, finalmente, a tal Cara-d’Anjo, observadora de serviço, treinada desde cedo nas artes da invisibilidade.

E agora pode seguir o baile.

No dia em que a barraca abanou mais à séria, o fadista metaleiro insistiu no dvd dos Metallica, o Cajó enjoou que nem um perú, e a Wonder-Sister entrou em vôo na casa de banho dos homens. Nada mau para um dia só. O fadista – que na verdade não era fadista, apenas lhe chamavam assim – era um mocito pela minha idade, mais para o gordo que para o magro, sempre calado, branquinho de pele e com bochechas rosadas. Assim tipo os habitantes de Mangualde*. Adorava fazer nós em silêncio, dançando suavemente as mãos sobre o cordel. Nada que fizesse prever o aficcionamento pelo rock da pesada. Mas era vê-lo na messe, vidrado no concerto a que dera vida na televisão, dizendo que sim com a cabeça ao som do ritmo. Nada de exaltações, nada de manifestações de grande regozijo. Só uma data de sims ritmados e seguros, quase orgulhosos. E os IF, resistentes, a superar a adversidade sonora!

Agora que falei em nós, lembrei-me de outra coisa: o Cajó sentou-se ao meu lado na aula de nós que o mestre deu (como se pode comprovar nos registos fotográficos que Don-Lerpas gentilmente fez do momento). Quem é que pode adivinhar o que é o senhor dentista passou o tempo todo a murmurar entredentes? Terá sido “oh please, isto é básico”? Não! Lá agora! E depois teve o desplante de, quando a coisa complicou um pouco, começar a olhar de soslaio para os nós do vizinho, um simpático que andava sempre de calções (mesmo a chegar a Lisboa às 3 da manhã com um frio desgraçado!), cheio de energia e que noutra vida fora cientista maluco. E como era muito simpático, o simpático lá lhe ia mostrando os nós sem reservas. Haja pessoas boas!

Eu, por exemplo, não sou completamente má. É só uma veiazita. Aliás, no geral sou bastante compreensiva. E deve ter sido por isso que quando o Cajó, que fingia lavar pratos ao meu lado, começou a ficar cada vez mais calado e a espaçar as suas preciosidades arrogantes (e.g. “é inaceitável que nos ponham a lavar com um fiozinho de água destes!”), me bateu uma certa pena. A embarcação balançava como se aí viesse o fim do mundo e a loiça que não era posta logo dentro do lava-loiças despencava por todos os lados. O Cajó já só suspirava de vez em quando e o Charréu olhava para ele rebolando os olhos com justa impaciência. Então a criatura arranjou forças para dizer: “Ai, parece que tou a ficar maldisposto, daqui a nada é ala para a camarata!” E ainda que isto fosse um aviso de que me iria abandonar a qualquer momento, que eu não sou parva, decidi dar uma de Madre Teresa (ou de Wonder Sister, que também se aplica) e oferecer-lhe os serviços dos meus vomidrines. Oh, os olhos até lhe brilharam! Claro que a partir daí passou a chagar-me para lhe dar comprimidos. Fui dealer por um dia. Mas uma triste dealer, sem qualquer tipo de proveito.

Concentremo-nos ainda no balanço. É forçoso imaginar tudo isto com as paredes a andarem de cá para lá e o pessoal a entalar as cervejas entre as pernas para não escorregarem da mesa. Ao som gritante dos Metallica. Tá? Então, nesse ambiente, eu e a Wonder decidimos arriscar uma ida à casa de banho. Errado. Grave.


(estou noveleira, fica o resto para o próximo episódio...)


* uma das minhas terras natais.

mas que grande bandalheira vem a ser esta???

Meus caros, acabei de chegar.

Acabei de chegar e antes de mais postar não pude evitar ler todos os vossos comentários! Muito bem... Folgo em ver que já mantêm diálogos independentes dos post que eu deixo. É a anarquia!!

O episódio contado por i35 era um dos que fazia parte da minha listinha mental, agora terei que ponderar a sua escrita (ficando o inominável com ainda menos protagonismo, ó grande desgraça!).

E parece que anda por aqui um comentador a querer sacar informações comprometedoras! Mas IF que é IF só compromete Cajó. Eu, pelo menos, foi o juramento que fiz! :p

11/10/07

fico em banho-maria

Sei que há alminhas sedentas de continuação para as histórias do Creoula. Só que entrei em estado de pânico ao perceber que tenho MESMO que acabar de escrever uma certa tese nas próximas semanas.

Amanhã vou-me evadir para parte quase incerta durante uns dias, a ver se me concentro. Como não terei direito a internet nem a televisão (resta saber se já há frigorífico!), estou confiante de que funcionará. Prometo tentar escrever qualquer coisinha mais interessante nos intervalos, mas não o posso garantir. I'm very sorry my friends...

Como diz a SemNexo, é o efeito corda-na-garganta a fazer-se sentir! :(((

09/10/07

she's back!!!



Voltou, voltou, Priscila voltou!!

De emocionada, perdi o pio...

no céu espelhado - IV

A bordo de um navio, quem tem chocolate é rei. Os recursos são escassos e o mar é grande demais para se dar um saltinho à loja de conveniência quando a gula aperta. Portanto, o bom senso obriga a uma certa panelinha, apelando sem dúvida a atitudes mesquinhas e egoístas aquando do consumo do referido bem.

Certa noite, em amena reunião chocolateira (um euro por cada palavra inventada e já poderia pagar viagens no Creoula aos meus leitores mais fiéis), um vulto surpreende Rapariga-Sussurrante, Wonder-Sister e IC19. Esta última de imediato esconde o pacote de m&m’s atrás das costas, pendurando até a mão do lado de fora do barco, a ver se não dá cana. As três entreolham-se e o clima é tenso. O silêncio só não é cortado com os esperados “gri-gri-gri” porque, até prova em contrário, no mar não há grilos.
- Boa noite – diz a voz masculina – Então, vieram apanhar ar?
O comandante! Homem de conhecido faro e aspecto amigável materializava-se, de repente, na tentativa de levar consigo uma bolinha de chocolate e amendoim. Assim, sem mais nem menos! IC19 manteve firme a posição. Daria a vida para ocultar as preciosas guloseimas, andaria na prancha sobre tubarões famintos ou subiria à gávea se tal fosse necessário.
- Pois, viemos cá acima, está uma noite tão bonita... – decide responder a Wonder-Sister, mordendo a vontade de o despachar dali para fora. Não pode fazer mais nada. Há, apesar de tudo, uma questão hierárquica impeditiva. Reza então mentalmente à sua santa predilecta, a dos aflitinhos asmáticos (não perguntem porquê, cada um com a sua tara), para que as desenvencilhe de tamanho sufoco. Só que a Rapariga-Sussurrante, que afinal de contas se juntara à reunião um pouco mais tarde e não se apercebera de que havia somente TRÊS m&m’s para partilhar, folga um pouco a defesa e começa a dar trela à conversa do oficial. As outras duas vão ficando nervosas, principalmente IC19, cuja mão começa a tornar-se dormente devido à posição de pedra.
Eu, moi même, chego já a conversa vai no fim. Estranho. Sabia virem ao chocolate nocturno e não esperava encontrar o comandante inserido no grupo. Ainda com os olhos mal habituados ao escuro, procuro a côr amarela do pacote de m&m’s. Não a vejo em parte alguma... Dando largas ao meu próprio egoísmo (que o Don-Lerpas insiste ser do tamanho do mundo), desejo que o comandante não se tenha apercebido do motivo da reunião e fanado aquelas preciosas bolinhas coloridas.
Por fim o homem vai-se embora. Olho para elas que, acto contínuo, desatam a rir. IC19 ainda está nervosa:
- Ó Rapariga-Sussurrante pá, nunca mais acabavas de dar trela ao gajo!!...

Diga-se que, a partir dessa noite, a IC19 não voltou a ficar tranquila. O comandante, segundo a própria, perseguia-a constantemente. Queria os seus m&m’s! Escondido atrás dos dóris, pendurado num mastro, disfarçado de ajudante de cozinha ou, até, agachado atrás de uma moita, lá se encontrava o digníssimo. À coca...

jantar fora

Oito e meia no Assuka para grande estreia de S. na comida japonesa! Pronto, e também porque a Ana Q came to town e sugeriu o encontro para matar algumas saudades que já vinham acumulando. Estávamos as duas, a ainise, o SemNome e a dream (eh lá, não é que já todos temos nomes blogueiros?!).

Gostei da miso, gostei de todos os rolinhos, gostei do peixe crú e até gostei do gengibre! Cozinha aprovadíssima e a repetir. Para além disso, calhou-me um copo de chá verde zen, que ditava mandamentos para levar uma vida mais saudável e feliz. Less anger, more laughter – less beer, more tea – less greed, more giving… Coisa mai linda! Alguém sabia que eu vinha aí e deu-se ao trabalho de preparar essa pequena graça, bem-hajam os japoneses.

Mas bonito, bonito foi o momento com que a ainise nos presenteou à saída. Senhores, é que existem caretas e caretas. Caretas e caretas! E a transfiguração que observei foi digna de nota. Diga o que disser a rapariga, suspeito que, lá no fundo, há um passinho evolutivo qualquer que lhe está em falta. Mas que não se preocupe, todos adoramos chimpanzés... :)))

08/10/07

noddy

Outro dia fui para a minha ocupação nocturna habitual (não, não é essa, a outra!). Lá existe uma criatura que, sem ironia, considero particularmente adorável. Tem quase seis anos, um feitio lixado e, por acaso, tinha acabado de lhe cair o primeiro dente, o que foi engraçado mas não vem ao caso.

Às tantas no canal panda surge o Noddy, bonequinho com o qual me familiarizei há poucos anos, não sei se conhecem… O miúdo vem então disparado da cozinha, direito à televisão. Com os olhos fixos no écran senta-se ao meu lado e murmura “abram alas pró noddy, noddy!, cum guizo nos cornos a tocar”. Claro que, notando os meus olhos esbugalhados, se vira logo para mim em desafio e articula perfeitamente o que se segue:

“abram alas pró noddy, noddy!, cum guizo nos cornos a tocar
abram alas pró noddy, noddy!, já me tá a enervar
abram alas pró noddy, noddy!, a gente grita: viva!
o noddy foi pá cona da tia”

Tento não reagir para não lhe dar importância, mas ele não terminou: “cona é o pipi das miúdas” acrescenta secamente, quase maçado, como se me fizesse um favor na explicação. E pronto!

É surreal o andamento que as crianças têm.

no céu espelhado - III

Como muitos sabem, eu não como carne. Depois de vinte anos a revolver bolas secas de frango, de porco, de vitela, de pato, nas bochechas, decidi abandonar o hábito. E já não era sem tempo! O engraçado é que marujo que é marujo, marujo do mar, à séria, marujo que iça velas e respeita hierarquias, só gosta de carne. Parece que não é por estar no mar que se come peixe, a não ser que estritamente necessário. Mas, Deusa seja louvada, o facto de ter cinquenta civis a bordo é visto como tal necessidade e os pratos vão variando entre a carne e o peixe.
Assim, parte do ritual do dia-a-dia consistia em ir “lá acima” lembrar aos cozinheiros que, à hora da carne, dessem o jeitinho de não me pôr a engulipar bifinhos sangrentos. Já imaginaram coisa mais sem sentido do que comer bifes no mar? Eu não.
Agora bom bom, foi passar cinco dias a comer atum. Ui! Eu ainda atirava para o ar, assim à maluca “epá, façam-me qualquer coisa tipo uns ovinhos mexidos…” Mas eles, simplesmente, achavam que eu tinha cara de comedora de atum. É válido, sim senhor. Há quem tenha cara de cú, eu já me contento em passar por voraz abridora de latas e atunodependente. Ora vejamos, atum até é algo que aprecio. O problema é, sei lá, atum com batatas fritas! Vão por mim, não é um pitéu muito apetitoso, escusam de ir a correr experimentar em casa.
O marujo de serviço às refeições era o Charréu, alentejano mal-encarado que revirava os olhos mal eu aparecia com cara de “pede o meu atum, sff”. Refilava e suspirava, acho que fazia parte do número, mas era um gajo porreiro. No último dia, o fatídico em que me calhou lavar a loiça com o Cajó, até se apiedou de mim. “Fogo, não acredito que tenho aqui este gajo outra vez, tá bonito tá” foi a primeira exclamação que fez, assim que o viu chegar. E olhem que eu estava bem caladinha no meu canto! Claro que a observação bastou para que me ficasse uma memória muito positiva do senhor Charréu.

Quando havia vagar, lia-se um pouco no convés. Liam os outros camaradas (desculpa mãe, mas no mar diz-se assim, sou obrigada a manter a terminologia ainda que te possa provocar algum arrepio mais patológico), eu teimei em levar apenas artigos sobre a boa mesa dos passeriformes e nem uma vez tive cabeça para lhes lançar os olhos. Ah, mentira, também levei a Outdoor Photographer e até me entreteve uma tarde.
Notei que Don Lerpas era muito apreciador de sua leitura, volta não volta lá estava ele. Outros membros do grupo também se balançavam numa assimilação conjunta de cultura e, por vezes, desenvolviam-se agradáveis sessões de esparramanço ao sol a ler (ou a dormir). Os sacos-cama serviam de almofada, ideia original da Rapariga-Sussurrante que rapidamente se espalhou aos demais. Mais ou menos como a macaca Imo, quando aprendeu a atirar as batatas ao mar para lhes retirar a areia e logo os juvenis a começaram a imitar! As fêmeas são sempre desenrascadas. :)

07/10/07

a quem me entender

Comprimento no eixo dos xx e peso no eixo dos yy. Regressão linear limpinha, p<0.001. Guardar resíduos. Anova aos resíduos... pum pum, pum pum, pum pum (é o coração a bater ansioso)... output... Boa!!! Em Monsanto as penas são significativamente mais densas. Segunda Anova... pum pum, pum pum, pum pum... segundo output... YEAAAHHH!!!!! Os donos dos territórios têm penas mais densas que os floaters!

A vida é bela..... :)))

06/10/07

surpresas

Lembram-se daquele anúncio "e se um desconhecido lhe oferecesse flores"?

Então e se um conhecido nos oferecer um curso de mergulho? ;)

05/10/07

no céu espelhado - II

O dia das casas-de-banho acabou por me passar de raspão. É que melhor que fazer parte de um grupo relativamente igualitário, só mesmo ter por chefe um elemento pleno de actividade e vontade de desentupir retretes! Alá é grande. A Big Boss tomou em mãos esse mal-amado encargo e delegou aos subordinados tarefas mais tragáveis, como a limpeza das cobertas e da messe. Isto, lá está!, porque sou gaja, que os machos tiveram mesmo de lavar o seu próprio chavascal - e divertiram-se à brava com a mangueira, que eu bem vi o Lerpas fazer tiro a qualquer alvo móvel que passasse no corredor...

Mas, antes de mais acrescentar, importa apresentar uma personagem de valor.
Cajó desde cedo se fez notar – pelo menos por mim. Estava-se então no primeiro dia e acabávamos de iniciar a primeiríssima faina de mastros, momento algo atabalhoado devido à falta de prática e de organização. Imagine-se a coisa como um pequeno formigueiro em que as obreiras sabem que têm de trabalhar mas, por qualquer motivo, perderam a química que as organiza. Todas elas buscam algo que fazer e atiram-se às funções vagas criando algum caos. E no meio desse caos imaginem agora uma formiga de panamá enterrado até aos olhos, sandália grossa à turista e meia por baixo (também muito à turista) e câmara de filmar em punho. Imaginem que essa formiga deambulava no meio do atarefanço das outras com passinhos cuidadosos e olhar de espectador, levantando e baixando a câmara. Continuemos o exercício de imaginação: e se, a páginas tantas, ela virar a câmara para a sua própria cara, torcendo também o écran para se poder ver e começar a relatar o que se passa à volta num misto de excitação à David Attenborough e de pasmo de visitante de zoo ante a esperteza dos macacos? “Aqui estamos verdadeiramente DENTRO de uma faina marinha, veja-se a azáfama dos recém-chegados”. Não fosse a superioridade que o nariz empinado lhe exibia, até seria uma personagem engraçada. Mas não. A coisa prometia.
Nessa noite calhou ficarmos no mesmo grupo de quarto à ponte (quer dizer, estávamos de turno na ponte, o sítio onde se orienta a navegação). Éramos umas seis pessoas, Cajó incluído, numa cabine onde o oficial mostrava os aparelhos de GPS e de radar e ensinava a marcar pontos geográficos numa carta. A criatura pairava por ali numa atitude senhorial, cheirava os cantos com soberba como se aquilo que lhe ensinavam fosse óbvio e, às tantas, veio encostar-se a mim enquanto eu marcava os tais pontos, insistindo para que o fizesse de outro modo. Irritadíssimo. “Isso assim é uma parvoíce, demoras muito mais tempo, ora põe aqui o compasso!” E tentava tirar-me o instrumento das mãos à força. Eu decidi lançar-lhe o olhar nº37 de “baza daqui já, não me chateies, faço como eu quiser” e ele amansou um bocado, embora se mantivesse por ali a bufar e a encolher os ombros. Foi a partir daí que o detestei. Umas horas mais tarde viria a sentar-se na cadeira do comandante com toda a lata do Universo, ante o olhar estupefacto de um marinheiro que só lhe perguntava “está confortável aí?”. Ele assentia, não sei se fingindo não perceber a ironia da pergunta, se de facto padecendo de dificuldades de interpretação das expressões faciais. Quando lhe disse que se calhar não era suposto ele ocupar aquela cadeira, perguntou entre o indignado e o apanhado em falha “porque é que não havia de poder??”. E eu abstive-me de comentar mais. Outra meia-hora e viria a alimentar um diálogo tenso com o oficial de turno por causa de uma colega ausente. A senhora em causa retirara-se para a camarata sem avisar alminha e o oficial dizia-nos que no dia seguinte falaria com ela, ao que o Cajó se exaltou (era sua amiga, a tal) e exclamou num repente: “não vai fazer nada porque eu passo-lhe um atestado a dizer que ela estava doente!”. Facilmente se imagina a piada que o oficial não achou ao comentário... Respondeu-lhe, à militar, que ele bem podia escrever que doíam os dentes à senhora (porque era dentista), que isso não a impediria de trabalhar porque não se faz nada com os dentes. Então deu uma travadinha ao Cajó. Encheu o peito, emproou-se e disse: “Nesse caso eu vou para baixo também, faltamos os dois, e eu vou escrever um relatório não-sei-quê sobre isto”. Estando já fora da cabine, estendeu a mão para o inteiror e disse “Eng. Ricardo, boa noite” com o ar mais solene que conseguiu. Mas o oficial não se mexeu, olhou-o com tal estupefacção e dureza que eu pensei ir assistir a uma cena mesmo desagradável. Um segundo, dois segundos, três... Então Cajó, inesperadamente, soltou uma gargalhada ruidosa cheia de exagero. “Estou-me a meter consigo!”. O oficial não se ria e eu continuava a pensar isto vai mesmo acabar mal. Olhávamos todos uns para os outros, a desejar que o bicho desaparecesse de uma vez. Ninguém se riu, mas acabou por desconversar-se e fingir que nada tinha acontecido. A personagem teria que passar a ser ignorada.

Nessa noite dormi quatro horas. Pela manhã a cabeça estava vazia e tudo aquilo que me diziam fazia ricochete. O sol de chapa também não ajudava e o ócio das horas livres sem perspectiva de ocupação acabou por me apontar a direcção evidente: cama. Foi só subir as três etapas e deixar cair a cabeça (que parecia pesar uma tonelada) e, em dois segundos, estava profundamente a dormir. Acordei com um simpático no altifalante “guarnição e instruendos, faina de mastros prevista para as duas horas”. Sim, sim, já vai. Voltei a acordar com a cabecinha da IC19 a espreitar no meio do cortinado: “pssst, há faina de mastros agora”. E eu “vou já”. E acabei por ir, só que passada hora e meia, já tudo bem içado e o pessoal refastelado. :)

ser ou estar

Não gosto muito de condições. Eu é mais estados. Prefiro dizer que se está do que se é, prefiro considerar a mudança, dar esse justo benefício às coisas e às pessoas. Estou contente, nem sempre o sou. Estou com fome, não sou esfomeada. Os ingleses parecem não sabê-lo, mas assim é. Estou magra, gorda, amável, intratável, sensível, desajeitada, ausente, inquieta... Tantas coisas que se está, que se vai estando ao longo da vida! Felizmente nada é definitivo. Veja-se este bocadinho que roubei ao Alexandre O’Neill, amigalhaço das curvas:

“Os Convencidos da Vida:
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador.”

Estas foram dessas linhas que se lê em perfeito entendimento com o autor. Consigo ver os meus próprios convencidos desfilar na passadeira da imaginação felizes da vida, emproados nas suas vestimentas, moldados sem folga às suas conveniências e vejo-os, depois, acenar à multidão. Vejo-os perguntar sem querer saber e olhar sem querer ver. Já os detestei, já os desprezei, já os achei risíveis. Mas agora, não sei porquê, dão-me pena. Entristece-me o que lhes passa ao lado e, de certo modo, frustra-me não ser capaz de lhes explicar a magia da descoberta do outro. O outro, este aqui ao lado que não é como nós, que traz consigo vivências desconhecidas e nos pode fazer viajar. Este, que é tão maravilhoso ao ponto de se partilhar connosco, de dar! Somos nós os sortudos por receber.

Mas a que propósito vem isto? Primeiro as condições e os estados, depois os convencidos??
Isto a propósito de eu fazer um esforço por não encaixotar as pessoas e procurar alguma humildade nos juízos que faço. Prefiro estados, é verdade. Mas às vezes resvala-me um pé para as condições, sem sequer o notar. Os convencidos são só um exemplo. A moral da história é que todos temos dias maus, talvez semanas, ou mesmo meses. Anos? É possível... Mas, num determinado momento, somos uma bolinha de condições juntas. O convencido de hoje irrita, mas pode ser o abnegado de amanhã. Espero que assim seja.

(a continuação da faina vem já aí...)

04/10/07

no céu espelhado - I

Não vou pela poesia do mar para não secarmos todos de tédio. No geral, o que se quer é ler, entender, aceitar e, de preferência, sorrir. Se der para chegar à gargalhada, tanto melhor. Aqueles poucos que gostam de chorar ou, pelo menos, da facadinha gelada no meio do peito, esses, tentem perspectivar o que se segue a uma luz moderadamente sado-masoquista. Resulta sempre, e neste caso até não é difícil.

Os nomes dos companheiros destas fainas marinhas serão transformados, para que depois não me venham com merdas... Conteúdos menos próprios, se os houver, serão também com habilidade convertidos em preciosas metáforas que só os próprios entenderão no seu completo significado. Isto é, se a arte e o engenho mo permitirem. Senão, olha, azarecos! :)


No início faz-se por decorar os termos da marinhagem, bem como se tentam não trocar as patentes dos oficiais, coisa em nada fácil aqui para a distraída (mais tarde ignoram-se essas ignorâncias e remedeia-se dentro do possível).
No início a novidade é estranha, as pessoas são estranhas, todas parecem iguais, homogéneas, saltam aqui e ali algumas excepções, mas mais nada. Os termos são estranhos, os recantos desconhecidos, o espaço não tem propriedade e os marujos olham-nos com desconfiança.
No início a cabeça ainda está em terra, presa a tudo aquilo que ficou por fazer e por dizer, em banho-maria até ao regresso. A apreensão acompanha silenciosa cada movimento.

Mas depois...

Eu confesso: em condições normais, acordar ao som estridente de “ALVORADA, ALVORADA!” às sete da manhã, gritada por um altifalante estrategicamente colocado junto à minha alminha dormente, deixar-me-ia de muito mau humor. Muuuuito mau humor... (existem relatos assustadores daquilo que sou capaz em momentos de insanidade matinal). Mas também já notei que os azeites se me dissipam um pouco quando em comunidade. O que equivale a dizer que tenho vergonha na cara! Portanto, ao longo de cinco dias aturei alvoradas diárias sem mandar um palavrão que fosse. Qual palavrão, nem uma palavrinha! Esparramada no terceiro andar do beliche, abria um olho, sentia movimento lá em baixo no rés-do-chão e, invariavelmente, encontrava a IC19 cheia de speed a vestir as calças. Porque estava na hora do pequeno-almoço, ocasião mais que sagrada para o seu estômago revoltoso. Abria o outro olho e fixava o tecto de contraplacado. Porquê, porquê, porquê? Eram os único vocábulos que me ocorriam. Puxava o saco-cama até cima e escondia a cara para que a luz que se esgueirava por entre as frestas do cortinado individual não continuasse a exigir que me levantasse. Mas depois, à medida que o cérebro ia subindo à superfície (ou seja, que se apercebia de que toda a gente se mexia menos eu), lá perguntava as horas a custo. Sete e um quarto, sete e vinte, nunca menos. Hora de rebolar e tactear com o pé a cama de baixo, apoiar-me e descer do segundo andar para o primeiro e do primeiro para o chão. Trabalhoso. Lá em baixo esperava-me o pequeno caos que se desenrola quando seis pessoas se tentam vestir ao mesmo tempo em dois metros quadrados, com o brinde extra dos gavetões abertos ocuparem um terço do espaço disponível. Havia que pegar depressa no necessário e fugir para a casa-de-banho. Curiosamente, nunca apanhei engarrafamentos lá dentro, não sei porquê. E toda a gente parecia mais ou menos lavadinha, vá-se lá entender!

A essa hora madrugadora não se tem muita fome (excepção feita à camarada IC19, como é óbvio), pelo que o pequeno-almoço de leite, café, bolachas, pão hiper salgado e manteiga me parecia mais que suficiente. Depois, em terminado o repasto, havia que dar lugar ao cliente seguinte sem grandes demoras e entregar a loiça ao desgraçado que estivesse de quarto a lavá-la.

A Boss comandava as hostes do nosso pequeno grupo de dez elementos. Grupinho porreiro no seu grosso, mas lá iremos mais tarde... A primeira obrigação do dia era formar no convés para atribuição das faxinas, com a Boss sempre na frente da fila a controlar a situação. Os marinheiros formavam, por seu turno, à nossa frente e os oficiais rendiam-se com continências e tudo, a engraxar-nos com o pack-marinha completo. Tinha alguma graça, mas eu era mais sono!

Quando o mestre iniciava o seu discurso faxineiro, quase aposto que todos cruzávamos os dedos atrás das costas pedindo em silêncio ao nosso Deus para que não tivesse chegado a vez das casas-de-banho, esse Adamastor da vida a bordo. Eu, pelo menos, pedia ferverosamente, esmifradinha em concentração, com toda a fé que assiste ao bom agnóstico em altura de crise. Mas lá chegou o dia em que a reza não atingiu as altas influências...

(há-de continuar)

03/10/07

volta à faina!

Comunicado:
Guarnição e instruendos regressaram ao Alfeite no passado dia 2 de Outubro, às dez, zero, zero. Como previsto. I-23 não pôde ainda descansar pois tem que 'despendurar' alguns assuntos pendentes esta semana. Não enjoou a bordo (para tristeza e desilusão certas de alguns leitores) mas, em compensação, desde que pisou terra firme, padece de uma severa embriaguez que nem o sono curou. Tudo insiste em balançar e I-23 controla-se para não se agarrar às paredes. É que daria mau aspecto.

Mais actualizações em breve...

27/09/07

vou ali, já volto


Não sei se será correcto afirmar que vou de férias. A noção de férias traz sempre implícito que não se trabalhe, parece-me... Não é o caso. No entanto, se resulta tão relaxante passar um dia a pintar uma parede ou a tratar de um jardim, fingir que sou marinheira há-de enquandrar-se na mesma categoria. Ocupação voluntária, para lhe dar assim um nome catita. A palavra "faxina" no papel de indicações que nos entregaram é que fica a modos que meio entalada na garganta, não quer descer a gaja!

Bem, lá vou. Por acaso. :) Até daqui a 6 dias!

Deixo só um pedido à minha meia dúzia de leitores: quando comentarem, deixem uma assinatura; não tem que ser identificativa, claro que não, mas inventem qualquer coisa and stick to the name, só para que eu distinga os anónimos uns dos outros (mesmo não sabendo quem são); munto agradecida!

P.S. - em estando ainda Priscila convalescente, é a velha Pancrácia que me acompanha, mais o rolo de slides desenrascado pela sempre gentil ainise (um grande bem-haja, minha cara)

24/09/07

é verdade: temos regresso!


Toca a ir ver e levar os putos!
Até 14 de Outubro (de quarta a sábado às 21h e domingo às 17h30)

contornos complicados em coisas mais ou menos simples

Sossega. O mundo abraçou hoje uma luz diferente, mas não recordas já que contornos tomou. Dorme. Não podes? Tens uma vaga sensação de... festa?! Viste pessoas? Muitas. Pessoas coladas às teias da memória, caras estranhamente familiares, pareceram emergir de um poço do tempo e rodopiaram à tua volta uma dança de sorrisos e vozes. São teias tão confusas, essas da memória. Um sonho, seria? Tantas caras, no meio de outras tantas... Não, sonho não. E, de repente, era uma igreja cheia de sol e um casamento e a tua neta, linda!, uma estrela a percorrer a passadeira em lágrimas. Foi isso, não foi? Creio ter sido isso. Sossega. A dureza dos dias não interessa assim tanto. O que é, o que não é, a ditadura desses termos decoramo-la nós e apenas por sentido prático. Bem sabes que a verdade se espalha por baixo, lá onde tudo acaba e não restam camadas para despir. Estás aí agora, não inquietes. Sorri. Sente o sol na cara e a envolvência dessa luz. A luz é tão bonita. Há alguém feliz, aconteceu algo, tu sabes que sim! O que terá sido?

(som à la carte: “Cornflake girl”, Tori Amos – sugestionada por calvinn)

21/09/07

vem lá chuva?

Desta vez foi ao contrário: primeiro veio a chuva e depois o amolador. A flauta de Pan entrou-me a tocar pelo quarto dentro e corri a espreitar à janela. Já não é o mesmo de antes, o amolador. Dantes era um velhote enrugado que empurrava um carrinho meio desengonçado, carregado de uma parafernália impressionante de ferramentas e guarda-chuvas. Já em miúda me explicavam "é para afiar facas e tesouras" e a coisa me parecia estranha. As facas precisavam de ser afiadas? Então não se compravam outras quando as primeiras se estragavam? Pois... Já nasci do lado de cá do consumo, é natural. Mas continuo impressionada. Houve uma época de interregno aqui na rua, deixámos de ouvir a flauta e eu assumi ter morrido o velhote. Pensei que seria o fim do hábito. E agora volta um amolador, mais novo (saí à rua para o espreitar) e que já não traz guarda-chuvas nem ferramentas à vista. Vem numa bicicleta de montanha com uma caixa presa na parte de trás e a roda de esmeril encaixada à frente, entre o assento e o guiador. Na boca a mesma flauta de vários tubos vai marcando o passo, enquanto os olhos se penduram nas portas e janelas dos prédios. À espera. Mas parece que ninguém o chama. Quem é que ainda afia facas?

20/09/07

on small birds and lazy people

Estou há mais de 3 dias para escrever uma introdução. Há mais de 3 dias a colar frases umas às outras, frases roubadas a outros passarólogos (que a ciência é mesmo assim, a repetição infindável, o tédio total, o encaixe ao molde, o assassínio da originalidade!) e estou há mais de 3 dias a tentar fazer algum sentido nessa colagem forçada. Uma breve introdução, que não estou para me chatear. Dez referências, quinze no máximo. Santa paciência! E tudo isto para quê? Vou-vos contar com palavreado de gente...


Há montes de passarinhos que migram durante o inverno. Fazem-no por melhores condições de vida (temperaturas amenas, vegetação abundante, alimento disponível...), como todo o bom emigra! Mas bazar do seu spot original também tem um revés: é que se vão muito longe a viagem pode esgotar-lhes a gordurinha e, para além disso, quando regressarem no verão seguinte para a maluqueira do acasalamento, todos os melhores lugares para fazer ninho já vão estar ocupados. Resultado, nem sempre é muito fácil (para nós) perceber se será mais vantajoso partir ou ficar. “Porque eu só estou bem aonde eu não estou e só quero ir aonde não vou” é uma máxima que se parece aplicar...

Falando especificamente de piscos-de-peito-ruivo, essa querida passarada: eles migram sim senhor, só que migram mais as fêmeas do que os machos! Estes tendem a ficar confortavelmente em casa (Inglaterra, Escandinávia, Europa Central, por aí) e elas, ala que se faz tarde, para a península dos ibéricos e resto das zonas mediterrânicas. Espertas! Sol, praia, caipiroskas, espírito latino, Zezés Camarinhas versão avícola... Mas não só elas, os juvenis de ambos os sexos também são obrigados a vir. Chegam todos cá e o que fazem? Escolhem habitats, claro está, e começam à batatada para definir quem fica com que espaço. Ah e tal, essa pistácia ficou dentro do meu território, toma lá uma bicada no céu da boca e não me apareças mais à frente. Esse género de coisas. Depois do circo armado, alguns conseguem tornar-se don@as e senhor@s do seu hogar e outros, mais franganotes, são obrigados a partilhá-lo porque não se conseguem impôr.

O que eu queria saber:
1 - será que os donos dos territórios são mesmo mais “capazes” do que os que partilham espaços?
2 - os territórios são um recurso escasso? que proporção existe de donos e não-donos?
3 – os animais que escolhem passar o verão na mata em monsanto são fisicamente diferentes dos que decidem apanhar a brisa marítima na arrábida? onde se definem mais territórios individuais? qual será o melhor habitat e porquê?

Isto é +/- uma das partes do trabalho. A outra é, basicamente, perceber o que é que eles gostam mais de comer: querem bicharocos nojentos ou bagas gordinhas e reluzentes?

E assim se foi passando um ano...

Como é que uma coisa que até é simples e que proporcionou tão bons momentos de campo se revela agora um monstro no computador? Serão as quatro paredes que me fazem alergia e sopram uma leve (ou não tão leve) depressão? Não sei. Consola-me que, ao menos, os bichos são muitíssimo fotogénicos!

19/09/07

uma certa estranheza

São onze da noite cá em casa. A. está na sala, pernas estendidas em cima da mesinha e computador no colo. Fazendo coisas. No sofá do lado, Z. apoia também um computador nos joelhos e escreve vagarosamente numa folha digital. Espreito-os do hall, em silêncio, e faço rodar na mão os dois caramelos que fui buscar à cozinha. Percorro o corredor, passo pelo quarto de M. Ela senta-se à mesa, de costas para mim, fixando o seu próprio écrãn luminoso. Papéis espalhados. Das colunas solta-se a Bebe, em tom baixinho para não perturbar. Es que no hay respecto por la tierra que pisamos... La Tierra tiene febre, necesita medicina y un poquito de amor que le cure la penita que tiene... Abro a porta do meu quarto, deito-me na cama, suspiro, e agarro o computador. Lembro-me daquele teste psicotécnico que fiz no nono ano em que me mandavam desenhar a minha família. Sorrio ao lembrar-me que incluí peixes, tartarugas, provavelmente hamsters, tios, primos e avós e, às tantas, estando o desenho já tão povoado acrescentei o sol, as estrelas e a terra toda, numa de loucura. Que parvoíce! pensei no fim, mas entreguei-o assim mesmo. De qualquer modo nada daquilo tinha importância, o teste era uma mera formalidade. Mas agora, e voltando a este serão, quando desligo o computador às duas da manhã com a cabeça a latejar um pouco e os olhos pesados, quando ouço o mesmo passar-se no quarto de M. e o adivinho também a acontecer na divisão mais ao fundo, a que A. e Z. partilham, quando vejo todas essas imagens lado a lado, sincronizadas como se fizessem parte de um filme, assalta-me a sensação de que qualquer coisa se me escapou por entre os dedos.

11/09/07

mudando de assunto:

Em Setembro normalmente sou multada por falta de inspecção no carro. Coisas que acontecem! Volta não volta, lá vem um Setembro e com ele o já conhecido “encoste aí à frente que vai ser autoada”. Já nem tento o choradinho, não tenho pachorra para mais fitas. É que os bófias são irritantes o suficiente com os seus termos técnicos acabadinhos de sair do “manual do agente da autoridade moderno: use os seus 5 neurónios!” e com as letrinhas de quarta classe com que desenham, durante pelo menos trinta minutos, os malditos papéis com duplicado, triplicado, quadriplicado, eu sei lá! Muitas vezes já me obriguei a fazer exercícios de respiração e a imaginar que era um monge (uma monja?) budista no topo de uma montanha. Obriguei-me a sorrir o mais vomitante amarelo que consigo até que, aqui há uns tempos, percebi que até prefiro pagar a multa a ter que entrar em conversação com estas criaturas. Para quê sentir-me absoluta e totalmente estúpida? Não, esta gaja desiste do seu estatuto de gaja no que toca a fazer olhinhos e conversa tonta com a autoridade! Chega.
Ainda não fui multada este ano. Também ainda não fui à inspecção, mas enquanto andar a pé ninguém me pode fazer uma sinalefa para encostar mais à frente. Ando a pé e de metro e no carro da minha mãe e um dia destes até vou à inspecção com o meu boguinhas! Só para eles verem quem é @ boss...

10/09/07

é grave doutor?

A todos aqueles com dificuldades em respirar, tal a agonia: Priscila está já internada em instituição competente. O diagnóstico demorará cerca de uma semana (e o tratamento sabe-se lá!). No cenário mais positivo apenas terão que lhe remover o apêndice 50mm-f1.8 e o resto do organismo estará como novo. No outro cenário, aquele em que prefiro nem pensar, a infecção terá sido espalhada para outros orgãos e Priscila terá que ser submetida a mais intervenções. O apêndice, esse, não parece estar em grandes condições. Basta palpar e logo se sente a deformação. Uma semana de espera, vamos lá ver...

07/09/07

Priscila caiu!

Priscila, a Preciosa, caiu!!!

Foi só um descuido leve, um momento em que a larguei, arrumadinha dentro da sua bolsa, em cima da mesa, e ela decidiu dar um salto até ao chão. Caiu silenciosa, um quase nada. Ploff! E eu “anda cá marota, não faças asneiras”, sem me dar conta da pequena tragédia que se avizinhava. Quando percebi, por fim, que não focava, não disparava e não me deixava tirar a objectiva (que, por acaso, tem 2 dias!) até me deu uma tontura. Só não larguei a chorar porque a hora de ponta no metro não é o local mais propício a manifestações loucas de desespero.

Agora fiquei de caganeira. Sem dúvida do pânico que me assalta...

P.S. – o post nem sequer leva foto por motivos evidentes: luto fotográfico momentâneo. além do mais a Priscila acompanha-me no perfil

06/09/07

eu vos declaro...

um, dois, TRÊS!

casamentos no mesmo mês?

não é possível!

parece que é...

os primeiros dois já se digerem (e bem) há coisa de meio ano

do terceiro soube há bocado

“olá, tens planos para este sábado à tarde?”

literalmente.

razão tinha o Obelix, estes romanos são loucos!! :D

05/09/07

hoje é dia?

DE FESTA!!

Muitos parabéns à nossa sweet sweet Mónica, lusa em terras baixas, que se bate neste momento na mesma guerra sangrenta que moi même: a obtenção do grau de mestre (quem dera que fosse da culinária).
Espero que tenhas um dia super-hiper-mega-ri fixe!!! E, já agora, que me perdoes a veia floribelesca...

Mil beijocas!

04/09/07

mais questões de sexo...

Os Zo’e foram uma das últimas tribos índias a entrar em contacto com o dito homem branco: descobertos em 1975, só em 1989 saíram as primeiras imagens desta pequena população “intacta”. São os tais que se decoram, se é que se pode chamar assim, furando o lábio inferior e enfiando-lhe um cilindro de madeira. Embora nalguns sítios se diga que é um hábito imposto aos rapazes a partir dos dez anos de idade, isso não é verdade. Tanto homens como mulheres exibem o seu canudo no queixo com orgulho.


Aqui há uns dias, enfrentava eu a caixinha do diabo (vulgo televisão) no aconchego do lar quando me deparei com um documentário no canal Odisseia sobre este povo.

A atenção não era máxima, dado que o jantar de pão d’alho acabado de sair do forno, evidentemente, me motivava mais os neurónios do que um grupo de indios nús, de dentes podres, no meio da selva. No entanto, pelo meio dos encantos da manteiga derretida, saltou-me aos olhos uma imagem curiosa. Uma das raparigas índias, que já tinha sido apresentada como mulher de um tal homem, deitava-se agora muito regalada na cama de rede de outro, enquanto o locutor explicava que os dois partilhavam a mesma mulher. Partilhavam! Agucei imediatamente o ouvido para me poder indignar à grande com tão vergonhoso sistema (como é que se pode encarar as mulheres como um bem a partilhar?).
E o senhor passava a explicar: esta mulher de dezassete anos, casada com o primeiro, tinha sido emprestada ao segundo para o ajudar nos trabalhos do campo. É que os dois homens eram amigalhaços do peito. Segundo um dos índios mais velhos, um homem sem mulher é muito pouco, fica preguiçoso sem as obrigações impostas pela família e apenas deambula tristemente. Então o amigo número um, compadecido do amigo número dois, emprestou-lhe a sua própria fêmea. Com o passar do tempo e a interacção diária, a mulher e o amigo número dois acabaram por se apaixonar, levando a que aquilo que era uma situação temporária se transformasse numa “partilha” assumida. Sem pruridos por parte de qualquer um dos três. Impressionante, não?


Uma relação deste tipo, na nossa sociedade actual, podia ser designada como “poliamorosa”. Os poliamorosos são pessoas que defendem que ser poligâmico é tão válido como ser monogâmico e que não deve haver pressão em nenhum dos sentidos. Ouvi uma entrevista do Alvim no seu programa "Prova Oral" a algumas pessoas que praticam este amor livre e desembaraçado e não é que me pareciam bem felizes todos eles? Regra geral mantêm relações a que chamam “primárias” com um ou dois parceiros (é com essa(s) pessoa(s) que normalmente vivem) e, na categoria dos amigos, as coisas às vezes extravazam para o sexo. No big deal, até porque falam com os primários sobre tudo e, pelo que dizem, isso muitas vezes ajuda a sua própria vida sexual. Pergunto-me só como farão para contornar o ciúme...

Há pessoas que vivem assim. Talvez sejam mais do que pensamos.

A sermos totalmente honestos, a monogamia não pode ser dada como um comportamento típico da nossa espécie. Antes, ela é socialmente imposta desde há muito e, como aponta Kinsey (1948) no seu famosíssimo “Sexual behavior in the human male”, ao longo da história, a maior parte das civilizações humanas regulamentou fortemente as relações extraconjugais. Se o fez é porque elas têm alguma tendência a surgir. Digo eu. Neste mesmo estudo, com uma amostra de cerca de 300 indivíduos, Kinsey e os seus colaboradores verificaram que entre 27 e 37 por cento dos homens já tinha sido infiel à sua mulher pelo menos uma vez. Quanto aos números relativos à infidelidade feminina não posso informar porque se trata de um volume separado (era uma época de calhamaços!), que não tenho. Sei, no entanto, que esse tal “Sexual behavior in the human female” caiu que nem uma bomba no seio do moralismo americano do pós-guerra. Aliás, quem viu o filme “Relatório Kinsey” já sabe.


Mas voltando ao busilis... O que me motiva a analisar estas questões é a procura de uma explicação “natural” para aquilo que fazemos. E no “natural” não incluo apenas o fisiológico como também o social que, sem dúvida, tem tanto ou mais peso que o resto! É natural sermos sociais e, como tal, existe em nós um instinto básico de integração e um sentido de comunidade que não há que descartar em situação alguma. Portanto não se decide de ânimo leve “olha, agora vou ser polígama” e está tudo bem. Só que trazer luz ao assunto, fazer comparações, estudar comportamentos, pode ir ajudando a que nasçam novas ideias em novas cabeças. Não é?

Esta semana o Courrier Internacional também decidiu falar de sexo - mais especificamente sobre a relação do sexo com a Igreja. Ainda só li por alto, mas interessou-me a seguinte observação do jornalista Jean-Claude Guillebaud, da revista “La Vie”:
“Nenhum grupo humano se pode perpetuar sem um mínimo de interdições sexuais, por exemplo, a violência sobre crianças, o incesto, a violação, etc. Essa necessidade fundadora não tem essência religiosa, mas antropológica”.
Fez-me pensar que talvez a vantagem de viver em sociedade e partilhar uma conduta de comportamento (que se transmite culturalmente) seja tão poderosa que se sobrepõe aos sistemas que adoptamos em si mesmos. Ou seja, que diferentes sistemas podem ser igualmente vantajosos, consoante o ambiente social em que se vive, tornando assim complicado o estabelecimento de uma regra geral.

Lá no alto dos Himalaias, penso que no Nepal, as mulheres do povo Nyinba casam-se com vários homens. Estes são quase sempre irmãos entre si e ocupam com ela uma casa comum. Quando nasce um filho não se sabe de quem é, mas ninguém se parece importar com isso. E porquê? Em grande parte, provavelmente, porque o modo como somos educados nos molda muito bem as ideias. Mas também porque, arrisco-me a sugerir, se tratam de homens que são irmãos e, logo, mesmo que gastem tempo e energia a tratar de uma criança que não é sua filha, ela é pelo menos sua sobrinha. 25% da informação genética está lá. Para além disso é gente muito pobre que precisa de concentrar na família a pouca riqueza que tem.
Um sistema poligínico (um homem com várias mulheres) é mais frequentemente adoptado em culturas em que os homens têm mais poder e riqueza, como, por exemplo, na islâmica. Também os mormons têm duas mulheres por homem, embora aí se viva tudo condicionado por um pavor escatológico. É que se não o fizerem, o Criador amaldiçoá-los-á para sempre, como fazia com os desgraçados dos medievais!

Para tudo isto me parece interessante olhar sob diferentes perspectivas. Afinal o que é que somos? O que está certo, o que está errado?
Quanto a nós que aqui estamos em frente a um computador, não sei bem para onde vamos, mas sugiro tolerância. Sempre e em todos os sentidos, desde que não nos tratem mal (e mesmo nesses casos podemos, talvez, pensar duas vezes...). É que só nos enriquece.

Fiquem bem! :)

29/08/07

a minha vida não dava um filme

Um dia chegou aqui um livro chamado “abre para cá” e, sem sabermos muito bem para quem era, acabou por ficar implícito que seria eu a leitora.

Mas vamos do princípio...

A 11 de Setembro de 2001 já todos sabemos o que aconteceu. As torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque vieram abaixo, bem como parte do Pentágono, e a brincadeira custou cerca de 10 mil vidas. Dito assim parece uma coisa que vem escrita nos livros de História e que decoramos a contra-gosto, com a cabeça apoiada numa mão, tal como fazíamos com os números da segunda guerra mundial.

A 11 de Setembro de 2002, um ano depois, o que aconteceu foi o tal livro.
Nesse dia solarengo a M. foi à praia com o seu mais-que-tudo, montada no mini moke. Para quem não conhece, um mini moke é um carro aberto, pequenino, ao estilo dos buggies com que os brasileiros passeiam os turistas nas dunas nordestinas.
Ao regressar o par à viatura, lá para a tardinha, M. deparou-se com um objecto caído no seu banco e, apesar de não lhe ser propriamente familiar, conseguiu distinguir nas suas formas... um livro! (eheheh, boquinha foleira). Um livrito pequeno de um tal Jacinto Lucas Pires que lhe dera o título “abre para cá” e onde se liam contos, uma dúzia deles. Estranhou e folheou-o. Logo na primeira página, aquela que tantas vezes fica em branco, alguém lhe deixara um recado. Atentado Poético: A quem encontrar este livro, que o saboreie com gosto. É um presente. Em tempo de tristes memórias vamos dar lugar à poesia das leituras.

Foi bonito, não foi? Uma história destas merecia uma revelação no seu desenrolar. E, de facto, até ameaçou um momento de epifania quando a M. mo estendeu e disse podes ler que eu não tenho paciência e eu o fui folheando até à quinta página, logo depois do índice, onde li: para a sara. Flash, momento!

Podia ter sido. Ao ler o livro encontrá-lo-ia carregado de referências metafóricas à minha vida e de mensagens subliminares para a minha pessoa. Seria uma luz que descia, qual espírito santo, a justificar-me a existência e a mostrar o caminho da verdadeira felicidade! Pois era... Mas a verdade é que não gostei nada dele. E não é que seja leitora esquisita (quase tudo o que leio me interessa). Curiosamente é apenas um livro em que fico por fora, à superficie, um livro cujas frases curtas não me permitem entrar na acção e em que não percebo nos contos a moral ou o sentido. Dou-vos um exemplo:
“A luz dos faróis muito forte na curva, uma camioneta desaparece a grande velocidade. No passeio, junto à parede, papéis e bocados de plástico; o homem olha para isto e continua. Da boca sai-lhe ar branco. Entre os prédios, o céu é um rectângulo estreito e escuro, e vão passando árvores e candeeiros e cartazes com caras a sorrir” (J. Lucas Pires).
Não sei... Dá-me a impressão de que o senhor quer despachar e, ao mesmo tempo, descrever tudo. Dêem-me outra perspectiva, se a tiverem.

Confesso que fiquei desiludida pelo facto de os astros, afinal, não se estarem a conjugar só para mim.

18/08/07

amostra sem valor (antónio gedeão)

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.


Um comentário rápido ao poema do Gedeão. É bom.
Não é verdade que passamos a vida a tentar fazer-nos compreender pelos outros? A estender-nos para fora? A querer à força partilhar uma individualidade que, se prestarmos atenção, simplesmente não vive fora de nós? Pois é. Podemos saber muita coisa, conhecer o mundo de trás para a frente e as ciências pelo verso mas nunca somos capazes de abarcar o todo, de ser para além dos limites da nossa própria pele (a não ser, talvez, pela morte). E, no entanto, somos o centro de onde tudo parte, onde tudo regressa e o único sítio possível para se estar. Não posso deixar de aplaudir o senhor: “Universo sou eu, com nebulosas e tudo”.

13/08/07

o 1º de agosto

De volta!
Sei que há quem espere as impressões de San Sebatián, mas por enquanto ainda não curei a ressaca da viagem (metafórica, metafórica!). Deixo-vos um texto do início do mês, que não cheguei a "postar" porque estava inacabado na altura:


Já uma vez aqui comentei as memórias duma Fonte da Telha domingueira. A cena dos tachos, dos rádios a pimbalhar a tarde inteira, das criancinhas que guincham e dos pais de tanga – a quem só falta mesmo o palito ao canto da boca - a galar as meninas à beira-mar. Um mimo.

Então, perguntam vocês (com a sagacidade do costume), porquê voltar? Porquê arriscar de novo tamanha calamidade? Não sei bem. Ainda estou por decidir entre o puro azar e um prazer masoquista inconsciente.

A verdade é que estava calor, a carrinha da progenitora estava à porta com a irresistível combinação gasóleo+via verde e a suma inteligência que me dita o comportamento diário decidiu que, passada a hora do cancro, seria relativamente fácil alcançar a costa. Que fosse o sábado do início das férias de Agosto não me fez grande mossa. É que o Universo, supostamente, está sempre do meu lado...

Comecei a ouvi-los ao longe e, à medida que se aproximavam, o som tornava-se cada vez mais distinto. Saí das profundezas do mundo fantástico em que já estava mergulhada havia um bocado (não costumo adormecer na praia, mas nesse dia o ambiente estava favorável), saí, afastei a letargia e pus o ouvido à coca.

- ASSENTA-TE AÍ JÁ, JORGE! – urrou o pai, no que me parecia ser o início de um ataque de fúria.

- DEIXAZEOS IR PÁ ÁGUA CARALHO!! – foi a resposta que se seguiu da mãe, a gritos tais que pensei tratar-se de uma discussão entre marido e mulher trazida já de casa, do carro ou, quiçá, da noite anterior. Só percebi que não era tal quando o Jorge, criança de seus dez anos, contestou também em altos décibeis:

- EPÁ, TU DISSESTES QUE EU PODIA E AGORA DIZES QUE EU NÃO POSSO! PORQUÊ CARALHO??

E o pai o deixou andar.

Ambos os progenitores eram bastante gordos. Ela com um quê de gelatinosa e as pernas a rebentar de varizes. Ele um pote por inteiro, os calções prestes a rasgar. Apesar disso, quando lhes atentei nas caras percebi que eram novos. Muito novos. Quase tão novos como eu. E confesso que, se o resto não fosse já por si suficiente, este factor me deixaria muito impressionada.

A berraria continuou tarde fora. Ora porque iam para a água, ora porque voltavam, ora porque um dos miúdos guinchava à beira-mar, ora porque outro queria comer. Tudo, absolutamente tudo, era motivo para gritos, palavrões e veias inchadas no pescoço. Perguntava-me, para além do mais, se não ficavam cansados com tal actividade. É tão mais trabalhoso gritar do que falar! Se não tivesse visto e me contassem que uma família se exprimia durante três horas seguidas desta maneira, acho que não acreditava.

Às tantas, a pobre da Jessica, que teria uns três ou quatro anos, sentou-se na areia e começou a mexer-lhe e a rebolar-se. A mãe lançou-lhe um olhar sanguinário – que garanto que assustou os meus vinte e cinco aninhos -, aproximou-se em três grandes passadas e levantou-a pelos braços até à toalha mais próxima:
- ALEVANTA PARA CIMA FODA-SE, CHEIA DE AREIA OUTRA VEZ! PORCA. PORCA! TÁS A OUVIR? ÉS UMA PORCA BADALHOCA!
A criança, para meu espanto, parecia não fazer grande caso.
- METE-TE EM CIMA DA TOALHA E ENGOLE A BANANA JÁ! OLHA PARA AQUI SUA ESTÚPIDA, QUERES LEVAR OUTRA VEZ?

Nesse ponto eu estava já hipnotizada. Não conseguia tirar os olhos de cima deles, mas a verdade é que se tinham vindo instalar a três metros da minha toalha. E com tantos gritos era impossível ignorar-se a cena (podia ter-me afastado, como diz a M., mas nunca consigo resistir à quinta dimensão).

No fim da tarde o Jorge começou a espirrar. Grande drama que resultou na seguinte observação da mãe:
- RAIOS PARTA OS ESPIRROS, FOSTE PARA A ÁGUA, VOU-TE PARTIR OS CORNOS!!

E iam dando palmadas a torto e a direito, lá isso iam. Não se diga que ameaçavam em vão, que cão que ladra pelos vistos também pode morder.

(Pergunto-me onde é que se pára. É que não há culpas, aprende-se a ser pai com os próprios pais e estes tão pouco são responsáveis pela capacidade educativa que têm, já que também eles foram sujeitos ao mesmo. Será possível uma pessoa libertar-se destas correntes da infância? Onde é que se pára? Como é que se pára?)

O ex-libris deu-se no momento em que ouvi a mãe gritar, sem qualquer tipo de pudor:
- PEIDA-TE DUMA VEZ ANTES QUE EU TE DÊ UM PONTAPÉ NO OLHO DO CÚ!!
E o pai, o pote deitado na areia com o rabinho bem virado para mim, soltou um sonoríssimo traque.

Todos riram. Muito. Pela primeira vez percebi que partilhavam qualquer coisa entre si, qualquer coisa que talvez eu não alcançasse, mas que estava lá nesse momento de risota. Riam-se da mesma maneira, pelo mesmo motivo, com os mesmos olhos de gozo. Lembrei-me da anedota que o meu pai contava tantas vezes: “- se não têm televisão como é que se divertem à noite? - O pai dá puns e a gente-se ri-se!”.

Afinal é mesmo verdade!