...de acabar de ler “The God Delusion”, de Richard Dawkins, e dá-me vontade de o recomendar a todos. Não só os que procuram entender uma data de coisas, mas também os que julgam ter o assunto arrumado. O livro explora os eventuais motivos para tendência humana para a crença, as consequências que isso teve ao longo da história, e o pouco sentido que faz alimentar rivalidades ilusórias. Enfim, é a minha leitura. Fá-lo de um modo extensivo, crítico e – o melhor – sem pôr paninhos quentes.
Vou ali num instante deitar-me na cama de rede e acabar de ler. :)
Deixo só uma citação (que encontrei no livro) do comediante norte-americano George Carlin, que me fez rir:
Religion has actually convinced people that there’s an invisible man – living in the sky – who watches everything you do, every minute of every day. And the invisible man has a special list of ten things he does not want you to do. And if you do any of these ten things, he has a special place, full of fire and smoke and burning and torture and anguish, where he will send you to live and suffer and burn and choke and scream and cry forever and ever ‘til the end of time… But He loves you!
13/12/08
18/11/08
acho que vou voltando
Aos Domingos a cidade parecia saída de um sonho.
[Nos sonhos deambula-se muitas vezes sozinho, encaram-se portas fechadas em largas ruas de asfalto coberto por pó alaranjado. Anda-se meio anestesiado pela simples quietude do mundo.]
O vento quente levantava-lhe os cabelos, como antes imaginara. Antes. Antes de estar ali, nessa cidade aos Domingos fantasma.
Mas, descendo a rua, metia-se outra vez em Moscovo, no apartamento que se encaixotava num subúrbio, na rigidez dos olhares que se lhe cruzavam e no vestido azul da protagonista. É que, às vezes, os livros não nos largam.
E então tinha que parar e deixar passar um carro ocasional, dado que na cidade fantasma as passadeiras tinham apenas função decorativa. Deixava-o passar: uma carrinha negra grande, acelerando os vidros fumados alcatrão abaixo; coelhinho da playboy colado na traseira.
Para chegar onde ia, o único café aberto em dia de descanso, desceria ainda dois quarteirões mais. Cruzaria três hippies sentados num degrau, expondo os seus artesanatos. Topá-los-ia à distância, as rastas de um, os óculos redondos do outro (protegendo do sol num dia cinzento), a preguiça dos dois, e os olhos da rapariga a estudá-la, de cima abaixo, em busca de referência. “Do you want to see our art?” decidido que ficava, como apropriado, o modo de abordagem. Uns breves segundos atentos no livro que levava na mão bastariam. Mas que não, gracias.
Chegada à esquina encontraria um altifalante virado para a rua, pregado na parede, deitando para a rua a música que se fazia ouvir no café. “Um chamariz”, pensaria. “Um chamariz de turistas, pensam eles”. Êxitos internacionais em versão chill out por vozes de cama. Plumas nos canteiros à porta. E uma selecção gourmet de chocolates e bombons lá dentro, para além de grande poltronas entre o ferro e o salmão, iluminadas por focos impecáveis. Algo caído de um outro hemisfério a que, quando calhava, acabava por recorrer.
Faria sentido pensar em Moscovo? Em macacos que têm medo a colibris? Em saltos quânticos de objectos perdidos na selva? Faria sentido que uma pessoa levasse sempre mosquitos consigo, onde quer que fosse? E que uma dupla face pudesse ter filhos sem antes escolher quem é?
Sentar-se-ia então lendo Dawkins negar a existência de Deus. Não entenderia por que raio seria ainda necessário fazê-lo. Tudo o mais parecia bastar.
[Nos sonhos deambula-se muitas vezes sozinho, encaram-se portas fechadas em largas ruas de asfalto coberto por pó alaranjado. Anda-se meio anestesiado pela simples quietude do mundo.]
O vento quente levantava-lhe os cabelos, como antes imaginara. Antes. Antes de estar ali, nessa cidade aos Domingos fantasma.
Mas, descendo a rua, metia-se outra vez em Moscovo, no apartamento que se encaixotava num subúrbio, na rigidez dos olhares que se lhe cruzavam e no vestido azul da protagonista. É que, às vezes, os livros não nos largam.
E então tinha que parar e deixar passar um carro ocasional, dado que na cidade fantasma as passadeiras tinham apenas função decorativa. Deixava-o passar: uma carrinha negra grande, acelerando os vidros fumados alcatrão abaixo; coelhinho da playboy colado na traseira.
Para chegar onde ia, o único café aberto em dia de descanso, desceria ainda dois quarteirões mais. Cruzaria três hippies sentados num degrau, expondo os seus artesanatos. Topá-los-ia à distância, as rastas de um, os óculos redondos do outro (protegendo do sol num dia cinzento), a preguiça dos dois, e os olhos da rapariga a estudá-la, de cima abaixo, em busca de referência. “Do you want to see our art?” decidido que ficava, como apropriado, o modo de abordagem. Uns breves segundos atentos no livro que levava na mão bastariam. Mas que não, gracias.
Chegada à esquina encontraria um altifalante virado para a rua, pregado na parede, deitando para a rua a música que se fazia ouvir no café. “Um chamariz”, pensaria. “Um chamariz de turistas, pensam eles”. Êxitos internacionais em versão chill out por vozes de cama. Plumas nos canteiros à porta. E uma selecção gourmet de chocolates e bombons lá dentro, para além de grande poltronas entre o ferro e o salmão, iluminadas por focos impecáveis. Algo caído de um outro hemisfério a que, quando calhava, acabava por recorrer.
Faria sentido pensar em Moscovo? Em macacos que têm medo a colibris? Em saltos quânticos de objectos perdidos na selva? Faria sentido que uma pessoa levasse sempre mosquitos consigo, onde quer que fosse? E que uma dupla face pudesse ter filhos sem antes escolher quem é?
Sentar-se-ia então lendo Dawkins negar a existência de Deus. Não entenderia por que raio seria ainda necessário fazê-lo. Tudo o mais parecia bastar.
06/10/08
flutuando
Já não escrevo para mim. O tempo vai passando e as teclas batem para outros, alheios que são (e porquê?), forasteiros em meus meandros. Olhos de fora (e porquê?). O que sobeja de mim nestas linhas não faz jus ao agora. Este momento de hoje. Recordo, a propósito de nada, uma igrejinha em Megéve, em noite fria e com cheiro a lume. Todos cantavam, apeteceu-me ficar dentro. Talvez pela primeira vez. Recordo a tarde no pão-com-chouriço em Mafra. A água a pingar do céu cinzento, a subir-nos pelas calças compridas demais – arrastando –, a desagradar. A falta de abrigo para comer e as mãos geladas a retirar o chouriço do pão. Outras mãos geladas dizendo “eu quero!”. Recordo coisas de que já nem me lembro (mas afinal porquê?).
11/09/08
as minhas desculpas...
a quem vem aqui e nao foi avisado. Mudei de residência física e resolvi ser uma boa opcao mudar também a residencia virtual. Estou agora, e pelos proximos meses, em: www.diasnafloresta.blogspot.com
Nao digo que nao continuarei a deixar aqui qualquer coisa de vez em quando. Mas ficara esta como casa de fim-de-semana.
Como estou em terra de habla castellana: saludos a todos!
Nao digo que nao continuarei a deixar aqui qualquer coisa de vez em quando. Mas ficara esta como casa de fim-de-semana.
Como estou em terra de habla castellana: saludos a todos!
17/08/08
cheira bem?
Já tentaram definir um cheiro? É complicado, não é? Quando toca a odores, parece que temos poucos adjectivos à disposição. Nada comparável com o que se passa com a visão. O costume é acabarmos por recorrer a cheiros já conhecidos e dizer que é mais ou menos como isto ou aquilo. Ou, num atrevimento de imaginação, misturar essas memórias odoríferas, e tentar, pelo menos, uma maior aproximação ao real.
Ontem dizia eu à minha avó:
- Têm que ir conhecer os Açores porque vale a pena, lava os olhos e enche a alma! E além disso há aquele cheirinho…
- Ai sim? Cheira a quê? – perguntou-me logo, como se quisesse imaginar tudo ao pormenor para formar um quadro mental perfeito.
E eu hesitei. Como é que se define um cheiro outra vez?
- Bem, a mim cheira a fresco, a humidade fresca (notem a redundância) e a verde (o cheiro de uma cor, portanto!).
Não fiquei muito convencida comigo própria… Ela levantou os olhos para procurar, por momentos, esse horizonte açoriano. Voltou a querer saber:
- É como a relva cortada?
- Não é bem isso. Cheira a plantas sim, mas é mais doce (tentei). E cheira a mar também. Mistura-se tudo nessa humidade que está em todo o lado.
- Ah… - aceitou, pensativa - Olha, uma coisa de que tenho muitas saudades é o cheiro de Luanda! Não era bom António?
O meu avô estava com a atenção na televisão.
- António, estás a ouvir? – insistiu ela.
- O quê, o quê? Os alemães o quê? – respondeu de repente (e a eterna piada do alemão que ainda não cheguei a perceber).
- Se te lembras do cheiro de Luanda?
- Ah, lembro. Mas olha que não era grande coisa… Cheirava a farinha quente.
Cheirava-lhe a farinha quente!
E com esta, I rest my case.
.............................
Ontem dizia eu à minha avó:
- Têm que ir conhecer os Açores porque vale a pena, lava os olhos e enche a alma! E além disso há aquele cheirinho…
- Ai sim? Cheira a quê? – perguntou-me logo, como se quisesse imaginar tudo ao pormenor para formar um quadro mental perfeito.
E eu hesitei. Como é que se define um cheiro outra vez?
- Bem, a mim cheira a fresco, a humidade fresca (notem a redundância) e a verde (o cheiro de uma cor, portanto!).
Não fiquei muito convencida comigo própria… Ela levantou os olhos para procurar, por momentos, esse horizonte açoriano. Voltou a querer saber:
- É como a relva cortada?
- Não é bem isso. Cheira a plantas sim, mas é mais doce (tentei). E cheira a mar também. Mistura-se tudo nessa humidade que está em todo o lado.
- Ah… - aceitou, pensativa - Olha, uma coisa de que tenho muitas saudades é o cheiro de Luanda! Não era bom António?
O meu avô estava com a atenção na televisão.
- António, estás a ouvir? – insistiu ela.
- O quê, o quê? Os alemães o quê? – respondeu de repente (e a eterna piada do alemão que ainda não cheguei a perceber).
- Se te lembras do cheiro de Luanda?
- Ah, lembro. Mas olha que não era grande coisa… Cheirava a farinha quente.
Cheirava-lhe a farinha quente!
E com esta, I rest my case.
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08/08/08
Anita burricando
Repeti este ano uma experiência de há dois anos. Quatro dias em terras de Miranda, debaixo de um sol abrasador, em companhia de burros, gaiteiros, gentes de fora e locais dispostos a receber. O passeio é co-organizado pelo grupo de música tradicional Galandum Galundaina e pela AEPGA (Associação para ao Estudo e Protecção do Gado Asinino) que, como o nome indica, se dedica a não deixar morrer esse património genético que é o dos burros de Miranda e que, por tal boa causa, vai promovendo a animação no planalto mirandês.
À chegada a Miranda do Douro, pela noite da véspera, é altura de inscrições e põem-se logo os gaiteiros a tocar. Para quem vai pela primeira vez e não está habituado ao som das gaitas e a ter os músicos (determinados) sempre ao lado, dá logo uma certa emoção. Vai-se ficando por ali, os roncos a ecoar, a cerveja a ser servida para os canecos, soltam-se “olá, tudo bem?” a caras conhecidas, uns e outros mais afoitos encetam bailaricos, a noite está morna, tudo vai bem.
No primeiro dia de real burriquice deslocam-se as boas almas para uma das aldeias e ocupa-se o tempo com workshops de dança, de pauliteiros, de língua mirandesa, de maneio de burros ou de gaitas e precursão - é à escolha do freguês. Alguns metem-se logo na tasca mais próxima (não vou dizer quem, que o barbudo ainda me vem acusar de queixinhas!). Os dias seguintes são já para se passar em caminhada. Cada grupo acompanha um burrico e, quem quer, vai alternando para montar. O olhar, esse, vai-se perdendo nas searas, nos lameiros delimitados por toscos muros de pedra, no feno enrolado em cilindros, nesses campos amarelos pintalgados de carrascos e pedras, e reserva-se na memória – não tenho dúvida – o contraste magnífico das cores mirandesas. Claro que há pó. Um imenso calor. Pernas que, às tantas, precisam de ir em piloto automático para se moverem. Há cansaço, sede, burras teimosas e gaitas que, inexplicavelmente(!!) dentro dos tímpanos, às vezes apelam ao silêncio. Mas a experiência vale essa pena. Até caminhar atrás de um burro a quem dá um súbito ataque de diarreia é coisa que se vê compensada pelos sítios, as vistas, os ares e as gentes.
O que me espanta, ao voltar de locais como este, é a fraca ligação que pessoas como eu têm à sua terra. Ao seu lugar. Dá a sensação, depois de conhecer gente rural, que flutuo com suavidade por cima do solo, sem nunca lhe tocar, sem nunca ele me agredir, nem tão pouco me oferecer o que seja. Não o conheço. Para ele sou invisível. É verdade, para uma Lisboa sou absolutamente invisível! Não consigo sequer deixar uma pegada - dada a calçada e o alcatrão a perder de vista. E é normal que assim seja, estou rodeada por um milhão de lisboetas igualmente invisíveis. Parece que da cidade só tiro, só percorro, só aproveito miradouros, cinemas, cafés, bares… E nada dou. Por estranho que pareça, quem não dá sente-se vazio.
Mas voltando à burricada! É revigorante conhecer um grupo de gente nova que se preocupa em manter viva a sua cultura. Por banal que isto soe, é verdade. Como prova disso, somos acompanhados por várias crianças locais que também tocam os bombos, as gaitas e as pandeiretas que nem gente grande – para além de controlarem os burros, coisa que nós não conseguimos, de todo, fazer. Arre, arre burrica, em frente! [e a gaja decide comer umas ervas apetitosas mesmo ali ao lado]. Wow, wow, devagarinho… [e ela arranca desembestada, dando encontrões a torto e a direito, porque a outra burra, que é a sua maior amiga, vai lá para a frente]. Seguimos assim, de aldeia em aldeia, falamos com os antigos, levamos a confusão e a festa e parece-me que a maior parte deles gosta. Alguns burriqueiros vão armando tendas e dormindo nos locais de paragem, outros, depois do arraial, metem-se na camioneta que os leva de volta ao parque de campismo (no meu caso foi mais a kangoo da SemNexo, feita T0).
No dia seguinte era mais do mesmo. No total palmilhámos o percurso: Constantim – Póvoa – Malhadas – Pena Branca – Miranda do Douro. Não faço ideia da distância. Só sei que, mais uma vez, foi uma curtição.
Obrigada à companhia!











À chegada a Miranda do Douro, pela noite da véspera, é altura de inscrições e põem-se logo os gaiteiros a tocar. Para quem vai pela primeira vez e não está habituado ao som das gaitas e a ter os músicos (determinados) sempre ao lado, dá logo uma certa emoção. Vai-se ficando por ali, os roncos a ecoar, a cerveja a ser servida para os canecos, soltam-se “olá, tudo bem?” a caras conhecidas, uns e outros mais afoitos encetam bailaricos, a noite está morna, tudo vai bem.
No primeiro dia de real burriquice deslocam-se as boas almas para uma das aldeias e ocupa-se o tempo com workshops de dança, de pauliteiros, de língua mirandesa, de maneio de burros ou de gaitas e precursão - é à escolha do freguês. Alguns metem-se logo na tasca mais próxima (não vou dizer quem, que o barbudo ainda me vem acusar de queixinhas!). Os dias seguintes são já para se passar em caminhada. Cada grupo acompanha um burrico e, quem quer, vai alternando para montar. O olhar, esse, vai-se perdendo nas searas, nos lameiros delimitados por toscos muros de pedra, no feno enrolado em cilindros, nesses campos amarelos pintalgados de carrascos e pedras, e reserva-se na memória – não tenho dúvida – o contraste magnífico das cores mirandesas. Claro que há pó. Um imenso calor. Pernas que, às tantas, precisam de ir em piloto automático para se moverem. Há cansaço, sede, burras teimosas e gaitas que, inexplicavelmente(!!) dentro dos tímpanos, às vezes apelam ao silêncio. Mas a experiência vale essa pena. Até caminhar atrás de um burro a quem dá um súbito ataque de diarreia é coisa que se vê compensada pelos sítios, as vistas, os ares e as gentes.
O que me espanta, ao voltar de locais como este, é a fraca ligação que pessoas como eu têm à sua terra. Ao seu lugar. Dá a sensação, depois de conhecer gente rural, que flutuo com suavidade por cima do solo, sem nunca lhe tocar, sem nunca ele me agredir, nem tão pouco me oferecer o que seja. Não o conheço. Para ele sou invisível. É verdade, para uma Lisboa sou absolutamente invisível! Não consigo sequer deixar uma pegada - dada a calçada e o alcatrão a perder de vista. E é normal que assim seja, estou rodeada por um milhão de lisboetas igualmente invisíveis. Parece que da cidade só tiro, só percorro, só aproveito miradouros, cinemas, cafés, bares… E nada dou. Por estranho que pareça, quem não dá sente-se vazio.
Mas voltando à burricada! É revigorante conhecer um grupo de gente nova que se preocupa em manter viva a sua cultura. Por banal que isto soe, é verdade. Como prova disso, somos acompanhados por várias crianças locais que também tocam os bombos, as gaitas e as pandeiretas que nem gente grande – para além de controlarem os burros, coisa que nós não conseguimos, de todo, fazer. Arre, arre burrica, em frente! [e a gaja decide comer umas ervas apetitosas mesmo ali ao lado]. Wow, wow, devagarinho… [e ela arranca desembestada, dando encontrões a torto e a direito, porque a outra burra, que é a sua maior amiga, vai lá para a frente]. Seguimos assim, de aldeia em aldeia, falamos com os antigos, levamos a confusão e a festa e parece-me que a maior parte deles gosta. Alguns burriqueiros vão armando tendas e dormindo nos locais de paragem, outros, depois do arraial, metem-se na camioneta que os leva de volta ao parque de campismo (no meu caso foi mais a kangoo da SemNexo, feita T0).
No dia seguinte era mais do mesmo. No total palmilhámos o percurso: Constantim – Póvoa – Malhadas – Pena Branca – Miranda do Douro. Não faço ideia da distância. Só sei que, mais uma vez, foi uma curtição.
Obrigada à companhia!











31/07/08
e finalmente foi Verão!
Quando eu era miúda, na praia, as avionetas passavam por cima do areal e deixavam cair brindes. T-shirts, bonés ou bolas de praia insufláveis, a questão é que caíam do céu e toda a gente corria para os apanhar. Tudo bem – concedo – pode ter acontecido uma única vez. É possível que a emoção tenha sido tal, que a memória tenha extravasado ligeiramente… Quem pode garantir o contrário? Mas lá que me lembro, ora essa, se me lembro! Havia coisas sobre o Verão que não se viriam a esquecer. O genérico da série “Marés vivas” (e as cenas de afogamento repetidas ao pormenor quando íamos à barragem). A voz do Eládio Clímaco a apresentar os Jogos sem Fronteiras. A excitação só proporcionada pela venda de rifas da feira da Achada e toda a tralha que de lá trazíamos. O incansável bolo “meia-lua” empurrado a Tang no aniversário da M. O cheiro a gasolina no barco. Os saltos que ele dava nas ondas quando o levávamos para a barra. A visão da senhora das bolas-de-berlim a aproximar-se com o cesto de verga debaixo do braço. Andar de bicicleta à noite pelo aldeamento. E, por fim, essa hipótese de um aviãozinho passar lá no alto e abrir as portas ao marketing. Ainda hoje, quando os vejo passar, acredito por breves momentos que irão começar a cair objectos. Só que hoje a mente põe-se a vaguear logo pelo consumismo descontrolado, os problemas ambientais e o ego desmedido de todos nós. Não sei se por esta ordem. Nem sei se isto são consequências de entrar no mundo dos adultos, se no mundo actual. Às vezes confundo-me. O último avião que vi trazia uma daquelas fitas presas à cauda onde se lia: “Português Suave – Um romance inesquecível”. O marketing, portanto, estendido ao ponto de nos apontar a leitura adequada à situação em que nos encontramos. Está na praia de papo para o ar? Então devia estar a ler a Rebelo Pinto! (é o que todos os outros estão a fazer) Algo deste género. Pasmei um pouco. Anúncios voadores a livros? Onde é que isto já se viu? Mas depois dei-me conta que, a quem pudesse ouvir a indignação ressoar dentro do meu cérebro, surgiria como uma octogenária estereotipada. Sejamos francos, muitas vezes os livros vendem-se pela capa. Escrever passou a ser também um negócio e, portanto, nada mais natural que seja tratado como tal. Produto a tornar atractivo e vendido à fartazana. Ou não? [a octogenária em mim bate o pé] O sucesso, afinal, não se mede em euros? [e franze o sobrolho, já zangada] Não sei. Com o tempo fiquei mais seca, tremendamente analítica e pouco do que o avião oferecesse me faria mexer uma palha. Mas a verdade é que há um instante muito preciso, um quase nada, uma fracção de fracção de segundo, em que oiço aquele som ao longe e descortino que se trata de um avião e, secretamente, se acende uma esperança, uma trémula sede de criança. Que já não é de brindes. Não é de t-shirts. Deixou foi de saber exactamente de que é.
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