11/09/08

as minhas desculpas...

a quem vem aqui e nao foi avisado. Mudei de residência física e resolvi ser uma boa opcao mudar também a residencia virtual. Estou agora, e pelos proximos meses, em: www.diasnafloresta.blogspot.com
Nao digo que nao continuarei a deixar aqui qualquer coisa de vez em quando. Mas ficara esta como casa de fim-de-semana.
Como estou em terra de habla castellana: saludos a todos!

17/08/08

cheira bem?

Já tentaram definir um cheiro? É complicado, não é? Quando toca a odores, parece que temos poucos adjectivos à disposição. Nada comparável com o que se passa com a visão. O costume é acabarmos por recorrer a cheiros já conhecidos e dizer que é mais ou menos como isto ou aquilo. Ou, num atrevimento de imaginação, misturar essas memórias odoríferas, e tentar, pelo menos, uma maior aproximação ao real.

Ontem dizia eu à minha avó:

- Têm que ir conhecer os Açores porque vale a pena, lava os olhos e enche a alma! E além disso há aquele cheirinho…

- Ai sim? Cheira a quê? – perguntou-me logo, como se quisesse imaginar tudo ao pormenor para formar um quadro mental perfeito.

E eu hesitei. Como é que se define um cheiro outra vez?

- Bem, a mim cheira a fresco, a humidade fresca (notem a redundância) e a verde (o cheiro de uma cor, portanto!).

Não fiquei muito convencida comigo própria… Ela levantou os olhos para procurar, por momentos, esse horizonte açoriano. Voltou a querer saber:

- É como a relva cortada?

- Não é bem isso. Cheira a plantas sim, mas é mais doce (tentei). E cheira a mar também. Mistura-se tudo nessa humidade que está em todo o lado.

- Ah… - aceitou, pensativa - Olha, uma coisa de que tenho muitas saudades é o cheiro de Luanda! Não era bom António?

O meu avô estava com a atenção na televisão.

- António, estás a ouvir? – insistiu ela.

- O quê, o quê? Os alemães o quê? – respondeu de repente (e a eterna piada do alemão que ainda não cheguei a perceber).

- Se te lembras do cheiro de Luanda?

- Ah, lembro. Mas olha que não era grande coisa… Cheirava a farinha quente.

Cheirava-lhe a farinha quente!

E com esta, I rest my case.

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08/08/08

Anita burricando

Repeti este ano uma experiência de há dois anos. Quatro dias em terras de Miranda, debaixo de um sol abrasador, em companhia de burros, gaiteiros, gentes de fora e locais dispostos a receber. O passeio é co-organizado pelo grupo de música tradicional Galandum Galundaina e pela AEPGA (Associação para ao Estudo e Protecção do Gado Asinino) que, como o nome indica, se dedica a não deixar morrer esse património genético que é o dos burros de Miranda e que, por tal boa causa, vai promovendo a animação no planalto mirandês.

À chegada a Miranda do Douro, pela noite da véspera, é altura de inscrições e põem-se logo os gaiteiros a tocar. Para quem vai pela primeira vez e não está habituado ao som das gaitas e a ter os músicos (determinados) sempre ao lado, dá logo uma certa emoção. Vai-se ficando por ali, os roncos a ecoar, a cerveja a ser servida para os canecos, soltam-se “olá, tudo bem?” a caras conhecidas, uns e outros mais afoitos encetam bailaricos, a noite está morna, tudo vai bem.

No primeiro dia de real burriquice deslocam-se as boas almas para uma das aldeias e ocupa-se o tempo com workshops de dança, de pauliteiros, de língua mirandesa, de maneio de burros ou de gaitas e precursão - é à escolha do freguês. Alguns metem-se logo na tasca mais próxima (não vou dizer quem, que o barbudo ainda me vem acusar de queixinhas!). Os dias seguintes são já para se passar em caminhada. Cada grupo acompanha um burrico e, quem quer, vai alternando para montar. O olhar, esse, vai-se perdendo nas searas, nos lameiros delimitados por toscos muros de pedra, no feno enrolado em cilindros, nesses campos amarelos pintalgados de carrascos e pedras, e reserva-se na memória – não tenho dúvida – o contraste magnífico das cores mirandesas. Claro que há pó. Um imenso calor. Pernas que, às tantas, precisam de ir em piloto automático para se moverem. Há cansaço, sede, burras teimosas e gaitas que, inexplicavelmente(!!) dentro dos tímpanos, às vezes apelam ao silêncio. Mas a experiência vale essa pena. Até caminhar atrás de um burro a quem dá um súbito ataque de diarreia é coisa que se vê compensada pelos sítios, as vistas, os ares e as gentes.

O que me espanta, ao voltar de locais como este, é a fraca ligação que pessoas como eu têm à sua terra. Ao seu lugar. Dá a sensação, depois de conhecer gente rural, que flutuo com suavidade por cima do solo, sem nunca lhe tocar, sem nunca ele me agredir, nem tão pouco me oferecer o que seja. Não o conheço. Para ele sou invisível. É verdade, para uma Lisboa sou absolutamente invisível! Não consigo sequer deixar uma pegada - dada a calçada e o alcatrão a perder de vista. E é normal que assim seja, estou rodeada por um milhão de lisboetas igualmente invisíveis. Parece que da cidade só tiro, só percorro, só aproveito miradouros, cinemas, cafés, bares… E nada dou. Por estranho que pareça, quem não dá sente-se vazio.

Mas voltando à burricada! É revigorante conhecer um grupo de gente nova que se preocupa em manter viva a sua cultura. Por banal que isto soe, é verdade. Como prova disso, somos acompanhados por várias crianças locais que também tocam os bombos, as gaitas e as pandeiretas que nem gente grande – para além de controlarem os burros, coisa que nós não conseguimos, de todo, fazer. Arre, arre burrica, em frente! [e a gaja decide comer umas ervas apetitosas mesmo ali ao lado]. Wow, wow, devagarinho… [e ela arranca desembestada, dando encontrões a torto e a direito, porque a outra burra, que é a sua maior amiga, vai lá para a frente]. Seguimos assim, de aldeia em aldeia, falamos com os antigos, levamos a confusão e a festa e parece-me que a maior parte deles gosta. Alguns burriqueiros vão armando tendas e dormindo nos locais de paragem, outros, depois do arraial, metem-se na camioneta que os leva de volta ao parque de campismo (no meu caso foi mais a kangoo da SemNexo, feita T0).

No dia seguinte era mais do mesmo. No total palmilhámos o percurso: Constantim – Póvoa – Malhadas – Pena Branca – Miranda do Douro. Não faço ideia da distância. Só sei que, mais uma vez, foi uma curtição.

Obrigada à companhia!












31/07/08

e finalmente foi Verão!

Quando eu era miúda, na praia, as avionetas passavam por cima do areal e deixavam cair brindes. T-shirts, bonés ou bolas de praia insufláveis, a questão é que caíam do céu e toda a gente corria para os apanhar. Tudo bem – concedo – pode ter acontecido uma única vez. É possível que a emoção tenha sido tal, que a memória tenha extravasado ligeiramente… Quem pode garantir o contrário? Mas lá que me lembro, ora essa, se me lembro! Havia coisas sobre o Verão que não se viriam a esquecer. O genérico da série “Marés vivas” (e as cenas de afogamento repetidas ao pormenor quando íamos à barragem). A voz do Eládio Clímaco a apresentar os Jogos sem Fronteiras. A excitação só proporcionada pela venda de rifas da feira da Achada e toda a tralha que de lá trazíamos. O incansável bolo “meia-lua” empurrado a Tang no aniversário da M. O cheiro a gasolina no barco. Os saltos que ele dava nas ondas quando o levávamos para a barra. A visão da senhora das bolas-de-berlim a aproximar-se com o cesto de verga debaixo do braço. Andar de bicicleta à noite pelo aldeamento. E, por fim, essa hipótese de um aviãozinho passar lá no alto e abrir as portas ao marketing. Ainda hoje, quando os vejo passar, acredito por breves momentos que irão começar a cair objectos. Só que hoje a mente põe-se a vaguear logo pelo consumismo descontrolado, os problemas ambientais e o ego desmedido de todos nós. Não sei se por esta ordem. Nem sei se isto são consequências de entrar no mundo dos adultos, se no mundo actual. Às vezes confundo-me. O último avião que vi trazia uma daquelas fitas presas à cauda onde se lia: “Português Suave – Um romance inesquecível”. O marketing, portanto, estendido ao ponto de nos apontar a leitura adequada à situação em que nos encontramos. Está na praia de papo para o ar? Então devia estar a ler a Rebelo Pinto! (é o que todos os outros estão a fazer) Algo deste género. Pasmei um pouco. Anúncios voadores a livros? Onde é que isto já se viu? Mas depois dei-me conta que, a quem pudesse ouvir a indignação ressoar dentro do meu cérebro, surgiria como uma octogenária estereotipada. Sejamos francos, muitas vezes os livros vendem-se pela capa. Escrever passou a ser também um negócio e, portanto, nada mais natural que seja tratado como tal. Produto a tornar atractivo e vendido à fartazana. Ou não? [a octogenária em mim bate o pé] O sucesso, afinal, não se mede em euros? [e franze o sobrolho, já zangada] Não sei. Com o tempo fiquei mais seca, tremendamente analítica e pouco do que o avião oferecesse me faria mexer uma palha. Mas a verdade é que há um instante muito preciso, um quase nada, uma fracção de fracção de segundo, em que oiço aquele som ao longe e descortino que se trata de um avião e, secretamente, se acende uma esperança, uma trémula sede de criança. Que já não é de brindes. Não é de t-shirts. Deixou foi de saber exactamente de que é.

03/07/08

all aboard? [quase post nº100]

Escrevi uma vez um poema, coisa única, a uma tia velha que se foi daqui com sacrifício. Pessoa que conheci sempre sem pretensão. Só que, certo dia, o meu pai pegou no computador e apagou-me os textos sem aviso. Foi como se mos arrancasse da carne.

Entretanto, eternidades volvidas, chegou-me o Samuel Beckett. «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor». E deixou-me a pensar… Porque não? Porque não viver para se afastar cada vez mais do erro, em vez de ter por meta a excelência ridícula e desesperante da perfeição? Que tal a segurança de partir com o que já se tem – a tal falha – e trabalhar o mundo próprio a partir daí?

Gostava de saber repetir o poema… Não era grande coisa, não. Mas, em poucas palavras, dizia o que queria. Agora… Agora? Vou ter que falhar de novo. Talvez um pouco melhor.

30/06/08

o tal concerto

Acabou por ser assim, decidimos ir as três estarolas à última da hora. Liguei a reservar mais um bilhete, ao que me respondeu a voz do outro lado: “não é preciso, há muitos lugares”. A ideia preocupou-me. Apressei o dia aquilo que pude e voltei para casa com a estarola terceira, a fim de mudar de roupa e jantar com leveza. Torceu o nariz arrebitado sem cerimónia ao cuscuz que lhe cozinhei. Ó senhores, vá de hambúrguer no pão! A estarola segunda chegou entretanto, maldizendo a vida e a infinita lata masculina. Durante o jantar tratou de expurgar a neura, dando-lhe um formato verbal que, tanto eu como a terceira, ouvimos quase em silêncio. Ruminando.

Desde o início da tarde que me sentia um bocado nervosa sem motivo. Ansiosa. Como se fosse euzinha subir ao palco essa noite e enfrentar um público. Como se a mim afectasse directamente o volume de audiência que, ao que parecia, ficava muito aquém das expectativas. Sempre fui assim tonta, a encaixar problemas alheios (até os que por auto-recriação vou inventando). Quando, nas aulas, os professores davam uma descasca em alguém, os meus olhos colados na mesa não conseguiam mexer-se. Um sufoco idiota. Mas pronto, nesse dia, estava tensa com o espectáculo. Depois do jantar, despachámos a cena mudança-de-roupa-e-demais-coqueterias com relativa rapidez. E foi de tal modo rápido que consegui fechar uma porta em cima do dedo indicador. Fabuloso! Num daqueles ataques que me tomam quando a dor estala, dei um senhor pontapé na porta culpada, deixando as estarolas boquiabertas a olhar para mim, enquanto fugia para a varanda agarrada ao dedo. Que aqueceu, desatou a latejar. E eu, respirando fundo e procurando na casa-de-banho uns minutos de água fria, vi-me obrigada a pedir : “M., vais-me buscar um saco com gelo?”. Portanto, acabei por sair de casa com o dedo enrolado num pano verde alface que envolvia uma bolsinha de gel frio. Lindo.

Chegadas ao Coliseu uma hora antes do concerto, à cause dos bilhetes, encontrámos o espaço às moscas. Fomos entrando, subindo, sorrindo, aceitando revistas e panfletos, e acabámos por nos sentar no chão, lá no alto no piolho, enquanto o resto das pessoas, provavelmente, acabava os seus jantares. Logo aí uma verdadeira adversidade: estarola terceira tem vertigens e nós não sabíamos! O cabo dos trabalhos para a convencer a colocar-se a três passos do varandim, onde se deixou ficar tesa que nem um carapau, os olhos no chão com nervoso miudinho. O que fazer? Nada a fazer. Ir espreitando as formigas lá em baixo a entrar aos poucos (muito poucos) e silenciosamente. Continuava nervosa, apreensiva com a sala tão cheia de espaço e imaginando o inevitável nó na barriga dos que se encontravam, nesse momento, do outro lado do palco. Mas, devagar, a área da frente foi-se compondo e, quando as luzes se apagaram, já o cenário não parecia tão negro.

Ela entrou seguida das palmas, algo brilhante, vestida de cor e em cima de uns saltos pouco habituais. O meu samba vai curar teu abandono… E parecia o CD a tocar. A voz é tal e qual e, no Coliseu, a distância do piolho ao palco não nos ajuda a sentir o forro quente do ambiente – principalmente tratando-se de pitosgas como eu.

Entretanto a estarola terceira mantinha a postura pétrea, muito embora nos esforçássemos por provocar uns abanicos conjuntos ao ritmo do samba. Na única vez que se dirigiu directamente ao público, ao fim de duas ou três músicas, Maria Rita disse-nos que estávamos em casa e que, portanto, fizéssemos o que mais nos apetecesse. Sentar, levantar, dançar, cantar… Ao que um gajo cá de cima gritou “queremos ir aí para baixo!”. Alguns risos nossos, dos pobrezinhos. Mas a verdade é que, depois de repetidamente a estarola segunda ter observado “bem que nos podiam mesmo deixar ir para baixo, há tanto espaço!”, as vozes do povo foram ouvidas. Um dos meninos de fato veio informar-nos que, se quiséssemos, nos podíamos mudar para as laterais lá de baixo, aquelas de onde só se vê meio palco. Bem, foi ver-nos a todos descer quatro lances de escada o mais rápido que as pernas permitiam! O passo da estarola terceira a limitar um pouco o nosso trote. Mas lá chegámos e, tendo esperado o fim de uma música, abriram-nos as portas para entrar. Foi incrível, de repente estávamos ali em cima, até podíamos ver as expressões na cara da mulher! Sentámo-nos as três, para grande alívio da vertiginosa mas eu, na verdade, fiquei um bocado inquieta por não me poder mais abanar. Ao fim de duas músicas levantei-me e afastei-me para não quebrar visibilidades. M. secundou-me e gozámos o Pagu com menos reservas. Nem toda a feiticeira é corcunda, nem toda a brasileira é bunda, meu peito não é de silicone, eu sou mais macho que muito homem! Deliramos com isto. Só que o espaço nas bancadas também não é muito e tardou pouco a decidirmos descer para dar chão aos pés. A coisa não parou por aí. Uma música volvida e alguma alma iluminada, das que se encontravam connosco no local, abriu a portinhola do varandim que separava a bancada lateral da central e, em segundos, transbordámos para a melhor zona possível: mesmo ao lado das cadeiras da frente, em pé, com imenso espaço de dança, sem incomodar vistas, e tendo o palco a uma distância quase ridícula. A cantora estava cada vez mais animada e o público já se ia levantando e vibrando. A fraca tentativa do fato engravatado nos dissuadir de ficar ali foi posta de lado como um par de meias sujas. Não houve insistências. Parecia que o concerto tinha então realmente começado. O repertório passou a incluir músicas anteriores e mais conhecidas e ela ia gingando de um lado para o outro do palco, de braços no ar como de costume. Parava à nossa frente e abria grandes sorrisos à Elis. Gritámos, cantámos, saltámos, fingimos que sambámos e divertimo-nos à grande. Posso dizer que foi dos melhores concertos a que já fui. Um encanto. Mesmo vestida para sambar, a Maria Rita surge-nos como uma pessoa real e talvez seja isso, para além da voz, da presença e da simpatia, que a liga tanto ao público. Depois de mudar para um vestido muito, muito mini, entrou no palco debaixo de uma cascata de assobios. O resultado foi um envergonhado ataque de riso que não a deixou cantar metade de uma música. Já se sabe, é destas coisas que se alimenta a empatia entre as pessoas.

Saímos de lá a tender para o histéricas, com o ritmo sambista no sangue a pulsar. Não nos calámos até casa. E depois disso. E só dava vontade de lhe ligar para dizer “Rita, obrigada! Foi único. Deixaste-me endorfinas para o mês inteiro.” Não seria mentira.

25/06/08

hoje apenas isto

Somos por comparação. Vivemos toda uma vida por comparação. Padrões e bitolas, é o que é.