09/03/08

já está

Ao fim de algumas tentativas, finalmente consegui comprar o passe do metro. Ao primeiro dia do mês as filas são tenebrosas. Ao segundo não melhoram grande coisa. Ao terceiro lá se atinge o guichet, mas apenas para ficar a saber que na estação em que nos encontramos os cartões demoram dez dias no forno. Se os quisermos pedir com urgência teremos que nos dirigir a outro local, onde almas mais expeditas tratam do assunto de um dia para o outro, mediante o pagamento de dez euros. No acto da entrega arrotam-se mais dezoito euros e meio, que é o valor do passe propriamente dito. Fácil…

Enfim, interessa é que estou a gostar de frequentar o metro. Pena que seja subterrâneo e escuro, mas força a caminhar alguns minutos logo pela manhã, o que me faz sentir melhor do que a entrada directa no carro. Também gosto de olhar os meus companheiros de viagem. A maioria é feia e isso encanta-me particularmente. Percorro quatro estações, para lá e para cá, atenta aos aspectos negativos desses corpos alheios. As assimetrias. As borbulhas. Os dentes tortos e a gordura a mais. Uma imensidão de gente que se cruza comigo diariamente e que não tem nada a ver com as imagens de “normalidade” que trago decalcadas no cérebro. Uma pessoa sente-se melhor num mundo imperfeito.

07/03/08

estou em falta quanto ao inquérito

Parece que 55% dos 20 votantes concorda comigo: ser trocad@ por um elemento do outro sexo não custaria tanto. A mulher do Heith Ledger não ficou assim muito contente com a coboiada, diga-se. Mas pronto, também arranjou logo novo gajo. Amigos dizem-me: “por experiência, sei que é a mesma coisa”. Eu como não sei, fico-me pelo acho. E afinal só 4 pessoas entenderam ser pior (talvez por terem menos hipóteses de reconciliação ou reconquista?...) uma situação deste tipo.

Em relação a este assunto, apetece-me ainda comentar o comentário da C.M. O termo traição é o que habitualmente se usa neste contexto. Não sei dizer se será o mais correcto. Talvez uma palavra tão gorda não se devesse aplicar ao que (com razão) chamas a simples de condição de ser humano. Mas sim… está relacionada com a mentira, com o engano. Só que no extremo - lá está - também não sei muito bem onde estabelecer os limites dessa dita mentira. Porque se o afecto é o que mais interessa, saber-se-á precisar o momento em que ele é transferido para outra pessoa? É difícil. E porque é que então se faz do sexo, normalmente, o ponto de honra? É porque as pressões evolutivas são lixadas (ouvem-se os sábios biólogos ao fundo).


A monogamia é uma espécie de contrato entre uma mulher que precisa de recursos e um homem que quer ter a certeza da paternidade. Atenção, isto não é para ler de um modo absoluto. Não me venham cá dizer “eu amo muito o meu marido e não sou uma cabra interesseira”! Acredito que não. Mas se uma associação (teoricamente) monogâmica não trouxesse vantagens às partes, não se tinha mantido ao longo do tempo. Temos que nos colocar nas cavernas por momentos. Somos um grupo social constituído por homens e mulheres e não existe qualquer estrutura familiar. O sexo é com quem mais agrada no momento. E então as fêmeas engravidam e começam a crescer em dificuldades de arranjar comida, que tem de ser apanhada. Se por acaso um dos casais estabeleceu uma ligação emocional, então o homem tenderá a ajudá-la, tanto nessa altura como quando o bébé nascer. Em comparação com as outras, cujas mães estão sozinhas, é provável que esta criança tenha mais probabilidades de sobreviver aos primeiros anos. O sucesso da cria faz com que o comportamento que ela herdou dos pais seja transmitido à geração seguinte. Vantagens evidentes. Mas olhemos para as estratégias do homem e da mulher. Ela só pode ter um filho por ano, o que lhe convém é mesmo que esteja ali um elemento mais forte que dê apoio ao longo do processo. A gravidez é um risco e se se mantiver viva e saudável provavelmente continuará a ter filhos. Mas e o homem? Ao homem interessa também que as suas crias tenham sucesso. Contribui no pré e pós-natal com recursos e apoio. Só que pode ser um esforço em vão, caso o filho não seja seu (quando digo em vão, refiro-me aos genes que não está a transmitir à geração seguinte, não à importância ou legitimidade de educar qualquer criança!). Portanto interessa imenso ao homem estar seguro da fidelidade SEXUAL da sua parceira. Fomos seleccionados assim, tal como os boxeurs para terem o focinho achatado ou os caniches para serem irritantes. E às mulheres o que interessa a fidelidade do companheiro? Interessa-lhes, e muito, que ele não vá desperdiçar os seus recursos com outro gajedo. Não convém muito. E não era coisa fácil, já que o fraco investimento representado por um minúsculo espermatozóide faria com que um homem pudesse ter filhos de variadíssimas mulheres ao mesmo tempo. Mesmo que se dedicasse só a um ou dois, com sorte algum dos outros sairia benzinho e a custo zero! Só que ao relacionar-se com várias fêmeas, podia gostar mais especialmente de alguma e trocar as voltas à primeira. Risco enorme para ela. Pensa-se que é este o motivo pelo qual, ainda hoje em dia, as mulheres são mais permissivas às relações extra-conjugais do parceiro (desde que ele não crie laços emocionais com a outra pessoa)do que os homens. E que, por outro lado, desenvolvam frequentemente ciúmes dos amigos dele, das pessoas a quem ele afectivamente se liga. O que não quer dizer que também elas não tenham relações extra-conjugais. Podia ficar a desenvolver isto eternamente… Vou só acrescentar uma coisinha: é que em dois extremos temos homens que são bons pais (o ideal para constituir família) e homens que têm bons genes (isto é, que são atraentes à generalidade das mulheres). Haverá homens que conseguem ser ambos – e esses são o melhor partido – e outros que não são nem uma coisa nem outra. Mas, no geral, vê-se muito um ou outro. Para as mulheres o cenário ideal é terem um bom pai em casa e darem umas voltas com os bons genes por fora. Ficam com filhos atraentes e bem tratados. Coisa que um homem, no papel de pai, não pode aceitar. E portanto, o melhor é manter as mulheres bem controladinhas. Enfim, isto nunca pára: vantagens de um lado, desvantagens do outro… Evolutivamente a guerra dos sexos é uma realidade.
Não somos, em definitivo, uma espécie monogâmica. Em primeiro lugar teríamos uma monogamia sequencial, já que mudamos de parceiros ao longo da vida. E depois é uma monogamia conveniente na cena social mas que, aqui e ali, resvala. É que pode ser que pegue. :) Também já li que as DST podem ter tido um papel importante a eliminar comportamentos promíscuos. Acredito que seja verdade, talvez num grande mix de variáveis significativas neste modelo. A religião, a religião… Essa. Ainda não a consegui entender de todo.

25/02/08

ontem, no S. Luiz


Mayra Andrade.

5 estrelas.

22/02/08

embrulhar o fio na meada

Vou atrasada já, o trânsito cede à chuva e atrasa-me o percurso até à Baixa. O dia não é dos melhores, a impaciência baila pelos cantos que conhece tão bem à casa, tanto porque passar a manhã em frente ao computador me faz doer as costas como porque os ataques de riso descontrolados de quem não tem culpa de ter catorze anos me impedem de explicar o que devo – no caso, a constituição e função do aparelho genital humano. Vou acelerando quando posso, maldizendo os semáforos que me contrariam e tentando, sinceramente, não atropelar almas inocentes. Revejo o dia que passou, faço o balanço, tento descontrair. Recordo o momento em que a criatura me perguntou, franzindo o sobrolho para o livro e com um ar muito enjoado: “cli... clítoris? ó S. também tenho que saber este?...” Ao que eu respondi que esse era o mais importante de saber, antes de me aperceber que era uma piada que não faria ali outra pessoa rir que não eu. A criatura olhou-me com espanto. O relógio, no entanto, disse-me não haver tempo para mais demoras. Agora, e apesar disso, vou atrasada! Mentalmente faço todo o percurso em antecipação, visualizo todas as ligações possíveis, a ver se chego à rua do Crucifixo a horas. Vou também ansiosa pela novidade. Por sorte, ainda antes de pensar no assunto, cai-me do céu um lugar para estacionar.

Subo as escadas de madeira e espanta-me como são largas. Nunca vi um edifício normal de habitação com um aspecto tão amplo, quatro pessoas subiriam lado a lado os degraus sem problema! Cheira a antigo, não propriamente mal. Não sei explicar porquê mas tudo tem um ar muito resistente e dá vontade de ficar simplesmente a olhar para as paredes.

Toco à porta. De imediato ouço o “clic” do trinco e encontro uma cara sorridente do outro lado. Depois de despir o casaco e deixar a mochila na entrada, à confiança, digo o meu nome ao balcão. O rapaz rabisca o papel que tem à frente, volta a sorrir, diz que está tudo. Dirijo-me para a sala à esquerda. Já começou. Dez cabeças viram-se para me fixar durante uns segundos e três dos seus donos começam a gesticular freneticamente, apontando-me os pés. Fico estática. Situação embaraçosa número um: entrar numa sala cheia de gente silenciosa e fazer com que as atenções se centrem em mim por não estar a cumprir um requisito. Que requisito? Os sapatos - lá acabo por perceber - têm que ficar à porta. Obedeço rapidamente e esgueiro-me depois para o primeiro lugar vago que encontro, com as meias (de bonecos!) a fazer-me deslizar no soalho. Sento-me entalada entre a parede e um amiguito qualquer, o que não me permite descolar os braços do tronco e se torna muito incómodo. A sala cheira a gente. Está calor a mais e não consigo evitar olhar a pilha de sapatos à porta. Já repararam como os sapatos têm muito pior aspecto fora dos pés? Deformados, tristes, os atacadores murchos e os interiores escuros a pedir distância.

O gajo virado para a audiência lá à frente fala suave, pausadamente, para um microfone. Senta-se em posição de lótus sobre um palanque de madeira profusamente decorado com imagens e panos e objectos cujo significado não entendo. A cada duas palavras dá três risadinhas. Tento não me fixar nisso, ouvir o que diz… o que diz ele? Fala dos momentos em que nos irritamos com os outros e no como isso é negativo para nós próprios. Fala sem grande conteúdo, se querem que vos diga. E, depois de uma banalidade qualquer, lá saca de novo da gargalhada arrastada (começo nesse momento a entender a ironia da situação em que me encontro). Gostava de poder explicar o tom com que o senhor fala, fazendo subir sempre a entoação na última sílaba da última palavra de cada frase, como se fizesse um relato futebolístico em câmara lenta. Mas não é fácil. Haveria que estar presente. É milimetricamente sempre igual, tal como se entoasse uma ladainha decorada ao longo de uma vida. O conteúdo perde-se. A impaciência força-me então a mudar de lugar mais para a frente, onde vou aterrar ao lado de um indiano bem mais antigo que eu. Incomoda-me que esteja descalço. Tudo me incomoda naquela sala. O rapaz da recepção entra nessa altura, colocando-se atrás de nós e, imagine-se!, não só respira ruidosamente (e eu pronta a bater em alguém), como ainda se ri também de cinco em cinco segundos, tal como o outro, com gargalhadas de sopro. Aguento, estóica que sou. Vou descontrair e vou sair daqui mais próximo de aceitar os outros! E vai de primeira meditação para “ficarmos todos mais receptivos”. Não corre mal porque é a do costume, embora o efeito não seja grande coisa. O da recepção decide então que tem fome. Enquanto vai lá fora o indiano sai também, deixando vago o lugar ao meu lado. Mesmo ali à mão de semear… Obviamente que o outro volta e despeja-se logo na cadeira a mastigar. A MASTIGAR!! Estou tão fora de mim que já vejo pintinhas verdes por todo o lado. Quanto mais me irrito, mais furiosa fico por estar furiosa e porque estou ali precisamente para aprender a não me irritar com as pessoas. Respiro fundo, cerro os maxilares, faço balançar os pés sem sapatos para trás e para a frente como fazem as crianças. Ele nunca mais acaba de mastigar. Nhac, nhac, nhac, nhac… O que raio será que tanto mastiga? Imagino-o a ir ainda pescar com a língua um pedacinho esquecido por triturar entre os dentes, a fazer um ar regalado e a continuar com orgulho a tarefa deglutidora. Quando é que… ai… já está?... não! Ainda não, só mais uns segundos… Finalmente. Um último nhac e acaba. Posso então tentar ouvir o que diz o senhor das barbas no microfone. Que para começar o ideal é pensarmos no quão gratos devemos estar à nossa mãe que, incrivelmente, nos deu tanto amor. “É realmente fantástico… uma pessoa… modificar a sua vida… os seus hábitos… sacrificar-se… por outro ser” (as reticências são mesmo as pausas após o elevar de tom da última sílaba). Só que eu hoje estou com outra veia activa e desatam a saltar-me ideias evolucionistas à mente. Não é nada fantástico, é que se não fosse assim não estávamos aqui hoje e ponto final. E logo me arrependo. Não S., pára. Agradecida, é para te sentires agradecida agora. Vá, um, dois, três: agradecida. Não? Outra vez: ai que agradecida, agradecida profundamente me sinto!! Não, não parece estar a funcionar. Estou chateada, isso sim, com aquilo tudo, aquelas pessoas que vão na onda e abanam afirmativamente a cabeça. Penso em ir-me embora. Aguento mais um pouco. E então o clímax surge inesperado! “Nós temos muitas vidas… podemos achar que não… podemos dizer que não nos recordamos de outras vidas… mas… também não nos recordamos do que almoçámos ontem… na verdade… não recordamos quase nada…” Já ouviram argumento mais fantástico que este? Eu não me lembro de algum dia ter dado a volta ao mundo, mas deve ter acontecido porque, na verdade, eu não me lembro de quase nada da minha vida! Por um lado quero vir-me embora, por outro ganho curiosidade em saber onde vai dar aquele caminho de sabedoria. E ele acaba aqui: “se todos temos muitas vidas… então todos já fomos mães uns dos outros… e devemos ver… cada pessoa com que nos cruzamos… como nossa mãe… e dedicar-lhe… todo o nosso agradecimento…”

E assim foi que voltei para casa uma hora depois. Impaciente.

28/01/08

coisas várias

Ao entrar no espaço comum à loja do Benfica e ao Media Markt cruzo-me com uma senhora que sai, com a filha pela mão. Criatura de dois anos, mais coisa menos coisa. Noto que à medida que outros adultos passam por elas sorriem muito à criança e, portanto, presto-lhe mais atenção. Sorrio também ao aproximar-me. Ela olha para mim, os olhos brilham de excitação, aponta-me o dedo gorducho e exclama para a mãe: “Pópó!”

(Pópó?...)

Deito uma rápida mirada à imagem que projecto no vidro da entrada. Assim de longe não me faz lembrar os contornos de um veículo automóvel. Mas a miúda lá saberá. E pelos vistos a mãe compreende, que ainda a consigo ouvir a rir enquanto me afasto: “sim, é popó”, responde.

(Sou pópó?!)

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Confesso ao capitalista todo-poderoso
e a vós irmãos,
que comprei muitas vezes
com dinheiro vivo, cheques,
multibanco e mesmo a crédito
por minha culpa,
minha tão grande culpa…


Fui buscar o meu computador agonizante e comprei uma mochila para acomodar a Priscila como uma princesa. Andava a pensar nisso há meses e hoje lá entreguei o cartão do BES à menina da caixa. Embalada, ainda parei para trazer para casa umas revistas. Depois foi um pastel de nata totalmente desnecessário, fora a sempre dolorosa paragem na bomba de gasolina… Isto foi hoje. Escusado será falar dos dias em que se “passeia” a ver lojas e se é atraído à aquisição de objectos sem qualquer utilidade e que tendem a amontoar-se pelos cantos - numa casa em que o plano de ordenamento já de si não é o mais eficaz. Frequentemente ponho-me a olhar para essa quinquilharia e a tentar entender… o que é que nos leva a um consumo tão despropositado? É giro, quero! A não-sei-quantas tem, quero! Está em saldo, quero! Aliás: Está em saldo? Levo dois!!
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E morreu o Heath Ledger, essa tão agradável combinação de atributos físicos que nos fazia ver e rever “A Knight’s Tale”, sempre que passava na TVI. Um australiano alto e espadaúdo, assim pela minha idade. Foi encontrado morto no apartamento de uma amiga e mais não se adianta.

A tragédia fez com que o seu filme mais mediático, o “Brokeback Mountain”, que lhe valeu a nomeação para um Óscar, fosse exibido este sábado na televisão. Durante o filme, e a propósito, comentei com uma amiga que me parecia muito mais fácil tolerar uma traição daquelas, em que o amante é também um homem, do que ser trocada por outra mulher. Coisa com que ela concordou, mas surpreendida. É que, segundo disse, era a primeira pessoa que ouvia defender tal ponto de vista. Ora isso parece-me estranhíssimo! Que outra mulher tome o meu lugar, soa a substituição. Que o faça um homem, enfim, não soa a nada porque, na verdade, está fora da minha liga. É como comparar um bolo de cenoura a um cozido à portuguesa. Não tem nada a ver.

Por curiosidade transformei esta dúvida em sondagem e, já agora, vamos saber o que acha o pessoal… (comentem também por extenso se quiserem, que é mais giro)

12/01/08

Reveillón made in UK - II

Entrámos então numa discoteca espaçosa, de dois pisos, onde havia muita gente mas nenhum fumo (estágio de habituação à nova lei do tabaco por aqui). Desde logo o calor se fez sentir dado que os tais cachecóis, gorros, luvas e casacos não tinham por onde ser úteis num sítio daqueles. Como ingrediente extra acrescentem-se collants debaixo das calças!! (uma ideia brilhante à saída do aeroporto pela manhã, mas já não tão brilhante nesse momento…)

O desconforto era algum, no entanto a observação comportamental valeria a pena. Elas, matronas sem vergonha, de saias bem mini e decotes transbordantes, abanavam-se a valer. Eles, tanto ou mais repulsivos, idem. Entre cambaleantes e enrolados uns nos outros como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, nada mais parecia ter importância. O JP levou logo à entrada com um beijo na boca de uma avantajada desconhecida. A SemNexo e a ME, corajosas, fizeram-se à pista e suportaram os apalpões de toda uma vida. Eu aventurei-me apenas na casa-de-banho, onde os corpos meio caídos levaram os seguranças a fazer uma espécie de rusga. PUM! PUM! PUM! Are you allright? (ya, ya, desamparem-me a loja!). Quando saí, vi que levavam em braços uma loira que, pelos vistos, não estava nada allright. Imagine-se tudo isto com o chão permanentemente escorregadio por causa das bebidas entornadas. Então disse à SemNexo quero-me ir embora! e, para meu espanto, ela concordou imediatamente. Lá fomos descendo as escadas em direcção à saída quando a porta ficou bloqueada por uma bifa bêbeda (redundância, bem sei) que com algum histerismo gritava com o rapaz da frente. Do alto dos degraus hesitámos em forçar a passagem. E de repente, não percebi bem como, meteu-se outro gajo e começou tudo a empurrar-se e a gritar e eu a pensar “f... logo agora que convenci alguém a ir lá para fora, não conseguimos sair!” Mas foi de pouca dura, que apareceram de novo os gorilas da security e obrigaram cada um a ir à sua vidinha. Lá fora chuviscos bons.

Pode-se dizer que a segunda discoteca tentada se revelou de qualidade bem superior, talvez porque fosse frequentada, na maioria, por não-escoceses-não-ingleses. Africanos, indianos, paquistaneses e afins encaixavam-se na pista com mais lucidez. Mas eu, que fora de carro de Lisboa para Faro na véspera, apanhara uma seca de 3h à espera de um avião em cujo nariz se tinha espetado uma ave (hum, será que o facto do aeroporto ter sido construído em cima da ria tem alguma coisa a ver com o assunto?...), viajara outro tanto naquele conforto low-cost para chegar a Glasgow às duas da manhã, fazer uma caminha jeitosa nos bancos do aeroporto, dormir cerca de três horas com uma gravação a gritar-me aos ouvidos de meia em meia-hora que o aeroporto não se responsabilizava por objectos perdidos e que estes seriam, sem meias medidas, DESTRUÍDOS (juro que ela intensificava esta parte com nítido gozo! ou então era só a minha mente sádica) e que, por fim, apanhara uma camioneta de Glasgow para Aberdeen, onde cheguei ao fim de quatro horas, eu estava, portanto, nesse preciso momento na discoteca, um bocado amassada. E a desejar aquela horizontalidade amiga que quando finalmente veio foi uma verdadeira bênção. É que já não tenho idade para estas coisas (isto e patinar no Campo Grande)!

Um dia volvido, lá fomos ao ansiado passeio. Loch Ness, como não podia deixar de ser, dormida em Fort Williams, uma vilazita onde os bares fechavam à meia-noite e quase me rebentaram os pulmões a jogar ao toca-e-foge e, no dia seguinte a termos gravado o meu novo toque no telemóvel (uma alusão a Juan Carlos e à sua amizade por Hugo Chavéz), partimos para a ilha de Skye, nas Highlands.

E confesso que aqui me apetece parar o relato. Guardar esse sítio bom só para quem foi. Porque criar o ridículo é tão fácil, mas fazer jus ao que é positivo e marcante tem muito mais que se lhe diga... Skye é uma ilha mesmo juntinha à mainland (note-se a terminologia emigra) que se estende em planícies altas com vista para o mar e para as outras ilhotas em volta. Aves é ao pontapé. Neve nos pontos mais altos. Focas que não chegámos a ver e veados que passaram por nós majestosamente. Praias de cascalho escuro que visitámos com pulinhos friorentos. Pequenas quedas de água nas zonas em que as pastagens inclinam e o declive acaba por vencer. Muito wild, muito giro.
Calhou também ficarmos hospedados num sítio especial, com anfitriões à maneira e em ambiente caseiro. Calhou termos feito uma gloriosa noite de Pictionary em que o gajedo (em desvantagem numérica!) arrasou com a testosterona presente. E calhou termos sido campeões internacionais de bowling virtual e brindados com bem-disposta conversa escocesa. Foi bom, sim senhor.

E por aqui me fico. :)

10/01/08

Reveillón made in UK - I

Uma pessoa vai e chega ao Reino Unido, aquele da Elisabete dos dentes amarelos, sabem? Aterra-se em Glasgow - numa região chamada Escócia que, ao que consta, afinal não é bem da tal senhora porque o reino não é tão unido quanto isso - e não é preciso muito tempo para se perceber que, a depender da oferta gastronómica local, se avizinham valentes dias de fomeca. Para pequeno-almoço é difícil de avistar para além de salsichas e sanduíches cheias de maionese. A velha do balcão fixa-nos com olhos educadamente duros. O que comer, o que comer?... No fim lá surge um scone embalado, pede-se a cup of tea e acaba por salvar-se uma manhã. Mas a verdade é que não haveria que comer muito fora porque onde há casa de tuga, sempre se cozinha um esparguete com atum ou um arroz com ovos mexidos. Para a passagem de ano, e directamente do Feijó, chegavam também pastéis de bacalhau e rissóis de camarão. Tudo sob controlo.

Aberdeen é uma cidade cinzenta, começando pelo alcatrão e pelos passeios neutros, subindo ao longo das fachadas escuras e terminando lá no alto, naquele céu de chuvinha molha-tolos. Enchouriçados que andávamos para o frio, entrar algures para tomar um valioso café (valioso porque 2 ou 3 euros sempre custam a ganhar) implicava em todas as ocasiões um strip aborrecido. Luvas, gorro, cachecol, blusão… Mas pronto, faz parte.

De referir (e fundamental) temos a hospitalidade de ME, Cacá e Juan, cujo apartamento atingiu lotação considerável, tendo sido oferecida às meninas uma cama inesperada e muito confortável. É uma das alturas em que se agradece ter pipi e haver essas réstias de cavalheirismo que normalmente detestamos por condescendentes e paternalistas. Não foi o caso. E se fosse, teria dormido numa cama fofinha na mesma. :)

Adiante. Importa mesmo é registar a folia da noite escocesa! Ora os bretões, como manda o estereótipo, são criaturas secas que insistem em manter certo distanciamento do que não bate certo com as suas regras. Passe-se a generalização, por favor, que já se sabe para que existem as excepções. O panorama é mais ou menos este. Rígidos, educados, aparentemente pacientes, de poucos sorrisos, eficazes e, dá a sensação, conformados à norma. Mas atenção, tudo isto apenas na condição sóbria. Existe a outra… A partir do momento em que o álcool lhes entra no sangue, o mundo vira e logo vemos bifolândia a bombar! As ruas ficam cheias de lixo: garrafas vazias, copos, restos de comida, coisas meio esmagadas e não identificáveis, pocinhas de vómito, you name it. E os carros da limpeza prontamente a passar, a lavar, a esconder essa faceta menos controlada do povo. Bebedolas, muito bebedolas…

(continuo amanhã)