Entrámos então numa discoteca espaçosa, de dois pisos, onde havia muita gente mas nenhum fumo (estágio de habituação à nova lei do tabaco por aqui). Desde logo o calor se fez sentir dado que os tais cachecóis, gorros, luvas e casacos não tinham por onde ser úteis num sítio daqueles. Como ingrediente extra acrescentem-se collants debaixo das calças!! (uma ideia brilhante à saída do aeroporto pela manhã, mas já não tão brilhante nesse momento…)
O desconforto era algum, no entanto a observação comportamental valeria a pena. Elas, matronas sem vergonha, de saias bem mini e decotes transbordantes, abanavam-se a valer. Eles, tanto ou mais repulsivos, idem. Entre cambaleantes e enrolados uns nos outros como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, nada mais parecia ter importância. O JP levou logo à entrada com um beijo na boca de uma avantajada desconhecida. A SemNexo e a ME, corajosas, fizeram-se à pista e suportaram os apalpões de toda uma vida. Eu aventurei-me apenas na casa-de-banho, onde os corpos meio caídos levaram os seguranças a fazer uma espécie de rusga. PUM! PUM! PUM!
Are you allright? (ya, ya, desamparem-me a loja!). Quando saí, vi que levavam em braços uma loira que, pelos vistos, não estava nada allright. Imagine-se tudo isto com o chão permanentemente escorregadio por causa das bebidas entornadas. Então disse à SemNexo
quero-me ir embora! e, para meu espanto, ela concordou imediatamente. Lá fomos descendo as escadas em direcção à saída quando a porta ficou bloqueada por uma bifa bêbeda (redundância, bem sei) que com algum histerismo gritava com o rapaz da frente. Do alto dos degraus hesitámos em forçar a passagem. E de repente, não percebi bem como, meteu-se outro gajo e começou tudo a empurrar-se e a gritar e eu a pensar “f... logo agora que convenci alguém a ir lá para fora, não conseguimos sair!” Mas foi de pouca dura, que apareceram de novo os gorilas da security e obrigaram cada um a ir à sua vidinha. Lá fora chuviscos bons.
Pode-se dizer que a segunda discoteca tentada se revelou de qualidade bem superior, talvez porque fosse frequentada, na maioria, por não-escoceses-não-ingleses. Africanos, indianos, paquistaneses e afins encaixavam-se na pista com mais lucidez. Mas eu, que fora de carro de Lisboa para Faro na véspera, apanhara uma seca de 3h à espera de um avião em cujo nariz se tinha espetado uma ave (hum, será que o facto do aeroporto ter sido construído em cima da ria tem alguma coisa a ver com o assunto?...), viajara outro tanto naquele conforto low-cost para chegar a Glasgow às duas da manhã, fazer uma caminha jeitosa nos bancos do aeroporto, dormir cerca de três horas com uma gravação a gritar-me aos ouvidos de meia em meia-hora que o aeroporto não se responsabilizava por objectos perdidos e que estes seriam, sem meias medidas, DESTRUÍDOS (juro que ela intensificava esta parte com nítido gozo! ou então era só a minha mente sádica) e que, por fim, apanhara uma camioneta de Glasgow para Aberdeen, onde cheguei ao fim de quatro horas, eu estava, portanto, nesse preciso momento na discoteca, um bocado amassada. E a desejar aquela horizontalidade amiga que quando finalmente veio foi uma verdadeira bênção. É que já não tenho idade para estas coisas (isto e patinar no Campo Grande)!
Um dia volvido, lá fomos ao ansiado passeio. Loch Ness, como não podia deixar de ser, dormida em Fort Williams, uma vilazita onde os bares fechavam à meia-noite e quase me rebentaram os pulmões a jogar ao toca-e-foge e, no dia seguinte a termos gravado o meu novo toque no telemóvel (uma alusão a Juan Carlos e à sua amizade por Hugo Chavéz), partimos para a ilha de Skye, nas Highlands.
E confesso que aqui me apetece parar o relato. Guardar esse sítio bom só para quem foi. Porque criar o ridículo é tão fácil, mas fazer jus ao que é positivo e marcante tem muito mais que se lhe diga... Skye é uma ilha mesmo juntinha à
mainland (note-se a terminologia emigra) que se estende em planícies altas com vista para o mar e para as outras ilhotas em volta. Aves é ao pontapé. Neve nos pontos mais altos. Focas que não chegámos a ver e veados que passaram por nós majestosamente. Praias de cascalho escuro que visitámos com pulinhos friorentos. Pequenas quedas de água nas zonas em que as pastagens inclinam e o declive acaba por vencer. Muito wild, muito giro.
Calhou também ficarmos hospedados num sítio especial, com anfitriões à maneira e em ambiente caseiro. Calhou termos feito uma gloriosa noite de Pictionary em que o gajedo (em desvantagem numérica!) arrasou com a testosterona presente. E calhou termos sido campeões internacionais de bowling virtual e brindados com bem-disposta conversa escocesa. Foi bom, sim senhor.
E por aqui me fico. :)