Ao entrar no espaço comum à loja do Benfica e ao Media Markt cruzo-me com uma senhora que sai, com a filha pela mão. Criatura de dois anos, mais coisa menos coisa. Noto que à medida que outros adultos passam por elas sorriem muito à criança e, portanto, presto-lhe mais atenção. Sorrio também ao aproximar-me. Ela olha para mim, os olhos brilham de excitação, aponta-me o dedo gorducho e exclama para a mãe: “Pópó!”
(Pópó?...)
Deito uma rápida mirada à imagem que projecto no vidro da entrada. Assim de longe não me faz lembrar os contornos de um veículo automóvel. Mas a miúda lá saberá. E pelos vistos a mãe compreende, que ainda a consigo ouvir a rir enquanto me afasto: “sim, é popó”, responde.
(Sou pópó?!)
___________________________________________________________
Confesso ao capitalista todo-poderoso
e a vós irmãos,
que comprei muitas vezes
com dinheiro vivo, cheques,
multibanco e mesmo a crédito
por minha culpa,
minha tão grande culpa…
Fui buscar o meu computador agonizante e comprei uma mochila para acomodar a Priscila como uma princesa. Andava a pensar nisso há meses e hoje lá entreguei o cartão do BES à menina da caixa. Embalada, ainda parei para trazer para casa umas revistas. Depois foi um pastel de nata totalmente desnecessário, fora a sempre dolorosa paragem na bomba de gasolina… Isto foi hoje. Escusado será falar dos dias em que se “passeia” a ver lojas e se é atraído à aquisição de objectos sem qualquer utilidade e que tendem a amontoar-se pelos cantos - numa casa em que o plano de ordenamento já de si não é o mais eficaz. Frequentemente ponho-me a olhar para essa quinquilharia e a tentar entender… o que é que nos leva a um consumo tão despropositado? É giro, quero! A não-sei-quantas tem, quero! Está em saldo, quero! Aliás: Está em saldo? Levo dois!!
___________________________________________________________
E morreu o Heath Ledger, essa tão agradável combinação de atributos físicos que nos fazia ver e rever “A Knight’s Tale”, sempre que passava na TVI. Um australiano alto e espadaúdo, assim pela minha idade. Foi encontrado morto no apartamento de uma amiga e mais não se adianta.
A tragédia fez com que o seu filme mais mediático, o “Brokeback Mountain”, que lhe valeu a nomeação para um Óscar, fosse exibido este sábado na televisão. Durante o filme, e a propósito, comentei com uma amiga que me parecia muito mais fácil tolerar uma traição daquelas, em que o amante é também um homem, do que ser trocada por outra mulher. Coisa com que ela concordou, mas surpreendida. É que, segundo disse, era a primeira pessoa que ouvia defender tal ponto de vista. Ora isso parece-me estranhíssimo! Que outra mulher tome o meu lugar, soa a substituição. Que o faça um homem, enfim, não soa a nada porque, na verdade, está fora da minha liga. É como comparar um bolo de cenoura a um cozido à portuguesa. Não tem nada a ver.
Por curiosidade transformei esta dúvida em sondagem e, já agora, vamos saber o que acha o pessoal… (comentem também por extenso se quiserem, que é mais giro)
28/01/08
12/01/08
Reveillón made in UK - II
Entrámos então numa discoteca espaçosa, de dois pisos, onde havia muita gente mas nenhum fumo (estágio de habituação à nova lei do tabaco por aqui). Desde logo o calor se fez sentir dado que os tais cachecóis, gorros, luvas e casacos não tinham por onde ser úteis num sítio daqueles. Como ingrediente extra acrescentem-se collants debaixo das calças!! (uma ideia brilhante à saída do aeroporto pela manhã, mas já não tão brilhante nesse momento…)
O desconforto era algum, no entanto a observação comportamental valeria a pena. Elas, matronas sem vergonha, de saias bem mini e decotes transbordantes, abanavam-se a valer. Eles, tanto ou mais repulsivos, idem. Entre cambaleantes e enrolados uns nos outros como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, nada mais parecia ter importância. O JP levou logo à entrada com um beijo na boca de uma avantajada desconhecida. A SemNexo e a ME, corajosas, fizeram-se à pista e suportaram os apalpões de toda uma vida. Eu aventurei-me apenas na casa-de-banho, onde os corpos meio caídos levaram os seguranças a fazer uma espécie de rusga. PUM! PUM! PUM! Are you allright? (ya, ya, desamparem-me a loja!). Quando saí, vi que levavam em braços uma loira que, pelos vistos, não estava nada allright. Imagine-se tudo isto com o chão permanentemente escorregadio por causa das bebidas entornadas. Então disse à SemNexo quero-me ir embora! e, para meu espanto, ela concordou imediatamente. Lá fomos descendo as escadas em direcção à saída quando a porta ficou bloqueada por uma bifa bêbeda (redundância, bem sei) que com algum histerismo gritava com o rapaz da frente. Do alto dos degraus hesitámos em forçar a passagem. E de repente, não percebi bem como, meteu-se outro gajo e começou tudo a empurrar-se e a gritar e eu a pensar “f... logo agora que convenci alguém a ir lá para fora, não conseguimos sair!” Mas foi de pouca dura, que apareceram de novo os gorilas da security e obrigaram cada um a ir à sua vidinha. Lá fora chuviscos bons.
Pode-se dizer que a segunda discoteca tentada se revelou de qualidade bem superior, talvez porque fosse frequentada, na maioria, por não-escoceses-não-ingleses. Africanos, indianos, paquistaneses e afins encaixavam-se na pista com mais lucidez. Mas eu, que fora de carro de Lisboa para Faro na véspera, apanhara uma seca de 3h à espera de um avião em cujo nariz se tinha espetado uma ave (hum, será que o facto do aeroporto ter sido construído em cima da ria tem alguma coisa a ver com o assunto?...), viajara outro tanto naquele conforto low-cost para chegar a Glasgow às duas da manhã, fazer uma caminha jeitosa nos bancos do aeroporto, dormir cerca de três horas com uma gravação a gritar-me aos ouvidos de meia em meia-hora que o aeroporto não se responsabilizava por objectos perdidos e que estes seriam, sem meias medidas, DESTRUÍDOS (juro que ela intensificava esta parte com nítido gozo! ou então era só a minha mente sádica) e que, por fim, apanhara uma camioneta de Glasgow para Aberdeen, onde cheguei ao fim de quatro horas, eu estava, portanto, nesse preciso momento na discoteca, um bocado amassada. E a desejar aquela horizontalidade amiga que quando finalmente veio foi uma verdadeira bênção. É que já não tenho idade para estas coisas (isto e patinar no Campo Grande)!
Um dia volvido, lá fomos ao ansiado passeio. Loch Ness, como não podia deixar de ser, dormida em Fort Williams, uma vilazita onde os bares fechavam à meia-noite e quase me rebentaram os pulmões a jogar ao toca-e-foge e, no dia seguinte a termos gravado o meu novo toque no telemóvel (uma alusão a Juan Carlos e à sua amizade por Hugo Chavéz), partimos para a ilha de Skye, nas Highlands.
E confesso que aqui me apetece parar o relato. Guardar esse sítio bom só para quem foi. Porque criar o ridículo é tão fácil, mas fazer jus ao que é positivo e marcante tem muito mais que se lhe diga... Skye é uma ilha mesmo juntinha à mainland (note-se a terminologia emigra) que se estende em planícies altas com vista para o mar e para as outras ilhotas em volta. Aves é ao pontapé. Neve nos pontos mais altos. Focas que não chegámos a ver e veados que passaram por nós majestosamente. Praias de cascalho escuro que visitámos com pulinhos friorentos. Pequenas quedas de água nas zonas em que as pastagens inclinam e o declive acaba por vencer. Muito wild, muito giro.
Calhou também ficarmos hospedados num sítio especial, com anfitriões à maneira e em ambiente caseiro. Calhou termos feito uma gloriosa noite de Pictionary em que o gajedo (em desvantagem numérica!) arrasou com a testosterona presente. E calhou termos sido campeões internacionais de bowling virtual e brindados com bem-disposta conversa escocesa. Foi bom, sim senhor.
E por aqui me fico. :)
O desconforto era algum, no entanto a observação comportamental valeria a pena. Elas, matronas sem vergonha, de saias bem mini e decotes transbordantes, abanavam-se a valer. Eles, tanto ou mais repulsivos, idem. Entre cambaleantes e enrolados uns nos outros como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, nada mais parecia ter importância. O JP levou logo à entrada com um beijo na boca de uma avantajada desconhecida. A SemNexo e a ME, corajosas, fizeram-se à pista e suportaram os apalpões de toda uma vida. Eu aventurei-me apenas na casa-de-banho, onde os corpos meio caídos levaram os seguranças a fazer uma espécie de rusga. PUM! PUM! PUM! Are you allright? (ya, ya, desamparem-me a loja!). Quando saí, vi que levavam em braços uma loira que, pelos vistos, não estava nada allright. Imagine-se tudo isto com o chão permanentemente escorregadio por causa das bebidas entornadas. Então disse à SemNexo quero-me ir embora! e, para meu espanto, ela concordou imediatamente. Lá fomos descendo as escadas em direcção à saída quando a porta ficou bloqueada por uma bifa bêbeda (redundância, bem sei) que com algum histerismo gritava com o rapaz da frente. Do alto dos degraus hesitámos em forçar a passagem. E de repente, não percebi bem como, meteu-se outro gajo e começou tudo a empurrar-se e a gritar e eu a pensar “f... logo agora que convenci alguém a ir lá para fora, não conseguimos sair!” Mas foi de pouca dura, que apareceram de novo os gorilas da security e obrigaram cada um a ir à sua vidinha. Lá fora chuviscos bons.
Pode-se dizer que a segunda discoteca tentada se revelou de qualidade bem superior, talvez porque fosse frequentada, na maioria, por não-escoceses-não-ingleses. Africanos, indianos, paquistaneses e afins encaixavam-se na pista com mais lucidez. Mas eu, que fora de carro de Lisboa para Faro na véspera, apanhara uma seca de 3h à espera de um avião em cujo nariz se tinha espetado uma ave (hum, será que o facto do aeroporto ter sido construído em cima da ria tem alguma coisa a ver com o assunto?...), viajara outro tanto naquele conforto low-cost para chegar a Glasgow às duas da manhã, fazer uma caminha jeitosa nos bancos do aeroporto, dormir cerca de três horas com uma gravação a gritar-me aos ouvidos de meia em meia-hora que o aeroporto não se responsabilizava por objectos perdidos e que estes seriam, sem meias medidas, DESTRUÍDOS (juro que ela intensificava esta parte com nítido gozo! ou então era só a minha mente sádica) e que, por fim, apanhara uma camioneta de Glasgow para Aberdeen, onde cheguei ao fim de quatro horas, eu estava, portanto, nesse preciso momento na discoteca, um bocado amassada. E a desejar aquela horizontalidade amiga que quando finalmente veio foi uma verdadeira bênção. É que já não tenho idade para estas coisas (isto e patinar no Campo Grande)!
Um dia volvido, lá fomos ao ansiado passeio. Loch Ness, como não podia deixar de ser, dormida em Fort Williams, uma vilazita onde os bares fechavam à meia-noite e quase me rebentaram os pulmões a jogar ao toca-e-foge e, no dia seguinte a termos gravado o meu novo toque no telemóvel (uma alusão a Juan Carlos e à sua amizade por Hugo Chavéz), partimos para a ilha de Skye, nas Highlands.
E confesso que aqui me apetece parar o relato. Guardar esse sítio bom só para quem foi. Porque criar o ridículo é tão fácil, mas fazer jus ao que é positivo e marcante tem muito mais que se lhe diga... Skye é uma ilha mesmo juntinha à mainland (note-se a terminologia emigra) que se estende em planícies altas com vista para o mar e para as outras ilhotas em volta. Aves é ao pontapé. Neve nos pontos mais altos. Focas que não chegámos a ver e veados que passaram por nós majestosamente. Praias de cascalho escuro que visitámos com pulinhos friorentos. Pequenas quedas de água nas zonas em que as pastagens inclinam e o declive acaba por vencer. Muito wild, muito giro.
Calhou também ficarmos hospedados num sítio especial, com anfitriões à maneira e em ambiente caseiro. Calhou termos feito uma gloriosa noite de Pictionary em que o gajedo (em desvantagem numérica!) arrasou com a testosterona presente. E calhou termos sido campeões internacionais de bowling virtual e brindados com bem-disposta conversa escocesa. Foi bom, sim senhor.
E por aqui me fico. :)
10/01/08
Reveillón made in UK - I
Uma pessoa vai e chega ao Reino Unido, aquele da Elisabete dos dentes amarelos, sabem? Aterra-se em Glasgow - numa região chamada Escócia que, ao que consta, afinal não é bem da tal senhora porque o reino não é tão unido quanto isso - e não é preciso muito tempo para se perceber que, a depender da oferta gastronómica local, se avizinham valentes dias de fomeca. Para pequeno-almoço é difícil de avistar para além de salsichas e sanduíches cheias de maionese. A velha do balcão fixa-nos com olhos educadamente duros. O que comer, o que comer?... No fim lá surge um scone embalado, pede-se a cup of tea e acaba por salvar-se uma manhã. Mas a verdade é que não haveria que comer muito fora porque onde há casa de tuga, sempre se cozinha um esparguete com atum ou um arroz com ovos mexidos. Para a passagem de ano, e directamente do Feijó, chegavam também pastéis de bacalhau e rissóis de camarão. Tudo sob controlo.
Aberdeen é uma cidade cinzenta, começando pelo alcatrão e pelos passeios neutros, subindo ao longo das fachadas escuras e terminando lá no alto, naquele céu de chuvinha molha-tolos. Enchouriçados que andávamos para o frio, entrar algures para tomar um valioso café (valioso porque 2 ou 3 euros sempre custam a ganhar) implicava em todas as ocasiões um strip aborrecido. Luvas, gorro, cachecol, blusão… Mas pronto, faz parte.
De referir (e fundamental) temos a hospitalidade de ME, Cacá e Juan, cujo apartamento atingiu lotação considerável, tendo sido oferecida às meninas uma cama inesperada e muito confortável. É uma das alturas em que se agradece ter pipi e haver essas réstias de cavalheirismo que normalmente detestamos por condescendentes e paternalistas. Não foi o caso. E se fosse, teria dormido numa cama fofinha na mesma. :)
Adiante. Importa mesmo é registar a folia da noite escocesa! Ora os bretões, como manda o estereótipo, são criaturas secas que insistem em manter certo distanciamento do que não bate certo com as suas regras. Passe-se a generalização, por favor, que já se sabe para que existem as excepções. O panorama é mais ou menos este. Rígidos, educados, aparentemente pacientes, de poucos sorrisos, eficazes e, dá a sensação, conformados à norma. Mas atenção, tudo isto apenas na condição sóbria. Existe a outra… A partir do momento em que o álcool lhes entra no sangue, o mundo vira e logo vemos bifolândia a bombar! As ruas ficam cheias de lixo: garrafas vazias, copos, restos de comida, coisas meio esmagadas e não identificáveis, pocinhas de vómito, you name it. E os carros da limpeza prontamente a passar, a lavar, a esconder essa faceta menos controlada do povo. Bebedolas, muito bebedolas…
(continuo amanhã)
Aberdeen é uma cidade cinzenta, começando pelo alcatrão e pelos passeios neutros, subindo ao longo das fachadas escuras e terminando lá no alto, naquele céu de chuvinha molha-tolos. Enchouriçados que andávamos para o frio, entrar algures para tomar um valioso café (valioso porque 2 ou 3 euros sempre custam a ganhar) implicava em todas as ocasiões um strip aborrecido. Luvas, gorro, cachecol, blusão… Mas pronto, faz parte.
De referir (e fundamental) temos a hospitalidade de ME, Cacá e Juan, cujo apartamento atingiu lotação considerável, tendo sido oferecida às meninas uma cama inesperada e muito confortável. É uma das alturas em que se agradece ter pipi e haver essas réstias de cavalheirismo que normalmente detestamos por condescendentes e paternalistas. Não foi o caso. E se fosse, teria dormido numa cama fofinha na mesma. :)
Adiante. Importa mesmo é registar a folia da noite escocesa! Ora os bretões, como manda o estereótipo, são criaturas secas que insistem em manter certo distanciamento do que não bate certo com as suas regras. Passe-se a generalização, por favor, que já se sabe para que existem as excepções. O panorama é mais ou menos este. Rígidos, educados, aparentemente pacientes, de poucos sorrisos, eficazes e, dá a sensação, conformados à norma. Mas atenção, tudo isto apenas na condição sóbria. Existe a outra… A partir do momento em que o álcool lhes entra no sangue, o mundo vira e logo vemos bifolândia a bombar! As ruas ficam cheias de lixo: garrafas vazias, copos, restos de comida, coisas meio esmagadas e não identificáveis, pocinhas de vómito, you name it. E os carros da limpeza prontamente a passar, a lavar, a esconder essa faceta menos controlada do povo. Bebedolas, muito bebedolas…
(continuo amanhã)
28/12/07
já está
E agora vou à Escócia desligar a cabeça. Não sei se é a cabeça. Pouco interessa. Seja apenas que vou onde nunca fui, o que há-de bastar.

E se tivermos frio, logo surgirão simpáticos cavalheiros que oferecem os kilts sem hesitar.

A ideia que fica hoje:
Querer é bonito e não querer, enfim, não querer é visto com estranheza. As vontades definidas e os objectivos traçados são daquelas coisas que devemos trazer sempre à mão de semear - na carteira, no bolso das calças, escondidas no soutien... - não vá dar-se o caso de alguma autoridade competente fazer soar a sirene e pedir-nos para encostar. "Os comprovativos de ambição, por favor". E nós muito encolhidinhos (merda que os deixei em casa!). "Ah! E já agora a carta verde das motivações, a ver se está tudo em ordem". E o pessoal a remexer o porta-luvas, a apalpar debaixo dos bancos, a sorrir entalado para o senhor agente e oh! talvez esteja na mala!, onde se vai em seguida, já transpirando e antevendo a dura realidade: é que não estamos conforme.
Pagamos a multa.
Mas é só mais uma.
Fará diferença?
Um bom início de 2008 a todos os que passarem por aqui!! :)

E se tivermos frio, logo surgirão simpáticos cavalheiros que oferecem os kilts sem hesitar.

A ideia que fica hoje:
Querer é bonito e não querer, enfim, não querer é visto com estranheza. As vontades definidas e os objectivos traçados são daquelas coisas que devemos trazer sempre à mão de semear - na carteira, no bolso das calças, escondidas no soutien... - não vá dar-se o caso de alguma autoridade competente fazer soar a sirene e pedir-nos para encostar. "Os comprovativos de ambição, por favor". E nós muito encolhidinhos (merda que os deixei em casa!). "Ah! E já agora a carta verde das motivações, a ver se está tudo em ordem". E o pessoal a remexer o porta-luvas, a apalpar debaixo dos bancos, a sorrir entalado para o senhor agente e oh! talvez esteja na mala!, onde se vai em seguida, já transpirando e antevendo a dura realidade: é que não estamos conforme.
Pagamos a multa.
Mas é só mais uma.
Fará diferença?
Um bom início de 2008 a todos os que passarem por aqui!! :)
18/12/07
não porque ande preguiçosa...
...mas sim um tanto ocupada, aqui fica um texto adaptado que me enviaram por mail. Alguns já conhecerão, mas o resto entretém-se. Só não percebi se o saltitar entre o "tu" e o "você" é obra do senhor Millôr ou uma tentativa anónima (e falhada) de aportuguesar a coisa. Anyhow, tá giro.
"Foda-se"
Millôr Fernandes
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. "Não quer sair comigo?! - então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!" O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo: "Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!". O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"? Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”
"Foda-se"
Millôr Fernandes
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. "Não quer sair comigo?! - então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!" O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo: "Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!". O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"? Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”
11/12/07
livros
Penso que é mal da idade: começam a ler-se vários livros ao mesmo tempo. Como consequência, os ditos vão-se acumulando em cima da mesa, à volta da cama – onde quiserem... – naquele processo conhecido como “a ocupação livral do espaço útil”. Pilhas de leitura começada e sem perspectivas imediatas de término vão medrando sem vergonha. Sempre tive na ideia que os livros são criaturas de parco embaraço. Confere.

Encetados no momento:
“A vida sexual da minha tia” de Mavis Cheek – relata as extraconjugalidades de uma mulher nos cinquenta com um homem de quarenta; giro, de fácil leitura e daqueles que agarram;
“Confieso que he vivido” de Pablo Neruda – as últimas memórias que o senhor escreveu; leio-o devagar, devagarinho, que é de coisa de substância; faz-me pensar e viajar;
“Our Inner Ape” de Franz De Waal – needless to say o quão genial considero este (para quem tem lido o blog e aturado as minhas conversas sobre bonobos, chimpanzés e pessoas); aos que têm curiosidade em conhecer melhor as raízes do nosso comportamento, aconselho vivamente; nada técnico, escrito para o público em geral e cheio de exemplos e histórias na primeira pessoa;
“Los refugios de piedra” de Jean M. Auel – quinto volume de uma saga sobre os humanos na pré-história (romance) que devorei na adolescência e que muito me frustrou não ter chegado ao fim porque não estava ainda escrito; descobri-o este Verão na fnac de San Sebastián e não resisti a comprar, mas desinteressei-me um pouco e ali está o triste, a meio...
Em vias de:
“Destructive Emotions” de Daniel Goleman – resultado de uma reunião de cientistas, filósofos e monges budistas que, durante uma semana, em 2000, discutiram o comportamento humano; tenho algumas expectativas nele;
“Por favor não matem a cotovia” de Harper Lee - sobre o racismo aos olhos de uma criança sulista, nos EUA, lá pelos anos trinta; prémio Pulitzer e, por enquanto, mais não sei.
_______________________________________________________
Quem tiver paciência/tempo que me comente os seus livros também! Os recentes, os antigos, os preferidos, os detestados, os de revelação, os de casa-de-banho... Adoro saber. :)

Encetados no momento:
“A vida sexual da minha tia” de Mavis Cheek – relata as extraconjugalidades de uma mulher nos cinquenta com um homem de quarenta; giro, de fácil leitura e daqueles que agarram;
“Confieso que he vivido” de Pablo Neruda – as últimas memórias que o senhor escreveu; leio-o devagar, devagarinho, que é de coisa de substância; faz-me pensar e viajar;
“Our Inner Ape” de Franz De Waal – needless to say o quão genial considero este (para quem tem lido o blog e aturado as minhas conversas sobre bonobos, chimpanzés e pessoas); aos que têm curiosidade em conhecer melhor as raízes do nosso comportamento, aconselho vivamente; nada técnico, escrito para o público em geral e cheio de exemplos e histórias na primeira pessoa;
“Los refugios de piedra” de Jean M. Auel – quinto volume de uma saga sobre os humanos na pré-história (romance) que devorei na adolescência e que muito me frustrou não ter chegado ao fim porque não estava ainda escrito; descobri-o este Verão na fnac de San Sebastián e não resisti a comprar, mas desinteressei-me um pouco e ali está o triste, a meio...
Em vias de:
“Destructive Emotions” de Daniel Goleman – resultado de uma reunião de cientistas, filósofos e monges budistas que, durante uma semana, em 2000, discutiram o comportamento humano; tenho algumas expectativas nele;
“Por favor não matem a cotovia” de Harper Lee - sobre o racismo aos olhos de uma criança sulista, nos EUA, lá pelos anos trinta; prémio Pulitzer e, por enquanto, mais não sei.
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Quem tiver paciência/tempo que me comente os seus livros também! Os recentes, os antigos, os preferidos, os detestados, os de revelação, os de casa-de-banho... Adoro saber. :)
06/12/07
aniversários
Rara a pessoa que passa por eles indiferente, sendo que uns adoram e outros consideram a experiência desagradável, por um ou outro motivo. No meu caso, confesso, nunca fui grande fã. Tirando os anos da infância em que receber presentes e ter a casa cheia de gente me deixava verdadeiramente feliz, desde cedo que cada ano que passa me causa uma ligeira angústia. Não é por ficar mais velha, que essa noção nem sequer tem muito de real – não é de um dia para o outro que me transformo (ou talvez seja, mas decididamente não por fazer anos!). Há quem diga que é um dia em que se pensa muito em si próprio e que, havendo descontentamentos com a vida, eles saltam cá para fora menos controlados. Mas também não acredito que todo o santo ano – quase desde que me conheço – esteja descontente com a vida. Seria demais! Para além do que penso em mim própria e no lugar que ocupo no mundo dia sim, dia não.
Depois de muito ponderar, cheguei à conclusão que não gosto de fazer anos porque me sinto sozinha. Aquela atenção que nos dedicam em telefonemas, a cantar “parabéns a você”, a tratar-nos por “o nosso bebé”, resulta para mim como se me pusessem do lado de fora e me olhassem todos de dentro, sorrindo amigavelmente. É bom que sorriam e nos acenem, mas é ainda melhor fazer parte do todo, sem a segregação. Não gosto de me sentir de parte, que não partilhemos preparativos, detesto que segredem ideias para presentes e combinem encontros secretos para os comprar, onde eu não poderei ser incluída. Parece tonto? Pois que seja. Gozo com a M. por chorar quando lhe cantam os parabéns mas entendo-a perfeitamente. É o símbolo último dessa solidão de fazer anos: uma multidão alegre que canta, fixando-nos, enquanto somos forçados a ficar calados e suportar todo e cada olhar que se nos dirige. Socialmente, trata-se de uma exposição considerável e, para mim, um pouco agressiva.
Depois há os telefonemas vários de todas as pessoas com quem falamos uma vez por ano e nos lançam aquele género de perguntas “então, que andas a fazer agora?”, às quais nos apetece imediatamente desligar o telefone, nem que seja por exaustão (que andamos desde manhã a resumir a vida em capítulos hiper condensados para satisfazer quem liga). Neste dia vão-nos dar atenção de um modo quase exigente, vão querer saber que planos temos, porquê, onde e com quem. E nós temos que o permitir. Se organizamos um jantar, a lista de convidados tende a extender-se ao triplo do desejado porque “se vai este, então tem que vir também o outro” e, no final, sentar as pessoas de modo a que toda a gente tenha parceiro adequado e se sinta bem é outro desafio. A noite é passada a saltitar de um lado para o outro para se conseguirem dois dedos de conversa com cada um e, bem vistas as coisas, sabe sempre a pouco. Eu não sou assim, saltitante. Mas, como se faz anos, é suposto estar-se nas nuvens. Veste-se essa carapaça (é só mais uma) e amansam-se as expectativas sem fazer ondas. Então, se por um lado gosto muito do dia sete e o associo sempre a mim e à bisavó desconhecida que me deixou o nome, por outro lado também é verdade que ele acaba por ser um símbolo de solidão.
Há histórias engraçadas de aniversários aí fora para contar? Aqui em casa repete-se aquela do dia em que eu, com seis ou sete anos, me casei em cerimónia pomposa com o namorado da altura, um tal de Bruno, segundo orientação e preparativos da Ilda, a nossa empregada na época (personagem com muito que se lhe diga). Vestiu-me de branco, pintou-me e arranjou até pétalas que todos os miúdos lançavam, delirantes. O Bruno, também muito divertido, vestia um casaco do meu pai que lhe ia até aos pés. Do resto já não me lembro bem, mas creio que chegámos a ter um filho, se é que ele não ia já enfiado debaixo do vestido na altura do casamento. Algum dos presentes se lembra deste pormenor? Vindo da Ilda, é bem possível.
Trago também algumas recordações das festas em que a minha madrinha aparecia mais cedo e insistia em fazer a decoração da sala com grandes laçarotes por todo o lado. Como imaginam, sempre fui muito dada a essas coisas e não me envergonhava absolutamente nada quando as minhas amigas apareciam...
Bem, mas este ano a M. acabou de receber o primeiro ordenado e calcorreámos o Colombo há uns dias para ela dar provas da sua dedicação fraterna. E que bem que lhe ficou. Já compensa alguns telefonemas, senão mesmo um parabéns a você!
Depois de muito ponderar, cheguei à conclusão que não gosto de fazer anos porque me sinto sozinha. Aquela atenção que nos dedicam em telefonemas, a cantar “parabéns a você”, a tratar-nos por “o nosso bebé”, resulta para mim como se me pusessem do lado de fora e me olhassem todos de dentro, sorrindo amigavelmente. É bom que sorriam e nos acenem, mas é ainda melhor fazer parte do todo, sem a segregação. Não gosto de me sentir de parte, que não partilhemos preparativos, detesto que segredem ideias para presentes e combinem encontros secretos para os comprar, onde eu não poderei ser incluída. Parece tonto? Pois que seja. Gozo com a M. por chorar quando lhe cantam os parabéns mas entendo-a perfeitamente. É o símbolo último dessa solidão de fazer anos: uma multidão alegre que canta, fixando-nos, enquanto somos forçados a ficar calados e suportar todo e cada olhar que se nos dirige. Socialmente, trata-se de uma exposição considerável e, para mim, um pouco agressiva.
Depois há os telefonemas vários de todas as pessoas com quem falamos uma vez por ano e nos lançam aquele género de perguntas “então, que andas a fazer agora?”, às quais nos apetece imediatamente desligar o telefone, nem que seja por exaustão (que andamos desde manhã a resumir a vida em capítulos hiper condensados para satisfazer quem liga). Neste dia vão-nos dar atenção de um modo quase exigente, vão querer saber que planos temos, porquê, onde e com quem. E nós temos que o permitir. Se organizamos um jantar, a lista de convidados tende a extender-se ao triplo do desejado porque “se vai este, então tem que vir também o outro” e, no final, sentar as pessoas de modo a que toda a gente tenha parceiro adequado e se sinta bem é outro desafio. A noite é passada a saltitar de um lado para o outro para se conseguirem dois dedos de conversa com cada um e, bem vistas as coisas, sabe sempre a pouco. Eu não sou assim, saltitante. Mas, como se faz anos, é suposto estar-se nas nuvens. Veste-se essa carapaça (é só mais uma) e amansam-se as expectativas sem fazer ondas. Então, se por um lado gosto muito do dia sete e o associo sempre a mim e à bisavó desconhecida que me deixou o nome, por outro lado também é verdade que ele acaba por ser um símbolo de solidão.
Há histórias engraçadas de aniversários aí fora para contar? Aqui em casa repete-se aquela do dia em que eu, com seis ou sete anos, me casei em cerimónia pomposa com o namorado da altura, um tal de Bruno, segundo orientação e preparativos da Ilda, a nossa empregada na época (personagem com muito que se lhe diga). Vestiu-me de branco, pintou-me e arranjou até pétalas que todos os miúdos lançavam, delirantes. O Bruno, também muito divertido, vestia um casaco do meu pai que lhe ia até aos pés. Do resto já não me lembro bem, mas creio que chegámos a ter um filho, se é que ele não ia já enfiado debaixo do vestido na altura do casamento. Algum dos presentes se lembra deste pormenor? Vindo da Ilda, é bem possível.
Trago também algumas recordações das festas em que a minha madrinha aparecia mais cedo e insistia em fazer a decoração da sala com grandes laçarotes por todo o lado. Como imaginam, sempre fui muito dada a essas coisas e não me envergonhava absolutamente nada quando as minhas amigas apareciam...
Bem, mas este ano a M. acabou de receber o primeiro ordenado e calcorreámos o Colombo há uns dias para ela dar provas da sua dedicação fraterna. E que bem que lhe ficou. Já compensa alguns telefonemas, senão mesmo um parabéns a você!
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