23/05/08

amizades que foram

Uma pessoa que parte deixa uma marca que não sai, tal como um prego na parede deixa sempre o seu buraco. Com o tempo, a vista adapta-se ao buraco e simplesmente deixa de o ver. Integra-o. (um buraco? onde?)

Uma pessoa deixada para trás representa o tempo que lhe ficou colado. Claro que também ela viveu, experimentou, ultrapassou barreiras, mas vemo-la sempre como estando no tal local, no tal período de tempo, associada a fulano ou a cicrano. E como isso não é mais verdade, quando topamos com os olhos nela, não sabemos o que fazer. Difícil será reagir como se a não reconhecêssemos e entabular uma conversa de apresentação. Por outro lado, ao fim de alguns anos, não temos a mínima noção do que ela pensa ou faz regularmente, pelo que não podemos assumir o que quer que seja. Caímos na entediante repetição da vida em condensado, a versão que trazemos sempre preparada para ocasiões do foro público. E pode, inclusive, ser doloroso olhar os olhos de quem já se entendeu um dia num domínio mais chegado, mais aconchegado. Ver os farrapos de uma amizade que, afinal, talvez não fosse. Pode ser um desalento identificar o pouco à-vontade, a desconfiança nos gestos, um acautelado manter de distância… A mim, que sou dada à saudade, bate logo a tristeza desses nós que já não soltam e daquilo que não pôde mais ser.

17/05/08

olha qu'esta!!

Hoje comecei o dia ao volante do mazda. Ali ao passar o Campo Grande, mesmo por baixo do viaduto da 2ª circular, o locutor que comentava musicalidades na Antena3 começou a contar que, ao engano, achava que os Guns n’ Roses tinham agora editado um álbum novo - mas que depois verificou que se trata, afinal, de um best of. Então, em jeito de observação de remate, terminou a intervenção da seguinte maneira: “… aqueles que foram jovens teenagers dos anos 90 e que hoje, certamente mais entradotes, querem mostrar à sua descendência o rock de outros tempos, têm aqui uma oportunidade…” Ora meu amigo, alto e pára o baile!! Vamos cá fazer algumas continhas… Entre 1990 e 1999, eu própria fui dos 9 aos 17 anos. Um perfeito exemplo de “jovem teenager”. E chamar-me “entradota” aos 26 anos é no mínimo exagerado... Eu sei que há-que se fazer de engraçado, que é o trivial e almôndegas falar de épocas e tempos idos, mas calma! Além do mais, as três pessoas da minha idade que conheço com filhos, têm-nos ainda em estado de desenvolvimento insuficiente para que lhes seja mostrada a música dos Guns (ou do que quer que seja, aliás - talvez à excepção dos Teletubbies). Portanto a máxima transcrita no post anterior aplica-se lindamente ao caro artista da rádio. Se é para dizeres parvoíces, mais vale estar calado.

12/05/08

uma curta só para picar o ponto

"Whereof we can not speak, thereof we must remain silent"
Ludwig Wittgenstein

A maior parte de nós esquece-se disto com uma trágica frequência!

30/04/08

Anita em Amsterdão...

Agora estou aqui, neste sítio em que há casas que são barcos, barcos que são pistas de dança e música um pouco por todo o lado. É que foi dia de aniversário da rainha-mãe - aquilo a que os holandeses chamam o dia da rainha - pelo que este pontinho do mapa, hoje, virou cor-de-laranja, apinhado e meio descontrolado.

Gosto da atenção que dedicam às crianças, do facto de montarem, com simplicidade, uma feira gigantesca em que elas exibem talentos, vendem o que querem e se divertem à grande.


Tiro o meu chapéu ao amigo gandamaluko por ter conseguido aprender esta língua de trapos, principalmente tendo sido autodidacta no processo.

E estou de rastos porque andámos umas 10h a cirandar por aí. Deliro com a cena da bicicleta! Se não faltasse o sol 80% do tempo, isto é que seria qualidade de vida.

28/04/08

into the (not so) deep

Finalmente, ao fim de cinco meses, fizemo-nos ao mar!
Glup, glup, glup...


Os exercícios do tem que ser:


E agora é só dar à barbatana!

25/04/08

faz um ano

Quase deixava passar o aniversário desta dieta a pão e vodka! Foi por acaso que pensei "deixa lá ir ver a data do primeiro post". E não é que foi a 25 de Abril?? Um ano inteiro, parece mentira! Coincidência ou não... vou ali soprar uma vela e já volto.

resumo de uma janta de gajas


A emigra do norte aparece à bifa: chinelo no pé e calores imensos. A tarde passada na baixa e no chiado - como manda a praxe - e eu tenho as minhas dúvidas de que não se tenha sentado na Brasileira ao lado do Pessoa a tirar auto-retratos para depois mostrar lá no UK. Desejosa que vem da boa pastelaria portuguesa, parte substancial do tempo é passada a falar de pastéis de Belém, duchaises e bolas de berlim. Podia-lhe dar para pior, é verdade.

Uma das já poucas não-emigras, acha por bem despejar o conteúdo da carteira em cima da mesa e chega-se à conclusão que temos um caso de MacGyverismo entre nós. Algo assustador. Fita-cola, lápis nunca antes vistos tão delgados, chaves para aparafusar móveis, fita-métrica… Não lhe vejo o canivete suíço, mas não tenho dúvidas quanto à sua existência.

A emigra do sul materializa-se muy salerosa, como de costume. O cabelo novo, a boa disposição habitual e uns sapatinhos de salto que embirram com a calçada lisboeta a noite inteira. Vá-se lá entender! Bairro alto acima, bairro alto abaixo, e os sapatos com vida própria, a insistirem fazer nicho dos buracos no chão!

E pronto, ao som dos Gipsy Kings e um bocado abatido, o Júlio lá serve as margueritas. Não sei se é a crise económica, se é coisa de bola, mas o homem parece preocupado. Lá fora uma montanha de gente, porque passa da meia-noite e já é 25 de Abril. Ainda se alcança fogo-de-artifício lá para os lados do Seixal. Tiramos fotografias parvas com os óculos-de-sol gigantes (e fashion, obviamente) da emigra do norte.

No fim a escuteira vem-nos buscar, com a mochila às costas. Como boa alma que é, caridosa, leva-nos no seu carro até às nossas próprias viaturas. Ainda sai do lugar do condutor para me vir abrir a porta de trás! Um mimo.

Para acabar, chego à minha rua e noto a rega do jardim a fazer um repuxo enorme. Vou espreitar. Os mendigos deitam-se nos bancos com caixas de cartão por cima, mas não evitam levar com os salpicos. Um deles levanta-se e ameaça com o punho o aspersor. Sorrio. Ele vira-se para trás e lança-me um olhar sanguinário. Medo! Meto o rabinho entre as pernas e vou para casa.