as escadas do metro quando comecei a ouvir umas pancadinhas regulares logo abaixo de mim. Virei-me para olhar e lá estava um cego. Ao bater com a bengala nos degraus assegurava-se que era preciso continuar a subir. Visto assim não parece difícil. Mas tentei imaginar em que mudaria a minha existência o facto de não conseguir ver. Em primeiro lugar, o mais provável seria não estar a subir aquelas escadas naquele momento, a caminho de uma manhã em frente ao ecrãn de um computador. O que faria nessa manhã - em todas as outras manhãs - se fosse cega? Ficaria em casa? Dormiria até ao meio-dia? Teria alguma ocupação ou nem por isso? São questões a que não consigo responder, por muito que o tente imaginar. De uma coisa, no entanto, fiquei segura: estaria extraordinariamente dependente dos outros. Enquanto crescesse, enquanto me movesse, enquanto quisesse saber mais sobre o mundo... Iria precisar de ajuda. Pouco me estaria tão acessível como se pudesse ver. Não iria guiar um carro. Com dificuldade acenderia uma lareira ou montaria uma tenda para acampar. E a maior parte dos livros ter-me-ia que ser lida, quer por um amigo ou uma gravação.
Olhando à volta para o resto da Natureza percebemos que um indivíduo cego tem fraquíssimas probabilidades de sobrevivência. Não é por mal nem por bem, é só assim. Uma zebra que não veja é a primeira a marchar na cadeia alimentar. Chamam-lhe um figo! Por isso é tão intrigante que os humanos exijam socialmente o cuidado com os outros, em especial se estes forem incapacitados. É preciso gastar energia preciosa para o fazer, mas somos compelidos a fazê-lo. Bem sei que isto parece básico. Quem precisa mais deve ter direito a mais. Mas é básico apenas porque são as regras segundo as quais vivemos, talvez nunca as tenhamos chegado a pôr em causa. Desde quando seremos assim? Desde quando passou a fazer parte de nós este marcado, embora por vezes duvidoso, altruísmo? Actualmente temos um sem-número de associações de apoio, promovemos o voluntariado social, chegamos mesmo a punir quem não ajuda uma pessoa em perigo. Estabelecemos regras morais. Grande parte da população mundial cresce a ouvir como exemplo a história do senhor que deu a vida por nós todos. E porque será? Os insectos têm sociedades, outros mamíferos têm sociedades... Nenhum parece partilhar com os primatas (em especial connosco) a capacidade de sentir empatia. Não me atrevo a dizer que ela é a base - simplesmente porque não me quero esticar - mas que é uma linha bem definida do que significa ser humano, disso não haja dúvidas.
Estando numa de cegueira, acabo com Saramago, uma achega de que gosto:
"Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara."
18/04/08
16/04/08
é a vida que dá um filme?
Os heróis não existem, mas é o que nos imaginamos sempre ser. Incompreendidos, ocultos heróis, cujas minúsculas vidas se revelarão, afinal, num final, importantes. E que final é esse? Simples: é aquele que sabemos vir mesmo antes das letras brancas a rodar no fundo preto. Para lá chegar o herói ultrapassa provações, enfrenta perigos, é trazido à razão pelo melhor amigo, é ignorado ou menosprezado pelo povo em geral e, no tal final, encarna o seu verdadeiro ser - aquele que os outros desconheciam até então, mas passam desde logo a admirar. Tudo termina bem e com grandiosidade.
Na vida real acontece que o final não existe. Daquilo que por vezes parece final logo entendemos que não é estático, que o casal não se abraça eternamente ao pôr-do-sol ou que ao fechar de um livro se segue qualquer outra acção (como levantar-se para o arrumar na prateleira ou ir à casa-de-banho porque a bexiga já dói). Bem dizia a personagem da Meg Ryan no “You’ve Got Mail” que lhe parecia estranho que tanto do que vivia lhe fizesse lembrar histórias lidas algures e não o contrário. Bizarro que fosse a vida a imitar a ficção. Só que num mundo que arrota doses maciças de ficção, como não fazer dela o modelo do universo mental de qualquer um de nós? É que talvez nem seja mau... Só temos que interiorizar que nem sempre seremos a personagem principal.
Na vida real acontece que o final não existe. Daquilo que por vezes parece final logo entendemos que não é estático, que o casal não se abraça eternamente ao pôr-do-sol ou que ao fechar de um livro se segue qualquer outra acção (como levantar-se para o arrumar na prateleira ou ir à casa-de-banho porque a bexiga já dói). Bem dizia a personagem da Meg Ryan no “You’ve Got Mail” que lhe parecia estranho que tanto do que vivia lhe fizesse lembrar histórias lidas algures e não o contrário. Bizarro que fosse a vida a imitar a ficção. Só que num mundo que arrota doses maciças de ficção, como não fazer dela o modelo do universo mental de qualquer um de nós? É que talvez nem seja mau... Só temos que interiorizar que nem sempre seremos a personagem principal.
10/04/08
o raio da carne!
Uma coisa que me irrita sempre é a pergunta “se não comes carne então porque é que comes peixe?”. Quando eu argumento que discordo das condições em que vacas, porcos, galinhas e patos, entre outros, são mantidos na maioria dos locais de criação (ou melhor, “produção”, que é um termo que até me arrepia) há alguém que logo se levanta e atira com a aquacultura. Ora bem, eu entendo o raciocínio. Em ambos os casos os animais são impedidos de ocupar o seu habitat natural e vêem-se confinados e enfardados de antibióticos e alimento artificial. Não está certo. Mas o que não entendo é porque é que me hei-de ver obrigada a dar justificações a cada refeição que partilho com uma nova pessoa. É cansativo. Eu não passo o tempo a pedir às pessoas “explica-me, por favor, porque é que comes carne”. Às vezes acho que devia, mas não o faço. Não lhes espeto com as histórias dos leitões capados sem anestesia - cujos dentes e cauda são também arrancados -, dos frangos a serem escaldados vivos, dos gansos alimentados à força para o fígado dar um bom fois gras ou das porcas inseminadas sempre que possível para terem ninhada atrás de ninhada dentro de um cubículo de um metro quadrado. E da mesma forma que não estrago a refeição a ninguém, gostava que parassem de me chatear. Se sou menos sensível aos peixes, isso é uma questão minha. Posso procurar justificá-lo com a diferente complexidade do sistema nervoso das duas classes, com a minha maior proximidade aos mamíferos (o que deixaria de fora os frangos e os patos, mas talvez seja por isso que tanta gente insiste em convencer-me que “frango não é bem carne”) ou pode ser que o meu paladar tenha, simplesmente, mais dificuldade em renunciar ao prazer de uma dourada grelhada. Não sei. Mas sei que não tenho que ser atacada por, a ver de terceiros, não estar a agir de uma maneira preta ou branca - aquelas duas que consideram aceitáveis.
Quem estiver mais interessado no assunto pode sempre espreitar o site da PETA (aconselho que vejam o video na página princial).
p.s. - Parabéns à SemNexo!!! Qualquer dia está uma senhora! :D
Quem estiver mais interessado no assunto pode sempre espreitar o site da PETA (aconselho que vejam o video na página princial).
p.s. - Parabéns à SemNexo!!! Qualquer dia está uma senhora! :D
03/04/08
El amor en los tiempos del cólera
Fui ver e gostei. Mesmo em filme, o senhor tem pormenores deliciosos.
02/04/08
o BA de outrora
Logo da primeira vez, fizémo-nos ao Bairro Alto. Teria quinze anos, mas dos pouco vividos, dados fundamentalmente às crises existenciais. O Bairro não era para mim mais do que um nome. Uma ideia difusa.
O carro encostou junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara para nos deixar sair. Assim que pisei o asfalto e olhei em volta, percebi que não conhecia a minha própria cidade. A praça borbulhava de gente, os batuques dos djembés elevavam-se no ar e, ao fundo, as luzinhas de Lisboa faziam vezes de moldura. Sentia-se a energia como um estalo na cara.
Estava uma noite quente, cheia de cheiros. “Aqueles ali estão a fumar ganza” sussurrou-me a amiga, forçando um adolescentíssimo ar blazé. Inspirei mais profundamente. Ganza… Esperava qualquer coisa agressiva, mais de acordo com os avisos de pânico que tendiam a acompanhar o tema. Pelo contrário, parecia-me adocicado e nem sequer desagradável. Mas era o ritmo das percussões, isso sim, que unia a montanha de gente que ali se reunia. Uns rodavam fitinhas no ar, praticavam malabarismos amadores, outros ajoelhavam-se em cima dos instrumentos, frenéticos, criando grandes círculos sinfónicos. Pum, pum, pum, pum… Por momentos deixei-me estar, hipnotizada.
Depois atravessámos a rua e penetrámos as ruelas desconhecidas. Espaços apertados, construções em tanto diferentes daquelas a que estava habituada! As pessoas sentavam-se nos passeios e conversavam animadas. Lembro-me claramente das Dr Martens, essas botifarras tão noventa, desfilarem diante dos meus olhos em cores várias. Isso e os eternos All Star - desde que devidamente rotos e emporcalhados. Era a malta do grunge, os fiéis seguidores de Pearl Jam, para quem o Nirvana, mais do que a superação das ilusões desta vida, era o veículo de Cobain para o mundo. Também eu tinha um grande fraco por “Smells like teen spirit” ou “Oceans” e me sentia encaixar nessa onda de neura.

Rua acima, rua abaixo e dei por mim a jogar snooker num sítio com ar tascoso. O cérebro ia registando tudo como se quisesse garantir que não me enganava no protocolo a cumprir nas vezes seguintes: começar a noite num salão de jogos, check!
Depois seguimos os nossos chaperones até um bar com paredes amarelas e espelhos pendurados. Lá fora o fumo, a conversa, os risos. E dentro algum sossego, música ambiente, esse amarelo quente que anos mais tarde acabaria por conseguir espetar na parede do quarto... Tudo novidades a absorver mas, ao mesmo tempo, como que saído de um sonho de infância - quase em câmara lenta.
Foi então que, de volta à rua, de repente, no meio das sombras daquela envolvência estranha e boa, ouvimos um barulho muito forte. Em questão de segundos e sem que nos déssemos conta, metade das pessoas corria rua abaixo e a outra metade, na qual nos incluíamos, agachava-se atrás dos carros. É que na altura ainda o trânsito circulava no Bairro Alto e ao longo das ruas os carros estacionados criavam refúgios de todo o tipo. Não sei bem como, portanto, vi-me escondida atrás de um deles. Espreitei através do vidro e avistei um homem de barba por fazer e camisola de alças à porta de um dos prédios, de pistola em punho. Alguém lhe gritou de longe para se acalmar e o resultado foi mais dois tiros para o ar, bem ao jeito do faroeste. Um autêntico Clint Eastwood. Que aventura! Nunca mais me esqueci dessa noite. Assim que o homem voltou a entrar no prédio a minha amiga puxou-me pela mão e corremos rua abaixo com o coração aos pulos. Então isto é sair à noite!, pensei. Estava um bocadinho longe da verdade, mas nunca me poderia vir a queixar de falta de emoção nessa estreia.
À saída, perto do ponto de encontro onde nos iriam buscar, passámos por um bar que era também uma biblioteca. Que bizarra e maravilhosa ideia! Pelo lado de fora das vidraças vi pela primeira vez esses intelectuais de cabelo seboso, oculinhos redondos e nuvens de fumo por cima da cabeça. A toda a volta estantes com livros que as pessoas iam MESMO buscar para ler. Quando puder decidir sozinha onde quero ir, é aqui que venho! pensei. Mais tarde descobri que nunca se decide verdadeiramente sozinho...
O carro encostou junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara para nos deixar sair. Assim que pisei o asfalto e olhei em volta, percebi que não conhecia a minha própria cidade. A praça borbulhava de gente, os batuques dos djembés elevavam-se no ar e, ao fundo, as luzinhas de Lisboa faziam vezes de moldura. Sentia-se a energia como um estalo na cara.
Estava uma noite quente, cheia de cheiros. “Aqueles ali estão a fumar ganza” sussurrou-me a amiga, forçando um adolescentíssimo ar blazé. Inspirei mais profundamente. Ganza… Esperava qualquer coisa agressiva, mais de acordo com os avisos de pânico que tendiam a acompanhar o tema. Pelo contrário, parecia-me adocicado e nem sequer desagradável. Mas era o ritmo das percussões, isso sim, que unia a montanha de gente que ali se reunia. Uns rodavam fitinhas no ar, praticavam malabarismos amadores, outros ajoelhavam-se em cima dos instrumentos, frenéticos, criando grandes círculos sinfónicos. Pum, pum, pum, pum… Por momentos deixei-me estar, hipnotizada. Depois atravessámos a rua e penetrámos as ruelas desconhecidas. Espaços apertados, construções em tanto diferentes daquelas a que estava habituada! As pessoas sentavam-se nos passeios e conversavam animadas. Lembro-me claramente das Dr Martens, essas botifarras tão noventa, desfilarem diante dos meus olhos em cores várias. Isso e os eternos All Star - desde que devidamente rotos e emporcalhados. Era a malta do grunge, os fiéis seguidores de Pearl Jam, para quem o Nirvana, mais do que a superação das ilusões desta vida, era o veículo de Cobain para o mundo. Também eu tinha um grande fraco por “Smells like teen spirit” ou “Oceans” e me sentia encaixar nessa onda de neura.

Rua acima, rua abaixo e dei por mim a jogar snooker num sítio com ar tascoso. O cérebro ia registando tudo como se quisesse garantir que não me enganava no protocolo a cumprir nas vezes seguintes: começar a noite num salão de jogos, check!
Depois seguimos os nossos chaperones até um bar com paredes amarelas e espelhos pendurados. Lá fora o fumo, a conversa, os risos. E dentro algum sossego, música ambiente, esse amarelo quente que anos mais tarde acabaria por conseguir espetar na parede do quarto... Tudo novidades a absorver mas, ao mesmo tempo, como que saído de um sonho de infância - quase em câmara lenta.
Foi então que, de volta à rua, de repente, no meio das sombras daquela envolvência estranha e boa, ouvimos um barulho muito forte. Em questão de segundos e sem que nos déssemos conta, metade das pessoas corria rua abaixo e a outra metade, na qual nos incluíamos, agachava-se atrás dos carros. É que na altura ainda o trânsito circulava no Bairro Alto e ao longo das ruas os carros estacionados criavam refúgios de todo o tipo. Não sei bem como, portanto, vi-me escondida atrás de um deles. Espreitei através do vidro e avistei um homem de barba por fazer e camisola de alças à porta de um dos prédios, de pistola em punho. Alguém lhe gritou de longe para se acalmar e o resultado foi mais dois tiros para o ar, bem ao jeito do faroeste. Um autêntico Clint Eastwood. Que aventura! Nunca mais me esqueci dessa noite. Assim que o homem voltou a entrar no prédio a minha amiga puxou-me pela mão e corremos rua abaixo com o coração aos pulos. Então isto é sair à noite!, pensei. Estava um bocadinho longe da verdade, mas nunca me poderia vir a queixar de falta de emoção nessa estreia.
À saída, perto do ponto de encontro onde nos iriam buscar, passámos por um bar que era também uma biblioteca. Que bizarra e maravilhosa ideia! Pelo lado de fora das vidraças vi pela primeira vez esses intelectuais de cabelo seboso, oculinhos redondos e nuvens de fumo por cima da cabeça. A toda a volta estantes com livros que as pessoas iam MESMO buscar para ler. Quando puder decidir sozinha onde quero ir, é aqui que venho! pensei. Mais tarde descobri que nunca se decide verdadeiramente sozinho...
09/03/08
já está
Ao fim de algumas tentativas, finalmente consegui comprar o passe do metro. Ao primeiro dia do mês as filas são tenebrosas. Ao segundo não melhoram grande coisa. Ao terceiro lá se atinge o guichet, mas apenas para ficar a saber que na estação em que nos encontramos os cartões demoram dez dias no forno. Se os quisermos pedir com urgência teremos que nos dirigir a outro local, onde almas mais expeditas tratam do assunto de um dia para o outro, mediante o pagamento de dez euros. No acto da entrega arrotam-se mais dezoito euros e meio, que é o valor do passe propriamente dito. Fácil…
Enfim, interessa é que estou a gostar de frequentar o metro. Pena que seja subterrâneo e escuro, mas força a caminhar alguns minutos logo pela manhã, o que me faz sentir melhor do que a entrada directa no carro. Também gosto de olhar os meus companheiros de viagem. A maioria é feia e isso encanta-me particularmente. Percorro quatro estações, para lá e para cá, atenta aos aspectos negativos desses corpos alheios. As assimetrias. As borbulhas. Os dentes tortos e a gordura a mais. Uma imensidão de gente que se cruza comigo diariamente e que não tem nada a ver com as imagens de “normalidade” que trago decalcadas no cérebro. Uma pessoa sente-se melhor num mundo imperfeito.
Enfim, interessa é que estou a gostar de frequentar o metro. Pena que seja subterrâneo e escuro, mas força a caminhar alguns minutos logo pela manhã, o que me faz sentir melhor do que a entrada directa no carro. Também gosto de olhar os meus companheiros de viagem. A maioria é feia e isso encanta-me particularmente. Percorro quatro estações, para lá e para cá, atenta aos aspectos negativos desses corpos alheios. As assimetrias. As borbulhas. Os dentes tortos e a gordura a mais. Uma imensidão de gente que se cruza comigo diariamente e que não tem nada a ver com as imagens de “normalidade” que trago decalcadas no cérebro. Uma pessoa sente-se melhor num mundo imperfeito.
07/03/08
estou em falta quanto ao inquérito
Parece que 55% dos 20 votantes concorda comigo: ser trocad@ por um elemento do outro sexo não custaria tanto. A mulher do Heith Ledger não ficou assim muito contente com a coboiada, diga-se. Mas pronto, também arranjou logo novo gajo. Amigos dizem-me: “por experiência, sei que é a mesma coisa”. Eu como não sei, fico-me pelo acho. E afinal só 4 pessoas entenderam ser pior (talvez por terem menos hipóteses de reconciliação ou reconquista?...) uma situação deste tipo.
Em relação a este assunto, apetece-me ainda comentar o comentário da C.M. O termo traição é o que habitualmente se usa neste contexto. Não sei dizer se será o mais correcto. Talvez uma palavra tão gorda não se devesse aplicar ao que (com razão) chamas a simples de condição de ser humano. Mas sim… está relacionada com a mentira, com o engano. Só que no extremo - lá está - também não sei muito bem onde estabelecer os limites dessa dita mentira. Porque se o afecto é o que mais interessa, saber-se-á precisar o momento em que ele é transferido para outra pessoa? É difícil. E porque é que então se faz do sexo, normalmente, o ponto de honra? É porque as pressões evolutivas são lixadas (ouvem-se os sábios biólogos ao fundo).

A monogamia é uma espécie de contrato entre uma mulher que precisa de recursos e um homem que quer ter a certeza da paternidade. Atenção, isto não é para ler de um modo absoluto. Não me venham cá dizer “eu amo muito o meu marido e não sou uma cabra interesseira”! Acredito que não. Mas se uma associação (teoricamente) monogâmica não trouxesse vantagens às partes, não se tinha mantido ao longo do tempo. Temos que nos colocar nas cavernas por momentos. Somos um grupo social constituído por homens e mulheres e não existe qualquer estrutura familiar. O sexo é com quem mais agrada no momento. E então as fêmeas engravidam e começam a crescer em dificuldades de arranjar comida, que tem de ser apanhada. Se por acaso um dos casais estabeleceu uma ligação emocional, então o homem tenderá a ajudá-la, tanto nessa altura como quando o bébé nascer. Em comparação com as outras, cujas mães estão sozinhas, é provável que esta criança tenha mais probabilidades de sobreviver aos primeiros anos. O sucesso da cria faz com que o comportamento que ela herdou dos pais seja transmitido à geração seguinte. Vantagens evidentes. Mas olhemos para as estratégias do homem e da mulher. Ela só pode ter um filho por ano, o que lhe convém é mesmo que esteja ali um elemento mais forte que dê apoio ao longo do processo. A gravidez é um risco e se se mantiver viva e saudável provavelmente continuará a ter filhos. Mas e o homem? Ao homem interessa também que as suas crias tenham sucesso. Contribui no pré e pós-natal com recursos e apoio. Só que pode ser um esforço em vão, caso o filho não seja seu (quando digo em vão, refiro-me aos genes que não está a transmitir à geração seguinte, não à importância ou legitimidade de educar qualquer criança!). Portanto interessa imenso ao homem estar seguro da fidelidade SEXUAL da sua parceira. Fomos seleccionados assim, tal como os boxeurs para terem o focinho achatado ou os caniches para serem irritantes. E às mulheres o que interessa a fidelidade do companheiro? Interessa-lhes, e muito, que ele não vá desperdiçar os seus recursos com outro gajedo. Não convém muito. E não era coisa fácil, já que o fraco investimento representado por um minúsculo espermatozóide faria com que um homem pudesse ter filhos de variadíssimas mulheres ao mesmo tempo. Mesmo que se dedicasse só a um ou dois, com sorte algum dos outros sairia benzinho e a custo zero! Só que ao relacionar-se com várias fêmeas, podia gostar mais especialmente de alguma e trocar as voltas à primeira. Risco enorme para ela. Pensa-se que é este o motivo pelo qual, ainda hoje em dia, as mulheres são mais permissivas às relações extra-conjugais do parceiro (desde que ele não crie laços emocionais com a outra pessoa)do que os homens. E que, por outro lado, desenvolvam frequentemente ciúmes dos amigos dele, das pessoas a quem ele afectivamente se liga. O que não quer dizer que também elas não tenham relações extra-conjugais. Podia ficar a desenvolver isto eternamente… Vou só acrescentar uma coisinha: é que em dois extremos temos homens que são bons pais (o ideal para constituir família) e homens que têm bons genes (isto é, que são atraentes à generalidade das mulheres). Haverá homens que conseguem ser ambos – e esses são o melhor partido – e outros que não são nem uma coisa nem outra. Mas, no geral, vê-se muito um ou outro. Para as mulheres o cenário ideal é terem um bom pai em casa e darem umas voltas com os bons genes por fora. Ficam com filhos atraentes e bem tratados. Coisa que um homem, no papel de pai, não pode aceitar. E portanto, o melhor é manter as mulheres bem controladinhas. Enfim, isto nunca pára: vantagens de um lado, desvantagens do outro… Evolutivamente a guerra dos sexos é uma realidade.
Não somos, em definitivo, uma espécie monogâmica. Em primeiro lugar teríamos uma monogamia sequencial, já que mudamos de parceiros ao longo da vida. E depois é uma monogamia conveniente na cena social mas que, aqui e ali, resvala. É que pode ser que pegue. :) Também já li que as DST podem ter tido um papel importante a eliminar comportamentos promíscuos. Acredito que seja verdade, talvez num grande mix de variáveis significativas neste modelo. A religião, a religião… Essa. Ainda não a consegui entender de todo.
Em relação a este assunto, apetece-me ainda comentar o comentário da C.M. O termo traição é o que habitualmente se usa neste contexto. Não sei dizer se será o mais correcto. Talvez uma palavra tão gorda não se devesse aplicar ao que (com razão) chamas a simples de condição de ser humano. Mas sim… está relacionada com a mentira, com o engano. Só que no extremo - lá está - também não sei muito bem onde estabelecer os limites dessa dita mentira. Porque se o afecto é o que mais interessa, saber-se-á precisar o momento em que ele é transferido para outra pessoa? É difícil. E porque é que então se faz do sexo, normalmente, o ponto de honra? É porque as pressões evolutivas são lixadas (ouvem-se os sábios biólogos ao fundo).

A monogamia é uma espécie de contrato entre uma mulher que precisa de recursos e um homem que quer ter a certeza da paternidade. Atenção, isto não é para ler de um modo absoluto. Não me venham cá dizer “eu amo muito o meu marido e não sou uma cabra interesseira”! Acredito que não. Mas se uma associação (teoricamente) monogâmica não trouxesse vantagens às partes, não se tinha mantido ao longo do tempo. Temos que nos colocar nas cavernas por momentos. Somos um grupo social constituído por homens e mulheres e não existe qualquer estrutura familiar. O sexo é com quem mais agrada no momento. E então as fêmeas engravidam e começam a crescer em dificuldades de arranjar comida, que tem de ser apanhada. Se por acaso um dos casais estabeleceu uma ligação emocional, então o homem tenderá a ajudá-la, tanto nessa altura como quando o bébé nascer. Em comparação com as outras, cujas mães estão sozinhas, é provável que esta criança tenha mais probabilidades de sobreviver aos primeiros anos. O sucesso da cria faz com que o comportamento que ela herdou dos pais seja transmitido à geração seguinte. Vantagens evidentes. Mas olhemos para as estratégias do homem e da mulher. Ela só pode ter um filho por ano, o que lhe convém é mesmo que esteja ali um elemento mais forte que dê apoio ao longo do processo. A gravidez é um risco e se se mantiver viva e saudável provavelmente continuará a ter filhos. Mas e o homem? Ao homem interessa também que as suas crias tenham sucesso. Contribui no pré e pós-natal com recursos e apoio. Só que pode ser um esforço em vão, caso o filho não seja seu (quando digo em vão, refiro-me aos genes que não está a transmitir à geração seguinte, não à importância ou legitimidade de educar qualquer criança!). Portanto interessa imenso ao homem estar seguro da fidelidade SEXUAL da sua parceira. Fomos seleccionados assim, tal como os boxeurs para terem o focinho achatado ou os caniches para serem irritantes. E às mulheres o que interessa a fidelidade do companheiro? Interessa-lhes, e muito, que ele não vá desperdiçar os seus recursos com outro gajedo. Não convém muito. E não era coisa fácil, já que o fraco investimento representado por um minúsculo espermatozóide faria com que um homem pudesse ter filhos de variadíssimas mulheres ao mesmo tempo. Mesmo que se dedicasse só a um ou dois, com sorte algum dos outros sairia benzinho e a custo zero! Só que ao relacionar-se com várias fêmeas, podia gostar mais especialmente de alguma e trocar as voltas à primeira. Risco enorme para ela. Pensa-se que é este o motivo pelo qual, ainda hoje em dia, as mulheres são mais permissivas às relações extra-conjugais do parceiro (desde que ele não crie laços emocionais com a outra pessoa)do que os homens. E que, por outro lado, desenvolvam frequentemente ciúmes dos amigos dele, das pessoas a quem ele afectivamente se liga. O que não quer dizer que também elas não tenham relações extra-conjugais. Podia ficar a desenvolver isto eternamente… Vou só acrescentar uma coisinha: é que em dois extremos temos homens que são bons pais (o ideal para constituir família) e homens que têm bons genes (isto é, que são atraentes à generalidade das mulheres). Haverá homens que conseguem ser ambos – e esses são o melhor partido – e outros que não são nem uma coisa nem outra. Mas, no geral, vê-se muito um ou outro. Para as mulheres o cenário ideal é terem um bom pai em casa e darem umas voltas com os bons genes por fora. Ficam com filhos atraentes e bem tratados. Coisa que um homem, no papel de pai, não pode aceitar. E portanto, o melhor é manter as mulheres bem controladinhas. Enfim, isto nunca pára: vantagens de um lado, desvantagens do outro… Evolutivamente a guerra dos sexos é uma realidade.
Não somos, em definitivo, uma espécie monogâmica. Em primeiro lugar teríamos uma monogamia sequencial, já que mudamos de parceiros ao longo da vida. E depois é uma monogamia conveniente na cena social mas que, aqui e ali, resvala. É que pode ser que pegue. :) Também já li que as DST podem ter tido um papel importante a eliminar comportamentos promíscuos. Acredito que seja verdade, talvez num grande mix de variáveis significativas neste modelo. A religião, a religião… Essa. Ainda não a consegui entender de todo.
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