10/04/08

o raio da carne!

Uma coisa que me irrita sempre é a pergunta “se não comes carne então porque é que comes peixe?”. Quando eu argumento que discordo das condições em que vacas, porcos, galinhas e patos, entre outros, são mantidos na maioria dos locais de criação (ou melhor, “produção”, que é um termo que até me arrepia) há alguém que logo se levanta e atira com a aquacultura. Ora bem, eu entendo o raciocínio. Em ambos os casos os animais são impedidos de ocupar o seu habitat natural e vêem-se confinados e enfardados de antibióticos e alimento artificial. Não está certo. Mas o que não entendo é porque é que me hei-de ver obrigada a dar justificações a cada refeição que partilho com uma nova pessoa. É cansativo. Eu não passo o tempo a pedir às pessoas “explica-me, por favor, porque é que comes carne”. Às vezes acho que devia, mas não o faço. Não lhes espeto com as histórias dos leitões capados sem anestesia - cujos dentes e cauda são também arrancados -, dos frangos a serem escaldados vivos, dos gansos alimentados à força para o fígado dar um bom fois gras ou das porcas inseminadas sempre que possível para terem ninhada atrás de ninhada dentro de um cubículo de um metro quadrado. E da mesma forma que não estrago a refeição a ninguém, gostava que parassem de me chatear. Se sou menos sensível aos peixes, isso é uma questão minha. Posso procurar justificá-lo com a diferente complexidade do sistema nervoso das duas classes, com a minha maior proximidade aos mamíferos (o que deixaria de fora os frangos e os patos, mas talvez seja por isso que tanta gente insiste em convencer-me que “frango não é bem carne”) ou pode ser que o meu paladar tenha, simplesmente, mais dificuldade em renunciar ao prazer de uma dourada grelhada. Não sei. Mas sei que não tenho que ser atacada por, a ver de terceiros, não estar a agir de uma maneira preta ou branca - aquelas duas que consideram aceitáveis.

Quem estiver mais interessado no assunto pode sempre espreitar o site da PETA (aconselho que vejam o video na página princial).


p.s. - Parabéns à SemNexo!!! Qualquer dia está uma senhora! :D

03/04/08

El amor en los tiempos del cólera

Fui ver e gostei. Mesmo em filme, o senhor tem pormenores deliciosos.

02/04/08

o BA de outrora

Logo da primeira vez, fizémo-nos ao Bairro Alto. Teria quinze anos, mas dos pouco vividos, dados fundamentalmente às crises existenciais. O Bairro não era para mim mais do que um nome. Uma ideia difusa.

O carro encostou junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara para nos deixar sair. Assim que pisei o asfalto e olhei em volta, percebi que não conhecia a minha própria cidade. A praça borbulhava de gente, os batuques dos djembés elevavam-se no ar e, ao fundo, as luzinhas de Lisboa faziam vezes de moldura. Sentia-se a energia como um estalo na cara. Estava uma noite quente, cheia de cheiros. “Aqueles ali estão a fumar ganza” sussurrou-me a amiga, forçando um adolescentíssimo ar blazé. Inspirei mais profundamente. Ganza… Esperava qualquer coisa agressiva, mais de acordo com os avisos de pânico que tendiam a acompanhar o tema. Pelo contrário, parecia-me adocicado e nem sequer desagradável. Mas era o ritmo das percussões, isso sim, que unia a montanha de gente que ali se reunia. Uns rodavam fitinhas no ar, praticavam malabarismos amadores, outros ajoelhavam-se em cima dos instrumentos, frenéticos, criando grandes círculos sinfónicos. Pum, pum, pum, pum… Por momentos deixei-me estar, hipnotizada.

Depois atravessámos a rua e penetrámos as ruelas desconhecidas. Espaços apertados, construções em tanto diferentes daquelas a que estava habituada! As pessoas sentavam-se nos passeios e conversavam animadas. Lembro-me claramente das Dr Martens, essas botifarras tão noventa, desfilarem diante dos meus olhos em cores várias. Isso e os eternos All Star - desde que devidamente rotos e emporcalhados. Era a malta do grunge, os fiéis seguidores de Pearl Jam, para quem o Nirvana, mais do que a superação das ilusões desta vida, era o veículo de Cobain para o mundo. Também eu tinha um grande fraco por “Smells like teen spirit” ou “Oceans” e me sentia encaixar nessa onda de neura.


Rua acima, rua abaixo e dei por mim a jogar snooker num sítio com ar tascoso. O cérebro ia registando tudo como se quisesse garantir que não me enganava no protocolo a cumprir nas vezes seguintes: começar a noite num salão de jogos, check!

Depois seguimos os nossos chaperones até um bar com paredes amarelas e espelhos pendurados. Lá fora o fumo, a conversa, os risos. E dentro algum sossego, música ambiente, esse amarelo quente que anos mais tarde acabaria por conseguir espetar na parede do quarto... Tudo novidades a absorver mas, ao mesmo tempo, como que saído de um sonho de infância - quase em câmara lenta.

Foi então que, de volta à rua, de repente, no meio das sombras daquela envolvência estranha e boa, ouvimos um barulho muito forte. Em questão de segundos e sem que nos déssemos conta, metade das pessoas corria rua abaixo e a outra metade, na qual nos incluíamos, agachava-se atrás dos carros. É que na altura ainda o trânsito circulava no Bairro Alto e ao longo das ruas os carros estacionados criavam refúgios de todo o tipo. Não sei bem como, portanto, vi-me escondida atrás de um deles. Espreitei através do vidro e avistei um homem de barba por fazer e camisola de alças à porta de um dos prédios, de pistola em punho. Alguém lhe gritou de longe para se acalmar e o resultado foi mais dois tiros para o ar, bem ao jeito do faroeste. Um autêntico Clint Eastwood. Que aventura! Nunca mais me esqueci dessa noite. Assim que o homem voltou a entrar no prédio a minha amiga puxou-me pela mão e corremos rua abaixo com o coração aos pulos. Então isto é sair à noite!, pensei. Estava um bocadinho longe da verdade, mas nunca me poderia vir a queixar de falta de emoção nessa estreia.

À saída, perto do ponto de encontro onde nos iriam buscar, passámos por um bar que era também uma biblioteca. Que bizarra e maravilhosa ideia! Pelo lado de fora das vidraças vi pela primeira vez esses intelectuais de cabelo seboso, oculinhos redondos e nuvens de fumo por cima da cabeça. A toda a volta estantes com livros que as pessoas iam MESMO buscar para ler. Quando puder decidir sozinha onde quero ir, é aqui que venho! pensei. Mais tarde descobri que nunca se decide verdadeiramente sozinho...

09/03/08

já está

Ao fim de algumas tentativas, finalmente consegui comprar o passe do metro. Ao primeiro dia do mês as filas são tenebrosas. Ao segundo não melhoram grande coisa. Ao terceiro lá se atinge o guichet, mas apenas para ficar a saber que na estação em que nos encontramos os cartões demoram dez dias no forno. Se os quisermos pedir com urgência teremos que nos dirigir a outro local, onde almas mais expeditas tratam do assunto de um dia para o outro, mediante o pagamento de dez euros. No acto da entrega arrotam-se mais dezoito euros e meio, que é o valor do passe propriamente dito. Fácil…

Enfim, interessa é que estou a gostar de frequentar o metro. Pena que seja subterrâneo e escuro, mas força a caminhar alguns minutos logo pela manhã, o que me faz sentir melhor do que a entrada directa no carro. Também gosto de olhar os meus companheiros de viagem. A maioria é feia e isso encanta-me particularmente. Percorro quatro estações, para lá e para cá, atenta aos aspectos negativos desses corpos alheios. As assimetrias. As borbulhas. Os dentes tortos e a gordura a mais. Uma imensidão de gente que se cruza comigo diariamente e que não tem nada a ver com as imagens de “normalidade” que trago decalcadas no cérebro. Uma pessoa sente-se melhor num mundo imperfeito.

07/03/08

estou em falta quanto ao inquérito

Parece que 55% dos 20 votantes concorda comigo: ser trocad@ por um elemento do outro sexo não custaria tanto. A mulher do Heith Ledger não ficou assim muito contente com a coboiada, diga-se. Mas pronto, também arranjou logo novo gajo. Amigos dizem-me: “por experiência, sei que é a mesma coisa”. Eu como não sei, fico-me pelo acho. E afinal só 4 pessoas entenderam ser pior (talvez por terem menos hipóteses de reconciliação ou reconquista?...) uma situação deste tipo.

Em relação a este assunto, apetece-me ainda comentar o comentário da C.M. O termo traição é o que habitualmente se usa neste contexto. Não sei dizer se será o mais correcto. Talvez uma palavra tão gorda não se devesse aplicar ao que (com razão) chamas a simples de condição de ser humano. Mas sim… está relacionada com a mentira, com o engano. Só que no extremo - lá está - também não sei muito bem onde estabelecer os limites dessa dita mentira. Porque se o afecto é o que mais interessa, saber-se-á precisar o momento em que ele é transferido para outra pessoa? É difícil. E porque é que então se faz do sexo, normalmente, o ponto de honra? É porque as pressões evolutivas são lixadas (ouvem-se os sábios biólogos ao fundo).


A monogamia é uma espécie de contrato entre uma mulher que precisa de recursos e um homem que quer ter a certeza da paternidade. Atenção, isto não é para ler de um modo absoluto. Não me venham cá dizer “eu amo muito o meu marido e não sou uma cabra interesseira”! Acredito que não. Mas se uma associação (teoricamente) monogâmica não trouxesse vantagens às partes, não se tinha mantido ao longo do tempo. Temos que nos colocar nas cavernas por momentos. Somos um grupo social constituído por homens e mulheres e não existe qualquer estrutura familiar. O sexo é com quem mais agrada no momento. E então as fêmeas engravidam e começam a crescer em dificuldades de arranjar comida, que tem de ser apanhada. Se por acaso um dos casais estabeleceu uma ligação emocional, então o homem tenderá a ajudá-la, tanto nessa altura como quando o bébé nascer. Em comparação com as outras, cujas mães estão sozinhas, é provável que esta criança tenha mais probabilidades de sobreviver aos primeiros anos. O sucesso da cria faz com que o comportamento que ela herdou dos pais seja transmitido à geração seguinte. Vantagens evidentes. Mas olhemos para as estratégias do homem e da mulher. Ela só pode ter um filho por ano, o que lhe convém é mesmo que esteja ali um elemento mais forte que dê apoio ao longo do processo. A gravidez é um risco e se se mantiver viva e saudável provavelmente continuará a ter filhos. Mas e o homem? Ao homem interessa também que as suas crias tenham sucesso. Contribui no pré e pós-natal com recursos e apoio. Só que pode ser um esforço em vão, caso o filho não seja seu (quando digo em vão, refiro-me aos genes que não está a transmitir à geração seguinte, não à importância ou legitimidade de educar qualquer criança!). Portanto interessa imenso ao homem estar seguro da fidelidade SEXUAL da sua parceira. Fomos seleccionados assim, tal como os boxeurs para terem o focinho achatado ou os caniches para serem irritantes. E às mulheres o que interessa a fidelidade do companheiro? Interessa-lhes, e muito, que ele não vá desperdiçar os seus recursos com outro gajedo. Não convém muito. E não era coisa fácil, já que o fraco investimento representado por um minúsculo espermatozóide faria com que um homem pudesse ter filhos de variadíssimas mulheres ao mesmo tempo. Mesmo que se dedicasse só a um ou dois, com sorte algum dos outros sairia benzinho e a custo zero! Só que ao relacionar-se com várias fêmeas, podia gostar mais especialmente de alguma e trocar as voltas à primeira. Risco enorme para ela. Pensa-se que é este o motivo pelo qual, ainda hoje em dia, as mulheres são mais permissivas às relações extra-conjugais do parceiro (desde que ele não crie laços emocionais com a outra pessoa)do que os homens. E que, por outro lado, desenvolvam frequentemente ciúmes dos amigos dele, das pessoas a quem ele afectivamente se liga. O que não quer dizer que também elas não tenham relações extra-conjugais. Podia ficar a desenvolver isto eternamente… Vou só acrescentar uma coisinha: é que em dois extremos temos homens que são bons pais (o ideal para constituir família) e homens que têm bons genes (isto é, que são atraentes à generalidade das mulheres). Haverá homens que conseguem ser ambos – e esses são o melhor partido – e outros que não são nem uma coisa nem outra. Mas, no geral, vê-se muito um ou outro. Para as mulheres o cenário ideal é terem um bom pai em casa e darem umas voltas com os bons genes por fora. Ficam com filhos atraentes e bem tratados. Coisa que um homem, no papel de pai, não pode aceitar. E portanto, o melhor é manter as mulheres bem controladinhas. Enfim, isto nunca pára: vantagens de um lado, desvantagens do outro… Evolutivamente a guerra dos sexos é uma realidade.
Não somos, em definitivo, uma espécie monogâmica. Em primeiro lugar teríamos uma monogamia sequencial, já que mudamos de parceiros ao longo da vida. E depois é uma monogamia conveniente na cena social mas que, aqui e ali, resvala. É que pode ser que pegue. :) Também já li que as DST podem ter tido um papel importante a eliminar comportamentos promíscuos. Acredito que seja verdade, talvez num grande mix de variáveis significativas neste modelo. A religião, a religião… Essa. Ainda não a consegui entender de todo.

25/02/08

ontem, no S. Luiz


Mayra Andrade.

5 estrelas.

22/02/08

embrulhar o fio na meada

Vou atrasada já, o trânsito cede à chuva e atrasa-me o percurso até à Baixa. O dia não é dos melhores, a impaciência baila pelos cantos que conhece tão bem à casa, tanto porque passar a manhã em frente ao computador me faz doer as costas como porque os ataques de riso descontrolados de quem não tem culpa de ter catorze anos me impedem de explicar o que devo – no caso, a constituição e função do aparelho genital humano. Vou acelerando quando posso, maldizendo os semáforos que me contrariam e tentando, sinceramente, não atropelar almas inocentes. Revejo o dia que passou, faço o balanço, tento descontrair. Recordo o momento em que a criatura me perguntou, franzindo o sobrolho para o livro e com um ar muito enjoado: “cli... clítoris? ó S. também tenho que saber este?...” Ao que eu respondi que esse era o mais importante de saber, antes de me aperceber que era uma piada que não faria ali outra pessoa rir que não eu. A criatura olhou-me com espanto. O relógio, no entanto, disse-me não haver tempo para mais demoras. Agora, e apesar disso, vou atrasada! Mentalmente faço todo o percurso em antecipação, visualizo todas as ligações possíveis, a ver se chego à rua do Crucifixo a horas. Vou também ansiosa pela novidade. Por sorte, ainda antes de pensar no assunto, cai-me do céu um lugar para estacionar.

Subo as escadas de madeira e espanta-me como são largas. Nunca vi um edifício normal de habitação com um aspecto tão amplo, quatro pessoas subiriam lado a lado os degraus sem problema! Cheira a antigo, não propriamente mal. Não sei explicar porquê mas tudo tem um ar muito resistente e dá vontade de ficar simplesmente a olhar para as paredes.

Toco à porta. De imediato ouço o “clic” do trinco e encontro uma cara sorridente do outro lado. Depois de despir o casaco e deixar a mochila na entrada, à confiança, digo o meu nome ao balcão. O rapaz rabisca o papel que tem à frente, volta a sorrir, diz que está tudo. Dirijo-me para a sala à esquerda. Já começou. Dez cabeças viram-se para me fixar durante uns segundos e três dos seus donos começam a gesticular freneticamente, apontando-me os pés. Fico estática. Situação embaraçosa número um: entrar numa sala cheia de gente silenciosa e fazer com que as atenções se centrem em mim por não estar a cumprir um requisito. Que requisito? Os sapatos - lá acabo por perceber - têm que ficar à porta. Obedeço rapidamente e esgueiro-me depois para o primeiro lugar vago que encontro, com as meias (de bonecos!) a fazer-me deslizar no soalho. Sento-me entalada entre a parede e um amiguito qualquer, o que não me permite descolar os braços do tronco e se torna muito incómodo. A sala cheira a gente. Está calor a mais e não consigo evitar olhar a pilha de sapatos à porta. Já repararam como os sapatos têm muito pior aspecto fora dos pés? Deformados, tristes, os atacadores murchos e os interiores escuros a pedir distância.

O gajo virado para a audiência lá à frente fala suave, pausadamente, para um microfone. Senta-se em posição de lótus sobre um palanque de madeira profusamente decorado com imagens e panos e objectos cujo significado não entendo. A cada duas palavras dá três risadinhas. Tento não me fixar nisso, ouvir o que diz… o que diz ele? Fala dos momentos em que nos irritamos com os outros e no como isso é negativo para nós próprios. Fala sem grande conteúdo, se querem que vos diga. E, depois de uma banalidade qualquer, lá saca de novo da gargalhada arrastada (começo nesse momento a entender a ironia da situação em que me encontro). Gostava de poder explicar o tom com que o senhor fala, fazendo subir sempre a entoação na última sílaba da última palavra de cada frase, como se fizesse um relato futebolístico em câmara lenta. Mas não é fácil. Haveria que estar presente. É milimetricamente sempre igual, tal como se entoasse uma ladainha decorada ao longo de uma vida. O conteúdo perde-se. A impaciência força-me então a mudar de lugar mais para a frente, onde vou aterrar ao lado de um indiano bem mais antigo que eu. Incomoda-me que esteja descalço. Tudo me incomoda naquela sala. O rapaz da recepção entra nessa altura, colocando-se atrás de nós e, imagine-se!, não só respira ruidosamente (e eu pronta a bater em alguém), como ainda se ri também de cinco em cinco segundos, tal como o outro, com gargalhadas de sopro. Aguento, estóica que sou. Vou descontrair e vou sair daqui mais próximo de aceitar os outros! E vai de primeira meditação para “ficarmos todos mais receptivos”. Não corre mal porque é a do costume, embora o efeito não seja grande coisa. O da recepção decide então que tem fome. Enquanto vai lá fora o indiano sai também, deixando vago o lugar ao meu lado. Mesmo ali à mão de semear… Obviamente que o outro volta e despeja-se logo na cadeira a mastigar. A MASTIGAR!! Estou tão fora de mim que já vejo pintinhas verdes por todo o lado. Quanto mais me irrito, mais furiosa fico por estar furiosa e porque estou ali precisamente para aprender a não me irritar com as pessoas. Respiro fundo, cerro os maxilares, faço balançar os pés sem sapatos para trás e para a frente como fazem as crianças. Ele nunca mais acaba de mastigar. Nhac, nhac, nhac, nhac… O que raio será que tanto mastiga? Imagino-o a ir ainda pescar com a língua um pedacinho esquecido por triturar entre os dentes, a fazer um ar regalado e a continuar com orgulho a tarefa deglutidora. Quando é que… ai… já está?... não! Ainda não, só mais uns segundos… Finalmente. Um último nhac e acaba. Posso então tentar ouvir o que diz o senhor das barbas no microfone. Que para começar o ideal é pensarmos no quão gratos devemos estar à nossa mãe que, incrivelmente, nos deu tanto amor. “É realmente fantástico… uma pessoa… modificar a sua vida… os seus hábitos… sacrificar-se… por outro ser” (as reticências são mesmo as pausas após o elevar de tom da última sílaba). Só que eu hoje estou com outra veia activa e desatam a saltar-me ideias evolucionistas à mente. Não é nada fantástico, é que se não fosse assim não estávamos aqui hoje e ponto final. E logo me arrependo. Não S., pára. Agradecida, é para te sentires agradecida agora. Vá, um, dois, três: agradecida. Não? Outra vez: ai que agradecida, agradecida profundamente me sinto!! Não, não parece estar a funcionar. Estou chateada, isso sim, com aquilo tudo, aquelas pessoas que vão na onda e abanam afirmativamente a cabeça. Penso em ir-me embora. Aguento mais um pouco. E então o clímax surge inesperado! “Nós temos muitas vidas… podemos achar que não… podemos dizer que não nos recordamos de outras vidas… mas… também não nos recordamos do que almoçámos ontem… na verdade… não recordamos quase nada…” Já ouviram argumento mais fantástico que este? Eu não me lembro de algum dia ter dado a volta ao mundo, mas deve ter acontecido porque, na verdade, eu não me lembro de quase nada da minha vida! Por um lado quero vir-me embora, por outro ganho curiosidade em saber onde vai dar aquele caminho de sabedoria. E ele acaba aqui: “se todos temos muitas vidas… então todos já fomos mães uns dos outros… e devemos ver… cada pessoa com que nos cruzamos… como nossa mãe… e dedicar-lhe… todo o nosso agradecimento…”

E assim foi que voltei para casa uma hora depois. Impaciente.