Como muitos sabem, eu não como carne. Depois de vinte anos a revolver bolas secas de frango, de porco, de vitela, de pato, nas bochechas, decidi abandonar o hábito. E já não era sem tempo! O engraçado é que marujo que é marujo, marujo do mar, à séria, marujo que iça velas e respeita hierarquias, só gosta de carne. Parece que não é por estar no mar que se come peixe, a não ser que estritamente necessário. Mas, Deusa seja louvada, o facto de ter cinquenta civis a bordo é visto como tal necessidade e os pratos vão variando entre a carne e o peixe.
Assim, parte do ritual do dia-a-dia consistia em ir “lá acima” lembrar aos cozinheiros que, à hora da carne, dessem o jeitinho de não me pôr a engulipar bifinhos sangrentos. Já imaginaram coisa mais sem sentido do que comer bifes no mar? Eu não.
Agora bom bom, foi passar cinco dias a comer atum. Ui! Eu ainda atirava para o ar, assim à maluca “epá, façam-me qualquer coisa tipo uns ovinhos mexidos…” Mas eles, simplesmente, achavam que eu tinha cara de comedora de atum. É válido, sim senhor. Há quem tenha cara de cú, eu já me contento em passar por voraz abridora de latas e atunodependente. Ora vejamos, atum até é algo que aprecio. O problema é, sei lá, atum com batatas fritas! Vão por mim, não é um pitéu muito apetitoso, escusam de ir a correr experimentar em casa.
O marujo de serviço às refeições era o Charréu, alentejano mal-encarado que revirava os olhos mal eu aparecia com cara de “pede o meu atum, sff”. Refilava e suspirava, acho que fazia parte do número, mas era um gajo porreiro. No último dia, o fatídico em que me calhou lavar a loiça com o Cajó, até se apiedou de mim. “Fogo, não acredito que tenho aqui este gajo outra vez, tá bonito tá” foi a primeira exclamação que fez, assim que o viu chegar. E olhem que eu estava bem caladinha no meu canto! Claro que a observação bastou para que me ficasse uma memória muito positiva do senhor Charréu.
Quando havia vagar, lia-se um pouco no convés. Liam os outros camaradas (desculpa mãe, mas no mar diz-se assim, sou obrigada a manter a terminologia ainda que te possa provocar algum arrepio mais patológico), eu teimei em levar apenas artigos sobre a boa mesa dos passeriformes e nem uma vez tive cabeça para lhes lançar os olhos. Ah, mentira, também levei a Outdoor Photographer e até me entreteve uma tarde.
Notei que Don Lerpas era muito apreciador de sua leitura, volta não volta lá estava ele. Outros membros do grupo também se balançavam numa assimilação conjunta de cultura e, por vezes, desenvolviam-se agradáveis sessões de esparramanço ao sol a ler (ou a dormir). Os sacos-cama serviam de almofada, ideia original da Rapariga-Sussurrante que rapidamente se espalhou aos demais. Mais ou menos como a macaca Imo, quando aprendeu a atirar as batatas ao mar para lhes retirar a areia e logo os juvenis a começaram a imitar! As fêmeas são sempre desenrascadas. :)
08/10/07
07/10/07
a quem me entender
Comprimento no eixo dos xx e peso no eixo dos yy. Regressão linear limpinha, p<0.001. Guardar resíduos. Anova aos resíduos... pum pum, pum pum, pum pum (é o coração a bater ansioso)... output... Boa!!! Em Monsanto as penas são significativamente mais densas. Segunda Anova... pum pum, pum pum, pum pum... segundo output... YEAAAHHH!!!!! Os donos dos territórios têm penas mais densas que os floaters!
A vida é bela..... :)))
A vida é bela..... :)))
06/10/07
surpresas
05/10/07
no céu espelhado - II
O dia das casas-de-banho acabou por me passar de raspão. É que melhor que fazer parte de um grupo relativamente igualitário, só mesmo ter por chefe um elemento pleno de actividade e vontade de desentupir retretes! Alá é grande. A Big Boss tomou em mãos esse mal-amado encargo e delegou aos subordinados tarefas mais tragáveis, como a limpeza das cobertas e da messe. Isto, lá está!, porque sou gaja, que os machos tiveram mesmo de lavar o seu próprio chavascal - e divertiram-se à brava com a mangueira, que eu bem vi o Lerpas fazer tiro a qualquer alvo móvel que passasse no corredor...
Mas, antes de mais acrescentar, importa apresentar uma personagem de valor.
Cajó desde cedo se fez notar – pelo menos por mim. Estava-se então no primeiro dia e acabávamos de iniciar a primeiríssima faina de mastros, momento algo atabalhoado devido à falta de prática e de organização. Imagine-se a coisa como um pequeno formigueiro em que as obreiras sabem que têm de trabalhar mas, por qualquer motivo, perderam a química que as organiza. Todas elas buscam algo que fazer e atiram-se às funções vagas criando algum caos. E no meio desse caos imaginem agora uma formiga de panamá enterrado até aos olhos, sandália grossa à turista e meia por baixo (também muito à turista) e câmara de filmar em punho. Imaginem que essa formiga deambulava no meio do atarefanço das outras com passinhos cuidadosos e olhar de espectador, levantando e baixando a câmara. Continuemos o exercício de imaginação: e se, a páginas tantas, ela virar a câmara para a sua própria cara, torcendo também o écran para se poder ver e começar a relatar o que se passa à volta num misto de excitação à David Attenborough e de pasmo de visitante de zoo ante a esperteza dos macacos? “Aqui estamos verdadeiramente DENTRO de uma faina marinha, veja-se a azáfama dos recém-chegados”. Não fosse a superioridade que o nariz empinado lhe exibia, até seria uma personagem engraçada. Mas não. A coisa prometia.
Nessa noite calhou ficarmos no mesmo grupo de quarto à ponte (quer dizer, estávamos de turno na ponte, o sítio onde se orienta a navegação). Éramos umas seis pessoas, Cajó incluído, numa cabine onde o oficial mostrava os aparelhos de GPS e de radar e ensinava a marcar pontos geográficos numa carta. A criatura pairava por ali numa atitude senhorial, cheirava os cantos com soberba como se aquilo que lhe ensinavam fosse óbvio e, às tantas, veio encostar-se a mim enquanto eu marcava os tais pontos, insistindo para que o fizesse de outro modo. Irritadíssimo. “Isso assim é uma parvoíce, demoras muito mais tempo, ora põe aqui o compasso!” E tentava tirar-me o instrumento das mãos à força. Eu decidi lançar-lhe o olhar nº37 de “baza daqui já, não me chateies, faço como eu quiser” e ele amansou um bocado, embora se mantivesse por ali a bufar e a encolher os ombros. Foi a partir daí que o detestei. Umas horas mais tarde viria a sentar-se na cadeira do comandante com toda a lata do Universo, ante o olhar estupefacto de um marinheiro que só lhe perguntava “está confortável aí?”. Ele assentia, não sei se fingindo não perceber a ironia da pergunta, se de facto padecendo de dificuldades de interpretação das expressões faciais. Quando lhe disse que se calhar não era suposto ele ocupar aquela cadeira, perguntou entre o indignado e o apanhado em falha “porque é que não havia de poder??”. E eu abstive-me de comentar mais. Outra meia-hora e viria a alimentar um diálogo tenso com o oficial de turno por causa de uma colega ausente. A senhora em causa retirara-se para a camarata sem avisar alminha e o oficial dizia-nos que no dia seguinte falaria com ela, ao que o Cajó se exaltou (era sua amiga, a tal) e exclamou num repente: “não vai fazer nada porque eu passo-lhe um atestado a dizer que ela estava doente!”. Facilmente se imagina a piada que o oficial não achou ao comentário... Respondeu-lhe, à militar, que ele bem podia escrever que doíam os dentes à senhora (porque era dentista), que isso não a impediria de trabalhar porque não se faz nada com os dentes. Então deu uma travadinha ao Cajó. Encheu o peito, emproou-se e disse: “Nesse caso eu vou para baixo também, faltamos os dois, e eu vou escrever um relatório não-sei-quê sobre isto”. Estando já fora da cabine, estendeu a mão para o inteiror e disse “Eng. Ricardo, boa noite” com o ar mais solene que conseguiu. Mas o oficial não se mexeu, olhou-o com tal estupefacção e dureza que eu pensei ir assistir a uma cena mesmo desagradável. Um segundo, dois segundos, três... Então Cajó, inesperadamente, soltou uma gargalhada ruidosa cheia de exagero. “Estou-me a meter consigo!”. O oficial não se ria e eu continuava a pensar isto vai mesmo acabar mal. Olhávamos todos uns para os outros, a desejar que o bicho desaparecesse de uma vez. Ninguém se riu, mas acabou por desconversar-se e fingir que nada tinha acontecido. A personagem teria que passar a ser ignorada.
Nessa noite dormi quatro horas. Pela manhã a cabeça estava vazia e tudo aquilo que me diziam fazia ricochete. O sol de chapa também não ajudava e o ócio das horas livres sem perspectiva de ocupação acabou por me apontar a direcção evidente: cama. Foi só subir as três etapas e deixar cair a cabeça (que parecia pesar uma tonelada) e, em dois segundos, estava profundamente a dormir. Acordei com um simpático no altifalante “guarnição e instruendos, faina de mastros prevista para as duas horas”. Sim, sim, já vai. Voltei a acordar com a cabecinha da IC19 a espreitar no meio do cortinado: “pssst, há faina de mastros agora”. E eu “vou já”. E acabei por ir, só que passada hora e meia, já tudo bem içado e o pessoal refastelado. :)
Mas, antes de mais acrescentar, importa apresentar uma personagem de valor.
Cajó desde cedo se fez notar – pelo menos por mim. Estava-se então no primeiro dia e acabávamos de iniciar a primeiríssima faina de mastros, momento algo atabalhoado devido à falta de prática e de organização. Imagine-se a coisa como um pequeno formigueiro em que as obreiras sabem que têm de trabalhar mas, por qualquer motivo, perderam a química que as organiza. Todas elas buscam algo que fazer e atiram-se às funções vagas criando algum caos. E no meio desse caos imaginem agora uma formiga de panamá enterrado até aos olhos, sandália grossa à turista e meia por baixo (também muito à turista) e câmara de filmar em punho. Imaginem que essa formiga deambulava no meio do atarefanço das outras com passinhos cuidadosos e olhar de espectador, levantando e baixando a câmara. Continuemos o exercício de imaginação: e se, a páginas tantas, ela virar a câmara para a sua própria cara, torcendo também o écran para se poder ver e começar a relatar o que se passa à volta num misto de excitação à David Attenborough e de pasmo de visitante de zoo ante a esperteza dos macacos? “Aqui estamos verdadeiramente DENTRO de uma faina marinha, veja-se a azáfama dos recém-chegados”. Não fosse a superioridade que o nariz empinado lhe exibia, até seria uma personagem engraçada. Mas não. A coisa prometia.
Nessa noite calhou ficarmos no mesmo grupo de quarto à ponte (quer dizer, estávamos de turno na ponte, o sítio onde se orienta a navegação). Éramos umas seis pessoas, Cajó incluído, numa cabine onde o oficial mostrava os aparelhos de GPS e de radar e ensinava a marcar pontos geográficos numa carta. A criatura pairava por ali numa atitude senhorial, cheirava os cantos com soberba como se aquilo que lhe ensinavam fosse óbvio e, às tantas, veio encostar-se a mim enquanto eu marcava os tais pontos, insistindo para que o fizesse de outro modo. Irritadíssimo. “Isso assim é uma parvoíce, demoras muito mais tempo, ora põe aqui o compasso!” E tentava tirar-me o instrumento das mãos à força. Eu decidi lançar-lhe o olhar nº37 de “baza daqui já, não me chateies, faço como eu quiser” e ele amansou um bocado, embora se mantivesse por ali a bufar e a encolher os ombros. Foi a partir daí que o detestei. Umas horas mais tarde viria a sentar-se na cadeira do comandante com toda a lata do Universo, ante o olhar estupefacto de um marinheiro que só lhe perguntava “está confortável aí?”. Ele assentia, não sei se fingindo não perceber a ironia da pergunta, se de facto padecendo de dificuldades de interpretação das expressões faciais. Quando lhe disse que se calhar não era suposto ele ocupar aquela cadeira, perguntou entre o indignado e o apanhado em falha “porque é que não havia de poder??”. E eu abstive-me de comentar mais. Outra meia-hora e viria a alimentar um diálogo tenso com o oficial de turno por causa de uma colega ausente. A senhora em causa retirara-se para a camarata sem avisar alminha e o oficial dizia-nos que no dia seguinte falaria com ela, ao que o Cajó se exaltou (era sua amiga, a tal) e exclamou num repente: “não vai fazer nada porque eu passo-lhe um atestado a dizer que ela estava doente!”. Facilmente se imagina a piada que o oficial não achou ao comentário... Respondeu-lhe, à militar, que ele bem podia escrever que doíam os dentes à senhora (porque era dentista), que isso não a impediria de trabalhar porque não se faz nada com os dentes. Então deu uma travadinha ao Cajó. Encheu o peito, emproou-se e disse: “Nesse caso eu vou para baixo também, faltamos os dois, e eu vou escrever um relatório não-sei-quê sobre isto”. Estando já fora da cabine, estendeu a mão para o inteiror e disse “Eng. Ricardo, boa noite” com o ar mais solene que conseguiu. Mas o oficial não se mexeu, olhou-o com tal estupefacção e dureza que eu pensei ir assistir a uma cena mesmo desagradável. Um segundo, dois segundos, três... Então Cajó, inesperadamente, soltou uma gargalhada ruidosa cheia de exagero. “Estou-me a meter consigo!”. O oficial não se ria e eu continuava a pensar isto vai mesmo acabar mal. Olhávamos todos uns para os outros, a desejar que o bicho desaparecesse de uma vez. Ninguém se riu, mas acabou por desconversar-se e fingir que nada tinha acontecido. A personagem teria que passar a ser ignorada.
Nessa noite dormi quatro horas. Pela manhã a cabeça estava vazia e tudo aquilo que me diziam fazia ricochete. O sol de chapa também não ajudava e o ócio das horas livres sem perspectiva de ocupação acabou por me apontar a direcção evidente: cama. Foi só subir as três etapas e deixar cair a cabeça (que parecia pesar uma tonelada) e, em dois segundos, estava profundamente a dormir. Acordei com um simpático no altifalante “guarnição e instruendos, faina de mastros prevista para as duas horas”. Sim, sim, já vai. Voltei a acordar com a cabecinha da IC19 a espreitar no meio do cortinado: “pssst, há faina de mastros agora”. E eu “vou já”. E acabei por ir, só que passada hora e meia, já tudo bem içado e o pessoal refastelado. :)
ser ou estar
Não gosto muito de condições. Eu é mais estados. Prefiro dizer que se está do que se é, prefiro considerar a mudança, dar esse justo benefício às coisas e às pessoas. Estou contente, nem sempre o sou. Estou com fome, não sou esfomeada. Os ingleses parecem não sabê-lo, mas assim é. Estou magra, gorda, amável, intratável, sensível, desajeitada, ausente, inquieta... Tantas coisas que se está, que se vai estando ao longo da vida! Felizmente nada é definitivo. Veja-se este bocadinho que roubei ao Alexandre O’Neill, amigalhaço das curvas:
“Os Convencidos da Vida:
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador.”
Estas foram dessas linhas que se lê em perfeito entendimento com o autor. Consigo ver os meus próprios convencidos desfilar na passadeira da imaginação felizes da vida, emproados nas suas vestimentas, moldados sem folga às suas conveniências e vejo-os, depois, acenar à multidão. Vejo-os perguntar sem querer saber e olhar sem querer ver. Já os detestei, já os desprezei, já os achei risíveis. Mas agora, não sei porquê, dão-me pena. Entristece-me o que lhes passa ao lado e, de certo modo, frustra-me não ser capaz de lhes explicar a magia da descoberta do outro. O outro, este aqui ao lado que não é como nós, que traz consigo vivências desconhecidas e nos pode fazer viajar. Este, que é tão maravilhoso ao ponto de se partilhar connosco, de dar! Somos nós os sortudos por receber.
Mas a que propósito vem isto? Primeiro as condições e os estados, depois os convencidos??
Isto a propósito de eu fazer um esforço por não encaixotar as pessoas e procurar alguma humildade nos juízos que faço. Prefiro estados, é verdade. Mas às vezes resvala-me um pé para as condições, sem sequer o notar. Os convencidos são só um exemplo. A moral da história é que todos temos dias maus, talvez semanas, ou mesmo meses. Anos? É possível... Mas, num determinado momento, somos uma bolinha de condições juntas. O convencido de hoje irrita, mas pode ser o abnegado de amanhã. Espero que assim seja.
(a continuação da faina vem já aí...)
“Os Convencidos da Vida:
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador.”
Estas foram dessas linhas que se lê em perfeito entendimento com o autor. Consigo ver os meus próprios convencidos desfilar na passadeira da imaginação felizes da vida, emproados nas suas vestimentas, moldados sem folga às suas conveniências e vejo-os, depois, acenar à multidão. Vejo-os perguntar sem querer saber e olhar sem querer ver. Já os detestei, já os desprezei, já os achei risíveis. Mas agora, não sei porquê, dão-me pena. Entristece-me o que lhes passa ao lado e, de certo modo, frustra-me não ser capaz de lhes explicar a magia da descoberta do outro. O outro, este aqui ao lado que não é como nós, que traz consigo vivências desconhecidas e nos pode fazer viajar. Este, que é tão maravilhoso ao ponto de se partilhar connosco, de dar! Somos nós os sortudos por receber.
Mas a que propósito vem isto? Primeiro as condições e os estados, depois os convencidos??
Isto a propósito de eu fazer um esforço por não encaixotar as pessoas e procurar alguma humildade nos juízos que faço. Prefiro estados, é verdade. Mas às vezes resvala-me um pé para as condições, sem sequer o notar. Os convencidos são só um exemplo. A moral da história é que todos temos dias maus, talvez semanas, ou mesmo meses. Anos? É possível... Mas, num determinado momento, somos uma bolinha de condições juntas. O convencido de hoje irrita, mas pode ser o abnegado de amanhã. Espero que assim seja.
(a continuação da faina vem já aí...)
04/10/07
no céu espelhado - I
Não vou pela poesia do mar para não secarmos todos de tédio. No geral, o que se quer é ler, entender, aceitar e, de preferência, sorrir. Se der para chegar à gargalhada, tanto melhor. Aqueles poucos que gostam de chorar ou, pelo menos, da facadinha gelada no meio do peito, esses, tentem perspectivar o que se segue a uma luz moderadamente sado-masoquista. Resulta sempre, e neste caso até não é difícil.
Os nomes dos companheiros destas fainas marinhas serão transformados, para que depois não me venham com merdas... Conteúdos menos próprios, se os houver, serão também com habilidade convertidos em preciosas metáforas que só os próprios entenderão no seu completo significado. Isto é, se a arte e o engenho mo permitirem. Senão, olha, azarecos! :)

No início faz-se por decorar os termos da marinhagem, bem como se tentam não trocar as patentes dos oficiais, coisa em nada fácil aqui para a distraída (mais tarde ignoram-se essas ignorâncias e remedeia-se dentro do possível).
No início a novidade é estranha, as pessoas são estranhas, todas parecem iguais, homogéneas, saltam aqui e ali algumas excepções, mas mais nada. Os termos são estranhos, os recantos desconhecidos, o espaço não tem propriedade e os marujos olham-nos com desconfiança.
No início a cabeça ainda está em terra, presa a tudo aquilo que ficou por fazer e por dizer, em banho-maria até ao regresso. A apreensão acompanha silenciosa cada movimento.
Mas depois...
Eu confesso: em condições normais, acordar ao som estridente de “ALVORADA, ALVORADA!” às sete da manhã, gritada por um altifalante estrategicamente colocado junto à minha alminha dormente, deixar-me-ia de muito mau humor. Muuuuito mau humor... (existem relatos assustadores daquilo que sou capaz em momentos de insanidade matinal). Mas também já notei que os azeites se me dissipam um pouco quando em comunidade. O que equivale a dizer que tenho vergonha na cara! Portanto, ao longo de cinco dias aturei alvoradas diárias sem mandar um palavrão que fosse. Qual palavrão, nem uma palavrinha! Esparramada no terceiro andar do beliche, abria um olho, sentia movimento lá em baixo no rés-do-chão e, invariavelmente, encontrava a IC19 cheia de speed a vestir as calças. Porque estava na hora do pequeno-almoço, ocasião mais que sagrada para o seu estômago revoltoso. Abria o outro olho e fixava o tecto de contraplacado. Porquê, porquê, porquê? Eram os único vocábulos que me ocorriam. Puxava o saco-cama até cima e escondia a cara para que a luz que se esgueirava por entre as frestas do cortinado individual não continuasse a exigir que me levantasse. Mas depois, à medida que o cérebro ia subindo à superfície (ou seja, que se apercebia de que toda a gente se mexia menos eu), lá perguntava as horas a custo. Sete e um quarto, sete e vinte, nunca menos. Hora de rebolar e tactear com o pé a cama de baixo, apoiar-me e descer do segundo andar para o primeiro e do primeiro para o chão. Trabalhoso. Lá em baixo esperava-me o pequeno caos que se desenrola quando seis pessoas se tentam vestir ao mesmo tempo em dois metros quadrados, com o brinde extra dos gavetões abertos ocuparem um terço do espaço disponível. Havia que pegar depressa no necessário e fugir para a casa-de-banho. Curiosamente, nunca apanhei engarrafamentos lá dentro, não sei porquê. E toda a gente parecia mais ou menos lavadinha, vá-se lá entender!
A essa hora madrugadora não se tem muita fome (excepção feita à camarada IC19, como é óbvio), pelo que o pequeno-almoço de leite, café, bolachas, pão hiper salgado e manteiga me parecia mais que suficiente. Depois, em terminado o repasto, havia que dar lugar ao cliente seguinte sem grandes demoras e entregar a loiça ao desgraçado que estivesse de quarto a lavá-la.
A Boss comandava as hostes do nosso pequeno grupo de dez elementos. Grupinho porreiro no seu grosso, mas lá iremos mais tarde... A primeira obrigação do dia era formar no convés para atribuição das faxinas, com a Boss sempre na frente da fila a controlar a situação. Os marinheiros formavam, por seu turno, à nossa frente e os oficiais rendiam-se com continências e tudo, a engraxar-nos com o pack-marinha completo. Tinha alguma graça, mas eu era mais sono!
Quando o mestre iniciava o seu discurso faxineiro, quase aposto que todos cruzávamos os dedos atrás das costas pedindo em silêncio ao nosso Deus para que não tivesse chegado a vez das casas-de-banho, esse Adamastor da vida a bordo. Eu, pelo menos, pedia ferverosamente, esmifradinha em concentração, com toda a fé que assiste ao bom agnóstico em altura de crise. Mas lá chegou o dia em que a reza não atingiu as altas influências...
(há-de continuar)
Os nomes dos companheiros destas fainas marinhas serão transformados, para que depois não me venham com merdas... Conteúdos menos próprios, se os houver, serão também com habilidade convertidos em preciosas metáforas que só os próprios entenderão no seu completo significado. Isto é, se a arte e o engenho mo permitirem. Senão, olha, azarecos! :)
No início faz-se por decorar os termos da marinhagem, bem como se tentam não trocar as patentes dos oficiais, coisa em nada fácil aqui para a distraída (mais tarde ignoram-se essas ignorâncias e remedeia-se dentro do possível).
No início a novidade é estranha, as pessoas são estranhas, todas parecem iguais, homogéneas, saltam aqui e ali algumas excepções, mas mais nada. Os termos são estranhos, os recantos desconhecidos, o espaço não tem propriedade e os marujos olham-nos com desconfiança.
No início a cabeça ainda está em terra, presa a tudo aquilo que ficou por fazer e por dizer, em banho-maria até ao regresso. A apreensão acompanha silenciosa cada movimento.
Mas depois...
Eu confesso: em condições normais, acordar ao som estridente de “ALVORADA, ALVORADA!” às sete da manhã, gritada por um altifalante estrategicamente colocado junto à minha alminha dormente, deixar-me-ia de muito mau humor. Muuuuito mau humor... (existem relatos assustadores daquilo que sou capaz em momentos de insanidade matinal). Mas também já notei que os azeites se me dissipam um pouco quando em comunidade. O que equivale a dizer que tenho vergonha na cara! Portanto, ao longo de cinco dias aturei alvoradas diárias sem mandar um palavrão que fosse. Qual palavrão, nem uma palavrinha! Esparramada no terceiro andar do beliche, abria um olho, sentia movimento lá em baixo no rés-do-chão e, invariavelmente, encontrava a IC19 cheia de speed a vestir as calças. Porque estava na hora do pequeno-almoço, ocasião mais que sagrada para o seu estômago revoltoso. Abria o outro olho e fixava o tecto de contraplacado. Porquê, porquê, porquê? Eram os único vocábulos que me ocorriam. Puxava o saco-cama até cima e escondia a cara para que a luz que se esgueirava por entre as frestas do cortinado individual não continuasse a exigir que me levantasse. Mas depois, à medida que o cérebro ia subindo à superfície (ou seja, que se apercebia de que toda a gente se mexia menos eu), lá perguntava as horas a custo. Sete e um quarto, sete e vinte, nunca menos. Hora de rebolar e tactear com o pé a cama de baixo, apoiar-me e descer do segundo andar para o primeiro e do primeiro para o chão. Trabalhoso. Lá em baixo esperava-me o pequeno caos que se desenrola quando seis pessoas se tentam vestir ao mesmo tempo em dois metros quadrados, com o brinde extra dos gavetões abertos ocuparem um terço do espaço disponível. Havia que pegar depressa no necessário e fugir para a casa-de-banho. Curiosamente, nunca apanhei engarrafamentos lá dentro, não sei porquê. E toda a gente parecia mais ou menos lavadinha, vá-se lá entender!
A essa hora madrugadora não se tem muita fome (excepção feita à camarada IC19, como é óbvio), pelo que o pequeno-almoço de leite, café, bolachas, pão hiper salgado e manteiga me parecia mais que suficiente. Depois, em terminado o repasto, havia que dar lugar ao cliente seguinte sem grandes demoras e entregar a loiça ao desgraçado que estivesse de quarto a lavá-la.
A Boss comandava as hostes do nosso pequeno grupo de dez elementos. Grupinho porreiro no seu grosso, mas lá iremos mais tarde... A primeira obrigação do dia era formar no convés para atribuição das faxinas, com a Boss sempre na frente da fila a controlar a situação. Os marinheiros formavam, por seu turno, à nossa frente e os oficiais rendiam-se com continências e tudo, a engraxar-nos com o pack-marinha completo. Tinha alguma graça, mas eu era mais sono!
Quando o mestre iniciava o seu discurso faxineiro, quase aposto que todos cruzávamos os dedos atrás das costas pedindo em silêncio ao nosso Deus para que não tivesse chegado a vez das casas-de-banho, esse Adamastor da vida a bordo. Eu, pelo menos, pedia ferverosamente, esmifradinha em concentração, com toda a fé que assiste ao bom agnóstico em altura de crise. Mas lá chegou o dia em que a reza não atingiu as altas influências...
(há-de continuar)
03/10/07
volta à faina!
Comunicado:
Guarnição e instruendos regressaram ao Alfeite no passado dia 2 de Outubro, às dez, zero, zero. Como previsto. I-23 não pôde ainda descansar pois tem que 'despendurar' alguns assuntos pendentes esta semana. Não enjoou a bordo (para tristeza e desilusão certas de alguns leitores) mas, em compensação, desde que pisou terra firme, padece de uma severa embriaguez que nem o sono curou. Tudo insiste em balançar e I-23 controla-se para não se agarrar às paredes. É que daria mau aspecto.
Mais actualizações em breve...
Guarnição e instruendos regressaram ao Alfeite no passado dia 2 de Outubro, às dez, zero, zero. Como previsto. I-23 não pôde ainda descansar pois tem que 'despendurar' alguns assuntos pendentes esta semana. Não enjoou a bordo (para tristeza e desilusão certas de alguns leitores) mas, em compensação, desde que pisou terra firme, padece de uma severa embriaguez que nem o sono curou. Tudo insiste em balançar e I-23 controla-se para não se agarrar às paredes. É que daria mau aspecto.
Mais actualizações em breve...
Subscrever:
Mensagens (Atom)
