24/09/07

é verdade: temos regresso!


Toca a ir ver e levar os putos!
Até 14 de Outubro (de quarta a sábado às 21h e domingo às 17h30)

contornos complicados em coisas mais ou menos simples

Sossega. O mundo abraçou hoje uma luz diferente, mas não recordas já que contornos tomou. Dorme. Não podes? Tens uma vaga sensação de... festa?! Viste pessoas? Muitas. Pessoas coladas às teias da memória, caras estranhamente familiares, pareceram emergir de um poço do tempo e rodopiaram à tua volta uma dança de sorrisos e vozes. São teias tão confusas, essas da memória. Um sonho, seria? Tantas caras, no meio de outras tantas... Não, sonho não. E, de repente, era uma igreja cheia de sol e um casamento e a tua neta, linda!, uma estrela a percorrer a passadeira em lágrimas. Foi isso, não foi? Creio ter sido isso. Sossega. A dureza dos dias não interessa assim tanto. O que é, o que não é, a ditadura desses termos decoramo-la nós e apenas por sentido prático. Bem sabes que a verdade se espalha por baixo, lá onde tudo acaba e não restam camadas para despir. Estás aí agora, não inquietes. Sorri. Sente o sol na cara e a envolvência dessa luz. A luz é tão bonita. Há alguém feliz, aconteceu algo, tu sabes que sim! O que terá sido?

(som à la carte: “Cornflake girl”, Tori Amos – sugestionada por calvinn)

21/09/07

vem lá chuva?

Desta vez foi ao contrário: primeiro veio a chuva e depois o amolador. A flauta de Pan entrou-me a tocar pelo quarto dentro e corri a espreitar à janela. Já não é o mesmo de antes, o amolador. Dantes era um velhote enrugado que empurrava um carrinho meio desengonçado, carregado de uma parafernália impressionante de ferramentas e guarda-chuvas. Já em miúda me explicavam "é para afiar facas e tesouras" e a coisa me parecia estranha. As facas precisavam de ser afiadas? Então não se compravam outras quando as primeiras se estragavam? Pois... Já nasci do lado de cá do consumo, é natural. Mas continuo impressionada. Houve uma época de interregno aqui na rua, deixámos de ouvir a flauta e eu assumi ter morrido o velhote. Pensei que seria o fim do hábito. E agora volta um amolador, mais novo (saí à rua para o espreitar) e que já não traz guarda-chuvas nem ferramentas à vista. Vem numa bicicleta de montanha com uma caixa presa na parte de trás e a roda de esmeril encaixada à frente, entre o assento e o guiador. Na boca a mesma flauta de vários tubos vai marcando o passo, enquanto os olhos se penduram nas portas e janelas dos prédios. À espera. Mas parece que ninguém o chama. Quem é que ainda afia facas?

20/09/07

on small birds and lazy people

Estou há mais de 3 dias para escrever uma introdução. Há mais de 3 dias a colar frases umas às outras, frases roubadas a outros passarólogos (que a ciência é mesmo assim, a repetição infindável, o tédio total, o encaixe ao molde, o assassínio da originalidade!) e estou há mais de 3 dias a tentar fazer algum sentido nessa colagem forçada. Uma breve introdução, que não estou para me chatear. Dez referências, quinze no máximo. Santa paciência! E tudo isto para quê? Vou-vos contar com palavreado de gente...


Há montes de passarinhos que migram durante o inverno. Fazem-no por melhores condições de vida (temperaturas amenas, vegetação abundante, alimento disponível...), como todo o bom emigra! Mas bazar do seu spot original também tem um revés: é que se vão muito longe a viagem pode esgotar-lhes a gordurinha e, para além disso, quando regressarem no verão seguinte para a maluqueira do acasalamento, todos os melhores lugares para fazer ninho já vão estar ocupados. Resultado, nem sempre é muito fácil (para nós) perceber se será mais vantajoso partir ou ficar. “Porque eu só estou bem aonde eu não estou e só quero ir aonde não vou” é uma máxima que se parece aplicar...

Falando especificamente de piscos-de-peito-ruivo, essa querida passarada: eles migram sim senhor, só que migram mais as fêmeas do que os machos! Estes tendem a ficar confortavelmente em casa (Inglaterra, Escandinávia, Europa Central, por aí) e elas, ala que se faz tarde, para a península dos ibéricos e resto das zonas mediterrânicas. Espertas! Sol, praia, caipiroskas, espírito latino, Zezés Camarinhas versão avícola... Mas não só elas, os juvenis de ambos os sexos também são obrigados a vir. Chegam todos cá e o que fazem? Escolhem habitats, claro está, e começam à batatada para definir quem fica com que espaço. Ah e tal, essa pistácia ficou dentro do meu território, toma lá uma bicada no céu da boca e não me apareças mais à frente. Esse género de coisas. Depois do circo armado, alguns conseguem tornar-se don@as e senhor@s do seu hogar e outros, mais franganotes, são obrigados a partilhá-lo porque não se conseguem impôr.

O que eu queria saber:
1 - será que os donos dos territórios são mesmo mais “capazes” do que os que partilham espaços?
2 - os territórios são um recurso escasso? que proporção existe de donos e não-donos?
3 – os animais que escolhem passar o verão na mata em monsanto são fisicamente diferentes dos que decidem apanhar a brisa marítima na arrábida? onde se definem mais territórios individuais? qual será o melhor habitat e porquê?

Isto é +/- uma das partes do trabalho. A outra é, basicamente, perceber o que é que eles gostam mais de comer: querem bicharocos nojentos ou bagas gordinhas e reluzentes?

E assim se foi passando um ano...

Como é que uma coisa que até é simples e que proporcionou tão bons momentos de campo se revela agora um monstro no computador? Serão as quatro paredes que me fazem alergia e sopram uma leve (ou não tão leve) depressão? Não sei. Consola-me que, ao menos, os bichos são muitíssimo fotogénicos!

19/09/07

uma certa estranheza

São onze da noite cá em casa. A. está na sala, pernas estendidas em cima da mesinha e computador no colo. Fazendo coisas. No sofá do lado, Z. apoia também um computador nos joelhos e escreve vagarosamente numa folha digital. Espreito-os do hall, em silêncio, e faço rodar na mão os dois caramelos que fui buscar à cozinha. Percorro o corredor, passo pelo quarto de M. Ela senta-se à mesa, de costas para mim, fixando o seu próprio écrãn luminoso. Papéis espalhados. Das colunas solta-se a Bebe, em tom baixinho para não perturbar. Es que no hay respecto por la tierra que pisamos... La Tierra tiene febre, necesita medicina y un poquito de amor que le cure la penita que tiene... Abro a porta do meu quarto, deito-me na cama, suspiro, e agarro o computador. Lembro-me daquele teste psicotécnico que fiz no nono ano em que me mandavam desenhar a minha família. Sorrio ao lembrar-me que incluí peixes, tartarugas, provavelmente hamsters, tios, primos e avós e, às tantas, estando o desenho já tão povoado acrescentei o sol, as estrelas e a terra toda, numa de loucura. Que parvoíce! pensei no fim, mas entreguei-o assim mesmo. De qualquer modo nada daquilo tinha importância, o teste era uma mera formalidade. Mas agora, e voltando a este serão, quando desligo o computador às duas da manhã com a cabeça a latejar um pouco e os olhos pesados, quando ouço o mesmo passar-se no quarto de M. e o adivinho também a acontecer na divisão mais ao fundo, a que A. e Z. partilham, quando vejo todas essas imagens lado a lado, sincronizadas como se fizessem parte de um filme, assalta-me a sensação de que qualquer coisa se me escapou por entre os dedos.

11/09/07

mudando de assunto:

Em Setembro normalmente sou multada por falta de inspecção no carro. Coisas que acontecem! Volta não volta, lá vem um Setembro e com ele o já conhecido “encoste aí à frente que vai ser autoada”. Já nem tento o choradinho, não tenho pachorra para mais fitas. É que os bófias são irritantes o suficiente com os seus termos técnicos acabadinhos de sair do “manual do agente da autoridade moderno: use os seus 5 neurónios!” e com as letrinhas de quarta classe com que desenham, durante pelo menos trinta minutos, os malditos papéis com duplicado, triplicado, quadriplicado, eu sei lá! Muitas vezes já me obriguei a fazer exercícios de respiração e a imaginar que era um monge (uma monja?) budista no topo de uma montanha. Obriguei-me a sorrir o mais vomitante amarelo que consigo até que, aqui há uns tempos, percebi que até prefiro pagar a multa a ter que entrar em conversação com estas criaturas. Para quê sentir-me absoluta e totalmente estúpida? Não, esta gaja desiste do seu estatuto de gaja no que toca a fazer olhinhos e conversa tonta com a autoridade! Chega.
Ainda não fui multada este ano. Também ainda não fui à inspecção, mas enquanto andar a pé ninguém me pode fazer uma sinalefa para encostar mais à frente. Ando a pé e de metro e no carro da minha mãe e um dia destes até vou à inspecção com o meu boguinhas! Só para eles verem quem é @ boss...

10/09/07

é grave doutor?

A todos aqueles com dificuldades em respirar, tal a agonia: Priscila está já internada em instituição competente. O diagnóstico demorará cerca de uma semana (e o tratamento sabe-se lá!). No cenário mais positivo apenas terão que lhe remover o apêndice 50mm-f1.8 e o resto do organismo estará como novo. No outro cenário, aquele em que prefiro nem pensar, a infecção terá sido espalhada para outros orgãos e Priscila terá que ser submetida a mais intervenções. O apêndice, esse, não parece estar em grandes condições. Basta palpar e logo se sente a deformação. Uma semana de espera, vamos lá ver...