Estou há mais de 3 dias para escrever uma introdução. Há mais de 3 dias a colar frases umas às outras, frases roubadas a outros passarólogos (que a ciência é mesmo assim, a repetição infindável, o tédio total, o encaixe ao molde, o assassínio da originalidade!) e estou há mais de 3 dias a tentar fazer algum sentido nessa colagem forçada. Uma breve introdução, que não estou para me chatear. Dez referências, quinze no máximo. Santa paciência! E tudo isto para quê? Vou-vos contar com palavreado de gente...

Há montes de passarinhos que migram durante o inverno. Fazem-no por melhores condições de vida (temperaturas amenas, vegetação abundante, alimento disponível...), como todo o bom emigra! Mas bazar do seu
spot original também tem um revés: é que se vão muito longe a viagem pode esgotar-lhes a gordurinha e, para além disso, quando regressarem no verão seguinte para a maluqueira do acasalamento, todos os melhores lugares para fazer ninho já vão estar ocupados. Resultado, nem sempre é muito fácil (para nós) perceber se será mais vantajoso partir ou ficar. “Porque eu só estou bem aonde eu não estou e só quero ir aonde não vou” é uma máxima que se parece aplicar...
Falando especificamente de piscos-de-peito-ruivo, essa querida passarada: eles migram sim senhor, só que migram mais as fêmeas do que os machos! Estes tendem a ficar confortavelmente em casa (Inglaterra, Escandinávia, Europa Central, por aí) e elas, ala que se faz tarde, para a península dos ibéricos e resto das zonas mediterrânicas. Espertas! Sol, praia, caipiroskas, espírito latino, Zezés Camarinhas versão avícola... Mas não só elas, os juvenis de ambos os sexos também são obrigados a vir. Chegam todos cá e o que fazem? Escolhem habitats, claro está, e começam à batatada para definir quem fica com que espaço. Ah e tal, essa pistácia ficou dentro do meu território, toma lá uma bicada no céu da boca e não me apareças mais à frente. Esse género de coisas. Depois do circo armado, alguns conseguem tornar-se don@as e senhor@s do seu
hogar e outros, mais franganotes, são obrigados a partilhá-lo porque não se conseguem impôr.
O que eu queria saber:
1 - será que os donos dos territórios são mesmo mais “capazes” do que os que partilham espaços?
2 - os territórios são um recurso escasso? que proporção existe de donos e não-donos?
3 – os animais que escolhem passar o verão na mata em monsanto são fisicamente diferentes dos que decidem apanhar a brisa marítima na arrábida? onde se definem mais territórios individuais? qual será o melhor habitat e porquê?
Isto é +/- uma das partes do trabalho. A outra é, basicamente, perceber o que é que eles gostam mais de comer: querem bicharocos nojentos ou bagas gordinhas e reluzentes?
E assim se foi passando um ano...
Como é que uma coisa que até é simples e que proporcionou tão bons momentos de campo se revela agora um monstro no computador? Serão as quatro paredes que me fazem alergia e sopram uma leve (ou não tão leve) depressão? Não sei. Consola-me que, ao menos, os bichos são muitíssimo fotogénicos!