Priscila, a Preciosa, caiu!!!
Foi só um descuido leve, um momento em que a larguei, arrumadinha dentro da sua bolsa, em cima da mesa, e ela decidiu dar um salto até ao chão. Caiu silenciosa, um quase nada. Ploff! E eu “anda cá marota, não faças asneiras”, sem me dar conta da pequena tragédia que se avizinhava. Quando percebi, por fim, que não focava, não disparava e não me deixava tirar a objectiva (que, por acaso, tem 2 dias!) até me deu uma tontura. Só não larguei a chorar porque a hora de ponta no metro não é o local mais propício a manifestações loucas de desespero.
Agora fiquei de caganeira. Sem dúvida do pânico que me assalta...
P.S. – o post nem sequer leva foto por motivos evidentes: luto fotográfico momentâneo. além do mais a Priscila acompanha-me no perfil
07/09/07
06/09/07
eu vos declaro...
05/09/07
hoje é dia?
DE FESTA!!

Muitos parabéns à nossa sweet sweet Mónica, lusa em terras baixas, que se bate neste momento na mesma guerra sangrenta que moi même: a obtenção do grau de mestre (quem dera que fosse da culinária).
Espero que tenhas um dia super-hiper-mega-ri fixe!!! E, já agora, que me perdoes a veia floribelesca...
Mil beijocas!

Muitos parabéns à nossa sweet sweet Mónica, lusa em terras baixas, que se bate neste momento na mesma guerra sangrenta que moi même: a obtenção do grau de mestre (quem dera que fosse da culinária).
Espero que tenhas um dia super-hiper-mega-ri fixe!!! E, já agora, que me perdoes a veia floribelesca...
Mil beijocas!
04/09/07
mais questões de sexo...
Os Zo’e foram uma das últimas tribos índias a entrar em contacto com o dito homem branco: descobertos em 1975, só em 1989 saíram as primeiras imagens desta pequena população “intacta”. São os tais que se decoram, se é que se pode chamar assim, furando o lábio inferior e enfiando-lhe um cilindro de madeira. Embora nalguns sítios se diga que é um hábito imposto aos rapazes a partir dos dez anos de idade, isso não é verdade. Tanto homens como mulheres exibem o seu canudo no queixo com orgulho.

Aqui há uns dias, enfrentava eu a caixinha do diabo (vulgo televisão) no aconchego do lar quando me deparei com um documentário no canal Odisseia sobre este povo.
A atenção não era máxima, dado que o jantar de pão d’alho acabado de sair do forno, evidentemente, me motivava mais os neurónios do que um grupo de indios nús, de dentes podres, no meio da selva. No entanto, pelo meio dos encantos da manteiga derretida, saltou-me aos olhos uma imagem curiosa. Uma das raparigas índias, que já tinha sido apresentada como mulher de um tal homem, deitava-se agora muito regalada na cama de rede de outro, enquanto o locutor explicava que os dois partilhavam a mesma mulher. Partilhavam! Agucei imediatamente o ouvido para me poder indignar à grande com tão vergonhoso sistema (como é que se pode encarar as mulheres como um bem a partilhar?).
E o senhor passava a explicar: esta mulher de dezassete anos, casada com o primeiro, tinha sido emprestada ao segundo para o ajudar nos trabalhos do campo. É que os dois homens eram amigalhaços do peito. Segundo um dos índios mais velhos, um homem sem mulher é muito pouco, fica preguiçoso sem as obrigações impostas pela família e apenas deambula tristemente. Então o amigo número um, compadecido do amigo número dois, emprestou-lhe a sua própria fêmea. Com o passar do tempo e a interacção diária, a mulher e o amigo número dois acabaram por se apaixonar, levando a que aquilo que era uma situação temporária se transformasse numa “partilha” assumida. Sem pruridos por parte de qualquer um dos três. Impressionante, não?

Uma relação deste tipo, na nossa sociedade actual, podia ser designada como “poliamorosa”. Os poliamorosos são pessoas que defendem que ser poligâmico é tão válido como ser monogâmico e que não deve haver pressão em nenhum dos sentidos. Ouvi uma entrevista do Alvim no seu programa "Prova Oral" a algumas pessoas que praticam este amor livre e desembaraçado e não é que me pareciam bem felizes todos eles? Regra geral mantêm relações a que chamam “primárias” com um ou dois parceiros (é com essa(s) pessoa(s) que normalmente vivem) e, na categoria dos amigos, as coisas às vezes extravazam para o sexo. No big deal, até porque falam com os primários sobre tudo e, pelo que dizem, isso muitas vezes ajuda a sua própria vida sexual. Pergunto-me só como farão para contornar o ciúme...
Há pessoas que vivem assim. Talvez sejam mais do que pensamos.
A sermos totalmente honestos, a monogamia não pode ser dada como um comportamento típico da nossa espécie. Antes, ela é socialmente imposta desde há muito e, como aponta Kinsey (1948) no seu famosíssimo “Sexual behavior in the human male”, ao longo da história, a maior parte das civilizações humanas regulamentou fortemente as relações extraconjugais. Se o fez é porque elas têm alguma tendência a surgir. Digo eu. Neste mesmo estudo, com uma amostra de cerca de 300 indivíduos, Kinsey e os seus colaboradores verificaram que entre 27 e 37 por cento dos homens já tinha sido infiel à sua mulher pelo menos uma vez. Quanto aos números relativos à infidelidade feminina não posso informar porque se trata de um volume separado (era uma época de calhamaços!), que não tenho. Sei, no entanto, que esse tal “Sexual behavior in the human female” caiu que nem uma bomba no seio do moralismo americano do pós-guerra. Aliás, quem viu o filme “Relatório Kinsey” já sabe.

Mas voltando ao busilis... O que me motiva a analisar estas questões é a procura de uma explicação “natural” para aquilo que fazemos. E no “natural” não incluo apenas o fisiológico como também o social que, sem dúvida, tem tanto ou mais peso que o resto! É natural sermos sociais e, como tal, existe em nós um instinto básico de integração e um sentido de comunidade que não há que descartar em situação alguma. Portanto não se decide de ânimo leve “olha, agora vou ser polígama” e está tudo bem. Só que trazer luz ao assunto, fazer comparações, estudar comportamentos, pode ir ajudando a que nasçam novas ideias em novas cabeças. Não é?
Esta semana o Courrier Internacional também decidiu falar de sexo - mais especificamente sobre a relação do sexo com a Igreja. Ainda só li por alto, mas interessou-me a seguinte observação do jornalista Jean-Claude Guillebaud, da revista “La Vie”:
“Nenhum grupo humano se pode perpetuar sem um mínimo de interdições sexuais, por exemplo, a violência sobre crianças, o incesto, a violação, etc. Essa necessidade fundadora não tem essência religiosa, mas antropológica”.
Fez-me pensar que talvez a vantagem de viver em sociedade e partilhar uma conduta de comportamento (que se transmite culturalmente) seja tão poderosa que se sobrepõe aos sistemas que adoptamos em si mesmos. Ou seja, que diferentes sistemas podem ser igualmente vantajosos, consoante o ambiente social em que se vive, tornando assim complicado o estabelecimento de uma regra geral.
Lá no alto dos Himalaias, penso que no Nepal, as mulheres do povo Nyinba casam-se com vários homens. Estes são quase sempre irmãos entre si e ocupam com ela uma casa comum. Quando nasce um filho não se sabe de quem é, mas ninguém se parece importar com isso. E porquê? Em grande parte, provavelmente, porque o modo como somos educados nos molda muito bem as ideias. Mas também porque, arrisco-me a sugerir, se tratam de homens que são irmãos e, logo, mesmo que gastem tempo e energia a tratar de uma criança que não é sua filha, ela é pelo menos sua sobrinha. 25% da informação genética está lá. Para além disso é gente muito pobre que precisa de concentrar na família a pouca riqueza que tem.
Um sistema poligínico (um homem com várias mulheres) é mais frequentemente adoptado em culturas em que os homens têm mais poder e riqueza, como, por exemplo, na islâmica. Também os mormons têm duas mulheres por homem, embora aí se viva tudo condicionado por um pavor escatológico. É que se não o fizerem, o Criador amaldiçoá-los-á para sempre, como fazia com os desgraçados dos medievais!
Para tudo isto me parece interessante olhar sob diferentes perspectivas. Afinal o que é que somos? O que está certo, o que está errado?
Quanto a nós que aqui estamos em frente a um computador, não sei bem para onde vamos, mas sugiro tolerância. Sempre e em todos os sentidos, desde que não nos tratem mal (e mesmo nesses casos podemos, talvez, pensar duas vezes...). É que só nos enriquece.
Fiquem bem! :)

Aqui há uns dias, enfrentava eu a caixinha do diabo (vulgo televisão) no aconchego do lar quando me deparei com um documentário no canal Odisseia sobre este povo.
A atenção não era máxima, dado que o jantar de pão d’alho acabado de sair do forno, evidentemente, me motivava mais os neurónios do que um grupo de indios nús, de dentes podres, no meio da selva. No entanto, pelo meio dos encantos da manteiga derretida, saltou-me aos olhos uma imagem curiosa. Uma das raparigas índias, que já tinha sido apresentada como mulher de um tal homem, deitava-se agora muito regalada na cama de rede de outro, enquanto o locutor explicava que os dois partilhavam a mesma mulher. Partilhavam! Agucei imediatamente o ouvido para me poder indignar à grande com tão vergonhoso sistema (como é que se pode encarar as mulheres como um bem a partilhar?).
E o senhor passava a explicar: esta mulher de dezassete anos, casada com o primeiro, tinha sido emprestada ao segundo para o ajudar nos trabalhos do campo. É que os dois homens eram amigalhaços do peito. Segundo um dos índios mais velhos, um homem sem mulher é muito pouco, fica preguiçoso sem as obrigações impostas pela família e apenas deambula tristemente. Então o amigo número um, compadecido do amigo número dois, emprestou-lhe a sua própria fêmea. Com o passar do tempo e a interacção diária, a mulher e o amigo número dois acabaram por se apaixonar, levando a que aquilo que era uma situação temporária se transformasse numa “partilha” assumida. Sem pruridos por parte de qualquer um dos três. Impressionante, não?

Uma relação deste tipo, na nossa sociedade actual, podia ser designada como “poliamorosa”. Os poliamorosos são pessoas que defendem que ser poligâmico é tão válido como ser monogâmico e que não deve haver pressão em nenhum dos sentidos. Ouvi uma entrevista do Alvim no seu programa "Prova Oral" a algumas pessoas que praticam este amor livre e desembaraçado e não é que me pareciam bem felizes todos eles? Regra geral mantêm relações a que chamam “primárias” com um ou dois parceiros (é com essa(s) pessoa(s) que normalmente vivem) e, na categoria dos amigos, as coisas às vezes extravazam para o sexo. No big deal, até porque falam com os primários sobre tudo e, pelo que dizem, isso muitas vezes ajuda a sua própria vida sexual. Pergunto-me só como farão para contornar o ciúme...
Há pessoas que vivem assim. Talvez sejam mais do que pensamos.
A sermos totalmente honestos, a monogamia não pode ser dada como um comportamento típico da nossa espécie. Antes, ela é socialmente imposta desde há muito e, como aponta Kinsey (1948) no seu famosíssimo “Sexual behavior in the human male”, ao longo da história, a maior parte das civilizações humanas regulamentou fortemente as relações extraconjugais. Se o fez é porque elas têm alguma tendência a surgir. Digo eu. Neste mesmo estudo, com uma amostra de cerca de 300 indivíduos, Kinsey e os seus colaboradores verificaram que entre 27 e 37 por cento dos homens já tinha sido infiel à sua mulher pelo menos uma vez. Quanto aos números relativos à infidelidade feminina não posso informar porque se trata de um volume separado (era uma época de calhamaços!), que não tenho. Sei, no entanto, que esse tal “Sexual behavior in the human female” caiu que nem uma bomba no seio do moralismo americano do pós-guerra. Aliás, quem viu o filme “Relatório Kinsey” já sabe.

Mas voltando ao busilis... O que me motiva a analisar estas questões é a procura de uma explicação “natural” para aquilo que fazemos. E no “natural” não incluo apenas o fisiológico como também o social que, sem dúvida, tem tanto ou mais peso que o resto! É natural sermos sociais e, como tal, existe em nós um instinto básico de integração e um sentido de comunidade que não há que descartar em situação alguma. Portanto não se decide de ânimo leve “olha, agora vou ser polígama” e está tudo bem. Só que trazer luz ao assunto, fazer comparações, estudar comportamentos, pode ir ajudando a que nasçam novas ideias em novas cabeças. Não é?
Esta semana o Courrier Internacional também decidiu falar de sexo - mais especificamente sobre a relação do sexo com a Igreja. Ainda só li por alto, mas interessou-me a seguinte observação do jornalista Jean-Claude Guillebaud, da revista “La Vie”:
“Nenhum grupo humano se pode perpetuar sem um mínimo de interdições sexuais, por exemplo, a violência sobre crianças, o incesto, a violação, etc. Essa necessidade fundadora não tem essência religiosa, mas antropológica”.
Fez-me pensar que talvez a vantagem de viver em sociedade e partilhar uma conduta de comportamento (que se transmite culturalmente) seja tão poderosa que se sobrepõe aos sistemas que adoptamos em si mesmos. Ou seja, que diferentes sistemas podem ser igualmente vantajosos, consoante o ambiente social em que se vive, tornando assim complicado o estabelecimento de uma regra geral.
Lá no alto dos Himalaias, penso que no Nepal, as mulheres do povo Nyinba casam-se com vários homens. Estes são quase sempre irmãos entre si e ocupam com ela uma casa comum. Quando nasce um filho não se sabe de quem é, mas ninguém se parece importar com isso. E porquê? Em grande parte, provavelmente, porque o modo como somos educados nos molda muito bem as ideias. Mas também porque, arrisco-me a sugerir, se tratam de homens que são irmãos e, logo, mesmo que gastem tempo e energia a tratar de uma criança que não é sua filha, ela é pelo menos sua sobrinha. 25% da informação genética está lá. Para além disso é gente muito pobre que precisa de concentrar na família a pouca riqueza que tem.
Um sistema poligínico (um homem com várias mulheres) é mais frequentemente adoptado em culturas em que os homens têm mais poder e riqueza, como, por exemplo, na islâmica. Também os mormons têm duas mulheres por homem, embora aí se viva tudo condicionado por um pavor escatológico. É que se não o fizerem, o Criador amaldiçoá-los-á para sempre, como fazia com os desgraçados dos medievais!
Para tudo isto me parece interessante olhar sob diferentes perspectivas. Afinal o que é que somos? O que está certo, o que está errado?
Quanto a nós que aqui estamos em frente a um computador, não sei bem para onde vamos, mas sugiro tolerância. Sempre e em todos os sentidos, desde que não nos tratem mal (e mesmo nesses casos podemos, talvez, pensar duas vezes...). É que só nos enriquece.
Fiquem bem! :)
29/08/07
a minha vida não dava um filme
Um dia chegou aqui um livro chamado “abre para cá” e, sem sabermos muito bem para quem era, acabou por ficar implícito que seria eu a leitora.
Mas vamos do princípio...
A 11 de Setembro de 2001 já todos sabemos o que aconteceu. As torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque vieram abaixo, bem como parte do Pentágono, e a brincadeira custou cerca de 10 mil vidas. Dito assim parece uma coisa que vem escrita nos livros de História e que decoramos a contra-gosto, com a cabeça apoiada numa mão, tal como fazíamos com os números da segunda guerra mundial.
A 11 de Setembro de 2002, um ano depois, o que aconteceu foi o tal livro.
Nesse dia solarengo a M. foi à praia com o seu mais-que-tudo, montada no mini moke. Para quem não conhece, um mini moke é um carro aberto, pequenino, ao estilo dos buggies com que os brasileiros passeiam os turistas nas dunas nordestinas.
Ao regressar o par à viatura, lá para a tardinha, M. deparou-se com um objecto caído no seu banco e, apesar de não lhe ser propriamente familiar, conseguiu distinguir nas suas formas... um livro! (eheheh, boquinha foleira). Um livrito pequeno de um tal Jacinto Lucas Pires que lhe dera o título “abre para cá” e onde se liam contos, uma dúzia deles. Estranhou e folheou-o. Logo na primeira página, aquela que tantas vezes fica em branco, alguém lhe deixara um recado. Atentado Poético: A quem encontrar este livro, que o saboreie com gosto. É um presente. Em tempo de tristes memórias vamos dar lugar à poesia das leituras.
Foi bonito, não foi? Uma história destas merecia uma revelação no seu desenrolar. E, de facto, até ameaçou um momento de epifania quando a M. mo estendeu e disse podes ler que eu não tenho paciência e eu o fui folheando até à quinta página, logo depois do índice, onde li: para a sara. Flash, momento!
Podia ter sido. Ao ler o livro encontrá-lo-ia carregado de referências metafóricas à minha vida e de mensagens subliminares para a minha pessoa. Seria uma luz que descia, qual espírito santo, a justificar-me a existência e a mostrar o caminho da verdadeira felicidade! Pois era... Mas a verdade é que não gostei nada dele. E não é que seja leitora esquisita (quase tudo o que leio me interessa). Curiosamente é apenas um livro em que fico por fora, à superficie, um livro cujas frases curtas não me permitem entrar na acção e em que não percebo nos contos a moral ou o sentido. Dou-vos um exemplo:
“A luz dos faróis muito forte na curva, uma camioneta desaparece a grande velocidade. No passeio, junto à parede, papéis e bocados de plástico; o homem olha para isto e continua. Da boca sai-lhe ar branco. Entre os prédios, o céu é um rectângulo estreito e escuro, e vão passando árvores e candeeiros e cartazes com caras a sorrir” (J. Lucas Pires).
Não sei... Dá-me a impressão de que o senhor quer despachar e, ao mesmo tempo, descrever tudo. Dêem-me outra perspectiva, se a tiverem.
Confesso que fiquei desiludida pelo facto de os astros, afinal, não se estarem a conjugar só para mim.
Mas vamos do princípio...
A 11 de Setembro de 2001 já todos sabemos o que aconteceu. As torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque vieram abaixo, bem como parte do Pentágono, e a brincadeira custou cerca de 10 mil vidas. Dito assim parece uma coisa que vem escrita nos livros de História e que decoramos a contra-gosto, com a cabeça apoiada numa mão, tal como fazíamos com os números da segunda guerra mundial.
A 11 de Setembro de 2002, um ano depois, o que aconteceu foi o tal livro.
Nesse dia solarengo a M. foi à praia com o seu mais-que-tudo, montada no mini moke. Para quem não conhece, um mini moke é um carro aberto, pequenino, ao estilo dos buggies com que os brasileiros passeiam os turistas nas dunas nordestinas.
Ao regressar o par à viatura, lá para a tardinha, M. deparou-se com um objecto caído no seu banco e, apesar de não lhe ser propriamente familiar, conseguiu distinguir nas suas formas... um livro! (eheheh, boquinha foleira). Um livrito pequeno de um tal Jacinto Lucas Pires que lhe dera o título “abre para cá” e onde se liam contos, uma dúzia deles. Estranhou e folheou-o. Logo na primeira página, aquela que tantas vezes fica em branco, alguém lhe deixara um recado. Atentado Poético: A quem encontrar este livro, que o saboreie com gosto. É um presente. Em tempo de tristes memórias vamos dar lugar à poesia das leituras.
Foi bonito, não foi? Uma história destas merecia uma revelação no seu desenrolar. E, de facto, até ameaçou um momento de epifania quando a M. mo estendeu e disse podes ler que eu não tenho paciência e eu o fui folheando até à quinta página, logo depois do índice, onde li: para a sara. Flash, momento!
Podia ter sido. Ao ler o livro encontrá-lo-ia carregado de referências metafóricas à minha vida e de mensagens subliminares para a minha pessoa. Seria uma luz que descia, qual espírito santo, a justificar-me a existência e a mostrar o caminho da verdadeira felicidade! Pois era... Mas a verdade é que não gostei nada dele. E não é que seja leitora esquisita (quase tudo o que leio me interessa). Curiosamente é apenas um livro em que fico por fora, à superficie, um livro cujas frases curtas não me permitem entrar na acção e em que não percebo nos contos a moral ou o sentido. Dou-vos um exemplo:
“A luz dos faróis muito forte na curva, uma camioneta desaparece a grande velocidade. No passeio, junto à parede, papéis e bocados de plástico; o homem olha para isto e continua. Da boca sai-lhe ar branco. Entre os prédios, o céu é um rectângulo estreito e escuro, e vão passando árvores e candeeiros e cartazes com caras a sorrir” (J. Lucas Pires).
Não sei... Dá-me a impressão de que o senhor quer despachar e, ao mesmo tempo, descrever tudo. Dêem-me outra perspectiva, se a tiverem.
Confesso que fiquei desiludida pelo facto de os astros, afinal, não se estarem a conjugar só para mim.
18/08/07
amostra sem valor (antónio gedeão)
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
Um comentário rápido ao poema do Gedeão. É bom.
Não é verdade que passamos a vida a tentar fazer-nos compreender pelos outros? A estender-nos para fora? A querer à força partilhar uma individualidade que, se prestarmos atenção, simplesmente não vive fora de nós? Pois é. Podemos saber muita coisa, conhecer o mundo de trás para a frente e as ciências pelo verso mas nunca somos capazes de abarcar o todo, de ser para além dos limites da nossa própria pele (a não ser, talvez, pela morte). E, no entanto, somos o centro de onde tudo parte, onde tudo regressa e o único sítio possível para se estar. Não posso deixar de aplaudir o senhor: “Universo sou eu, com nebulosas e tudo”.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
Um comentário rápido ao poema do Gedeão. É bom.
Não é verdade que passamos a vida a tentar fazer-nos compreender pelos outros? A estender-nos para fora? A querer à força partilhar uma individualidade que, se prestarmos atenção, simplesmente não vive fora de nós? Pois é. Podemos saber muita coisa, conhecer o mundo de trás para a frente e as ciências pelo verso mas nunca somos capazes de abarcar o todo, de ser para além dos limites da nossa própria pele (a não ser, talvez, pela morte). E, no entanto, somos o centro de onde tudo parte, onde tudo regressa e o único sítio possível para se estar. Não posso deixar de aplaudir o senhor: “Universo sou eu, com nebulosas e tudo”.
13/08/07
o 1º de agosto
De volta!
Sei que há quem espere as impressões de San Sebatián, mas por enquanto ainda não curei a ressaca da viagem (metafórica, metafórica!). Deixo-vos um texto do início do mês, que não cheguei a "postar" porque estava inacabado na altura:
Já uma vez aqui comentei as memórias duma Fonte da Telha domingueira. A cena dos tachos, dos rádios a pimbalhar a tarde inteira, das criancinhas que guincham e dos pais de tanga – a quem só falta mesmo o palito ao canto da boca - a galar as meninas à beira-mar. Um mimo.
Então, perguntam vocês (com a sagacidade do costume), porquê voltar? Porquê arriscar de novo tamanha calamidade? Não sei bem. Ainda estou por decidir entre o puro azar e um prazer masoquista inconsciente.
A verdade é que estava calor, a carrinha da progenitora estava à porta com a irresistível combinação gasóleo+via verde e a suma inteligência que me dita o comportamento diário decidiu que, passada a hora do cancro, seria relativamente fácil alcançar a costa. Que fosse o sábado do início das férias de Agosto não me fez grande mossa. É que o Universo, supostamente, está sempre do meu lado...
Comecei a ouvi-los ao longe e, à medida que se aproximavam, o som tornava-se cada vez mais distinto. Saí das profundezas do mundo fantástico em que já estava mergulhada havia um bocado (não costumo adormecer na praia, mas nesse dia o ambiente estava favorável), saí, afastei a letargia e pus o ouvido à coca.
- ASSENTA-TE AÍ JÁ, JORGE! – urrou o pai, no que me parecia ser o início de um ataque de fúria.
- DEIXAZEOS IR PÁ ÁGUA CARALHO!! – foi a resposta que se seguiu da mãe, a gritos tais que pensei tratar-se de uma discussão entre marido e mulher trazida já de casa, do carro ou, quiçá, da noite anterior. Só percebi que não era tal quando o Jorge, criança de seus dez anos, contestou também em altos décibeis:
- EPÁ, TU DISSESTES QUE EU PODIA E AGORA DIZES QUE EU NÃO POSSO! PORQUÊ CARALHO??
E o pai o deixou andar.
Ambos os progenitores eram bastante gordos. Ela com um quê de gelatinosa e as pernas a rebentar de varizes. Ele um pote por inteiro, os calções prestes a rasgar. Apesar disso, quando lhes atentei nas caras percebi que eram novos. Muito novos. Quase tão novos como eu. E confesso que, se o resto não fosse já por si suficiente, este factor me deixaria muito impressionada.
A berraria continuou tarde fora. Ora porque iam para a água, ora porque voltavam, ora porque um dos miúdos guinchava à beira-mar, ora porque outro queria comer. Tudo, absolutamente tudo, era motivo para gritos, palavrões e veias inchadas no pescoço. Perguntava-me, para além do mais, se não ficavam cansados com tal actividade. É tão mais trabalhoso gritar do que falar! Se não tivesse visto e me contassem que uma família se exprimia durante três horas seguidas desta maneira, acho que não acreditava.
Às tantas, a pobre da Jessica, que teria uns três ou quatro anos, sentou-se na areia e começou a mexer-lhe e a rebolar-se. A mãe lançou-lhe um olhar sanguinário – que garanto que assustou os meus vinte e cinco aninhos -, aproximou-se em três grandes passadas e levantou-a pelos braços até à toalha mais próxima:
- ALEVANTA PARA CIMA FODA-SE, CHEIA DE AREIA OUTRA VEZ! PORCA. PORCA! TÁS A OUVIR? ÉS UMA PORCA BADALHOCA!
A criança, para meu espanto, parecia não fazer grande caso.
- METE-TE EM CIMA DA TOALHA E ENGOLE A BANANA JÁ! OLHA PARA AQUI SUA ESTÚPIDA, QUERES LEVAR OUTRA VEZ?
Nesse ponto eu estava já hipnotizada. Não conseguia tirar os olhos de cima deles, mas a verdade é que se tinham vindo instalar a três metros da minha toalha. E com tantos gritos era impossível ignorar-se a cena (podia ter-me afastado, como diz a M., mas nunca consigo resistir à quinta dimensão).
No fim da tarde o Jorge começou a espirrar. Grande drama que resultou na seguinte observação da mãe:
- RAIOS PARTA OS ESPIRROS, FOSTE PARA A ÁGUA, VOU-TE PARTIR OS CORNOS!!
E iam dando palmadas a torto e a direito, lá isso iam. Não se diga que ameaçavam em vão, que cão que ladra pelos vistos também pode morder.
(Pergunto-me onde é que se pára. É que não há culpas, aprende-se a ser pai com os próprios pais e estes tão pouco são responsáveis pela capacidade educativa que têm, já que também eles foram sujeitos ao mesmo. Será possível uma pessoa libertar-se destas correntes da infância? Onde é que se pára? Como é que se pára?)
O ex-libris deu-se no momento em que ouvi a mãe gritar, sem qualquer tipo de pudor:
- PEIDA-TE DUMA VEZ ANTES QUE EU TE DÊ UM PONTAPÉ NO OLHO DO CÚ!!
E o pai, o pote deitado na areia com o rabinho bem virado para mim, soltou um sonoríssimo traque.
Todos riram. Muito. Pela primeira vez percebi que partilhavam qualquer coisa entre si, qualquer coisa que talvez eu não alcançasse, mas que estava lá nesse momento de risota. Riam-se da mesma maneira, pelo mesmo motivo, com os mesmos olhos de gozo. Lembrei-me da anedota que o meu pai contava tantas vezes: “- se não têm televisão como é que se divertem à noite? - O pai dá puns e a gente-se ri-se!”.
Afinal é mesmo verdade!
Sei que há quem espere as impressões de San Sebatián, mas por enquanto ainda não curei a ressaca da viagem (metafórica, metafórica!). Deixo-vos um texto do início do mês, que não cheguei a "postar" porque estava inacabado na altura:
Já uma vez aqui comentei as memórias duma Fonte da Telha domingueira. A cena dos tachos, dos rádios a pimbalhar a tarde inteira, das criancinhas que guincham e dos pais de tanga – a quem só falta mesmo o palito ao canto da boca - a galar as meninas à beira-mar. Um mimo.
Então, perguntam vocês (com a sagacidade do costume), porquê voltar? Porquê arriscar de novo tamanha calamidade? Não sei bem. Ainda estou por decidir entre o puro azar e um prazer masoquista inconsciente.
A verdade é que estava calor, a carrinha da progenitora estava à porta com a irresistível combinação gasóleo+via verde e a suma inteligência que me dita o comportamento diário decidiu que, passada a hora do cancro, seria relativamente fácil alcançar a costa. Que fosse o sábado do início das férias de Agosto não me fez grande mossa. É que o Universo, supostamente, está sempre do meu lado...
Comecei a ouvi-los ao longe e, à medida que se aproximavam, o som tornava-se cada vez mais distinto. Saí das profundezas do mundo fantástico em que já estava mergulhada havia um bocado (não costumo adormecer na praia, mas nesse dia o ambiente estava favorável), saí, afastei a letargia e pus o ouvido à coca.
- ASSENTA-TE AÍ JÁ, JORGE! – urrou o pai, no que me parecia ser o início de um ataque de fúria.
- DEIXAZEOS IR PÁ ÁGUA CARALHO!! – foi a resposta que se seguiu da mãe, a gritos tais que pensei tratar-se de uma discussão entre marido e mulher trazida já de casa, do carro ou, quiçá, da noite anterior. Só percebi que não era tal quando o Jorge, criança de seus dez anos, contestou também em altos décibeis:
- EPÁ, TU DISSESTES QUE EU PODIA E AGORA DIZES QUE EU NÃO POSSO! PORQUÊ CARALHO??
E o pai o deixou andar.
Ambos os progenitores eram bastante gordos. Ela com um quê de gelatinosa e as pernas a rebentar de varizes. Ele um pote por inteiro, os calções prestes a rasgar. Apesar disso, quando lhes atentei nas caras percebi que eram novos. Muito novos. Quase tão novos como eu. E confesso que, se o resto não fosse já por si suficiente, este factor me deixaria muito impressionada.
A berraria continuou tarde fora. Ora porque iam para a água, ora porque voltavam, ora porque um dos miúdos guinchava à beira-mar, ora porque outro queria comer. Tudo, absolutamente tudo, era motivo para gritos, palavrões e veias inchadas no pescoço. Perguntava-me, para além do mais, se não ficavam cansados com tal actividade. É tão mais trabalhoso gritar do que falar! Se não tivesse visto e me contassem que uma família se exprimia durante três horas seguidas desta maneira, acho que não acreditava.
Às tantas, a pobre da Jessica, que teria uns três ou quatro anos, sentou-se na areia e começou a mexer-lhe e a rebolar-se. A mãe lançou-lhe um olhar sanguinário – que garanto que assustou os meus vinte e cinco aninhos -, aproximou-se em três grandes passadas e levantou-a pelos braços até à toalha mais próxima:
- ALEVANTA PARA CIMA FODA-SE, CHEIA DE AREIA OUTRA VEZ! PORCA. PORCA! TÁS A OUVIR? ÉS UMA PORCA BADALHOCA!
A criança, para meu espanto, parecia não fazer grande caso.
- METE-TE EM CIMA DA TOALHA E ENGOLE A BANANA JÁ! OLHA PARA AQUI SUA ESTÚPIDA, QUERES LEVAR OUTRA VEZ?
Nesse ponto eu estava já hipnotizada. Não conseguia tirar os olhos de cima deles, mas a verdade é que se tinham vindo instalar a três metros da minha toalha. E com tantos gritos era impossível ignorar-se a cena (podia ter-me afastado, como diz a M., mas nunca consigo resistir à quinta dimensão).
No fim da tarde o Jorge começou a espirrar. Grande drama que resultou na seguinte observação da mãe:
- RAIOS PARTA OS ESPIRROS, FOSTE PARA A ÁGUA, VOU-TE PARTIR OS CORNOS!!
E iam dando palmadas a torto e a direito, lá isso iam. Não se diga que ameaçavam em vão, que cão que ladra pelos vistos também pode morder.
(Pergunto-me onde é que se pára. É que não há culpas, aprende-se a ser pai com os próprios pais e estes tão pouco são responsáveis pela capacidade educativa que têm, já que também eles foram sujeitos ao mesmo. Será possível uma pessoa libertar-se destas correntes da infância? Onde é que se pára? Como é que se pára?)
O ex-libris deu-se no momento em que ouvi a mãe gritar, sem qualquer tipo de pudor:
- PEIDA-TE DUMA VEZ ANTES QUE EU TE DÊ UM PONTAPÉ NO OLHO DO CÚ!!
E o pai, o pote deitado na areia com o rabinho bem virado para mim, soltou um sonoríssimo traque.
Todos riram. Muito. Pela primeira vez percebi que partilhavam qualquer coisa entre si, qualquer coisa que talvez eu não alcançasse, mas que estava lá nesse momento de risota. Riam-se da mesma maneira, pelo mesmo motivo, com os mesmos olhos de gozo. Lembrei-me da anedota que o meu pai contava tantas vezes: “- se não têm televisão como é que se divertem à noite? - O pai dá puns e a gente-se ri-se!”.
Afinal é mesmo verdade!
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