07/08/12

Há coisas sobre o meu avô que apenas o meu tio sabe. Outras que só a minha mãe recorda. E haverá aquelas histórias dele que vivem em mim e em mais ninguém – talvez nem nele próprio. Uma pessoa desmembra-se, assim, em várias. A pessoa não é isso, essas partes desconexas, filtradas, não... Mas são elas as marcas de onde pisou. E, ao contrário do que se possa pensar, o rasto não serve só para identificar uma passagem: ele é também um caminho em si. Um caminho novo, que leva ao outro verdadeiro. Nesse outro, julgo, encontrar-nos-emos todos mais cedo ou mais tarde. E compreenderemos que nada é tão real como a unidade.
Poderemos fazê-lo antes de morrer? Aguentaremos o peso da paz? Brilham os olhos das crianças. Nada tem limites.

17/03/12

(...)

Meter-se dentro de alguma coisa fazendo das palavras recurso é ingrato. Contar de lugares, de cheiros, de olhares e do que se nos mete na pele no momento em que o vivemos deixa não só a certeza da parcialidade das coisas, mas também um pequeno vazio dentro, esse da verdade que acabámos de assassinar. Morta para sempre. O relato é tão falaz como a memória.

13/03/12

ideias de outro lado

Pode viver-se de forma contínua, pode viver-se em fotografias. Um momento aqui, outro ali. Pedaços congelados de realidades incompletas que formam memórias pensadas. A memória profunda é outra, não se pensa. Memória daquilo que somos, do som eterno da vibração própria. Essa é contínua, flui sem cessar, como o sangue que corre e corre e corre...

21/12/09

La leyenda del perro amarillo

Um dos filmes mais bonitos que já vi...

19/08/09

de lá para cá

Viajar. Viajar é um daqueles verbos que enchem qualquer frase em que se vejam metidos. Sai-se do hábito num pico de expectativa e de deslumbramento com os próprios passos, com uma segurança que nasce do medo quase paralisante… Da superação dos medos nasce a euforia que leva depois ao apaziguamento consigo próprio, ao entendimento profundo de que somos uma entidade perfeita em que nada falha. Nada, nunca, falha. Tudo é.

Se soubéssemos aquilo que cada viagem nos reserva, não seria uma viagem. Na verdade, chegar onde quer que seja não tem o mesmo impacte do que se sente até lá. Mas a meta tem importância porque sem ela não se começaria nada, sem ela o primeiro passo não seria dado ou, pelo menos, o segundo não manteria o rumo. Este é o encanto dos objectivos: promovem a acção.

Um amigo emprestou-me um livro, chama-se “mood of future joys” e relata na primeira pessoa uma volta ao mundo de quatro anos em bicicleta. Por alguém que saiu de Inglaterra lavado em lágrimas, querendo voltar para trás a cada segundo. Então por que o terá feito? Por que não cedeu ao instinto de dar meia volta, fazer soar a campainha da bicicleta no quintal dos pais, gritar aos amigos que ali ficava, encontrar de novo os braços da namorada?... É difícil de explicar, nem o próprio consegue.

Superar medos é crescer, é ir mais além. Quase todos queremos a segurança, em diferentes graus e de diferentes maneiras, mas poucos são os sábios que procuram desafiar-se constantemente. Dá trabalho. Mas como tudo o que é trabalhoso, tem retorno. Stanislavski dizia aos seus alunos que a cada dia deviam fazer uma coisa que lhes metesse medo, ainda que ao fim de um tempo pudessem começar ficar sem ideias. Ainda que se dedicassem a medos pequenos, coisas tontas. Penso que a ideia fosse progredir todos os dias um pouco mais no sentido de chegar ao interior de cada um. Porque, se pensarmos bem, os medos vão-nos sendo acoplados a partir do ambiente. Quando nascemos não tememos nada, existimos em estado puro e absoluto. E voltar aí é, sem dúvida, a verdadeira meta. No fim, tudo acaba como começou. O que fizemos entretanto? A quem andámos a enganar senão a nós mesmos?

09/08/09

being back

Abro uma página na internet e leio um link associado que diz “Fotoadrenalina de 17 dias na Índia e no Nepal”. Logo me ponho a pensar nos meus novos colegas de trabalho, nove almas do Bangladesh, uma da Índia. Adrenalina é tudo menos o que transmitem as suas caras serenas e sorridentes. Pelo menos ao fim da noite, quando nos sentamos todos a contar gorjetas… No pico do stress nocturno do restaurante, lá para as dez horas, há um claro lapso comunicacional entre a cozinha e a sala: cá fora os grunhidos são em português, lá dentro viaja-se de repente para oriente e a verdade é que se não cheira a caril, quase parece que sim. De Sara, passo logo a Zhala (ou “minina” para quando a língua quer ser mais rápida que o cérebro) e muitas vezes a melhor opção é saltar directamente para o inglês que, em conjunto com alguma mímica, lá vai facilitando a coisa. Bottle, water, large! tem resultados muito mais eficazes do que passa-me uma água de litro se fazes favor. Ainda por cima traz à situação uns laivos de filme cómico.

É divertido trabalhar num restaurante. Uns gritam só porque sim. Outros também. Há ainda quem julgue que aquilo é a tropa e que a posição que lhe coube foi a de general. O truque é ter muita calma: com os clientes, com os chefes, com os colegas. E manter presente que estar ali é como saltar de dimensão, entrar num jogo em que cada pessoa tem determinado papel. É preciso concentrar-se para saltar por cima dos fossos e atravessar as areias movediças, conseguir apanhar todas as moedinhas possíveis, de passagem combater o dragão com a espada que se encontrou no túnel secreto e, se possível, cheirar ainda as flores pelo caminho (isto só para os mais audazes). Ao fim da noite estamos cansados – pela concentração e pelo movimento, pela dança que tem que ser fluida – mas não nos dói os olhos, nem a cabeça nem as costas. Vimos muitas caras, falámos com muita gente, sorrimos muitas vezes. Eu sorrio sempre com sinceridade e isso faz-me sentir bem.

07/03/09

vontades

A textura das situações, como se fossem coisas, a textura de um sorriso, tal como do tampo de uma mesa ou da frieza de um copo, era, de facto, o que eu gostava de escrever.

13/12/08

Estou em vias...

...de acabar de ler “The God Delusion”, de Richard Dawkins, e dá-me vontade de o recomendar a todos. Não só os que procuram entender uma data de coisas, mas também os que julgam ter o assunto arrumado. O livro explora os eventuais motivos para tendência humana para a crença, as consequências que isso teve ao longo da história, e o pouco sentido que faz alimentar rivalidades ilusórias. Enfim, é a minha leitura. Fá-lo de um modo extensivo, crítico e – o melhor – sem pôr paninhos quentes.

Vou ali num instante deitar-me na cama de rede e acabar de ler. :)

Deixo só uma citação (que encontrei no livro) do comediante norte-americano George Carlin, que me fez rir:

Religion has actually convinced people that there’s an invisible man – living in the sky – who watches everything you do, every minute of every day. And the invisible man has a special list of ten things he does not want you to do. And if you do any of these ten things, he has a special place, full of fire and smoke and burning and torture and anguish, where he will send you to live and suffer and burn and choke and scream and cry forever and ever ‘til the end of time… But He loves you!

18/11/08

acho que vou voltando

Aos Domingos a cidade parecia saída de um sonho.

[Nos sonhos deambula-se muitas vezes sozinho, encaram-se portas fechadas em largas ruas de asfalto coberto por pó alaranjado. Anda-se meio anestesiado pela simples quietude do mundo.]

O vento quente levantava-lhe os cabelos, como antes imaginara. Antes. Antes de estar ali, nessa cidade aos Domingos fantasma.

Mas, descendo a rua, metia-se outra vez em Moscovo, no apartamento que se encaixotava num subúrbio, na rigidez dos olhares que se lhe cruzavam e no vestido azul da protagonista. É que, às vezes, os livros não nos largam.

E então tinha que parar e deixar passar um carro ocasional, dado que na cidade fantasma as passadeiras tinham apenas função decorativa. Deixava-o passar: uma carrinha negra grande, acelerando os vidros fumados alcatrão abaixo; coelhinho da playboy colado na traseira.

Para chegar onde ia, o único café aberto em dia de descanso, desceria ainda dois quarteirões mais. Cruzaria três hippies sentados num degrau, expondo os seus artesanatos. Topá-los-ia à distância, as rastas de um, os óculos redondos do outro (protegendo do sol num dia cinzento), a preguiça dos dois, e os olhos da rapariga a estudá-la, de cima abaixo, em busca de referência. “Do you want to see our art?” decidido que ficava, como apropriado, o modo de abordagem. Uns breves segundos atentos no livro que levava na mão bastariam. Mas que não, gracias.

Chegada à esquina encontraria um altifalante virado para a rua, pregado na parede, deitando para a rua a música que se fazia ouvir no café. “Um chamariz”, pensaria. “Um chamariz de turistas, pensam eles”. Êxitos internacionais em versão chill out por vozes de cama. Plumas nos canteiros à porta. E uma selecção gourmet de chocolates e bombons lá dentro, para além de grande poltronas entre o ferro e o salmão, iluminadas por focos impecáveis. Algo caído de um outro hemisfério a que, quando calhava, acabava por recorrer.

Faria sentido pensar em Moscovo? Em macacos que têm medo a colibris? Em saltos quânticos de objectos perdidos na selva? Faria sentido que uma pessoa levasse sempre mosquitos consigo, onde quer que fosse? E que uma dupla face pudesse ter filhos sem antes escolher quem é?

Sentar-se-ia então lendo Dawkins negar a existência de Deus. Não entenderia por que raio seria ainda necessário fazê-lo. Tudo o mais parecia bastar.

06/10/08

flutuando

Já não escrevo para mim. O tempo vai passando e as teclas batem para outros, alheios que são (e porquê?), forasteiros em meus meandros. Olhos de fora (e porquê?). O que sobeja de mim nestas linhas não faz jus ao agora. Este momento de hoje. Recordo, a propósito de nada, uma igrejinha em Megéve, em noite fria e com cheiro a lume. Todos cantavam, apeteceu-me ficar dentro. Talvez pela primeira vez. Recordo a tarde no pão-com-chouriço em Mafra. A água a pingar do céu cinzento, a subir-nos pelas calças compridas demais – arrastando –, a desagradar. A falta de abrigo para comer e as mãos geladas a retirar o chouriço do pão. Outras mãos geladas dizendo “eu quero!”. Recordo coisas de que já nem me lembro (mas afinal porquê?).

11/09/08

as minhas desculpas...

a quem vem aqui e nao foi avisado. Mudei de residência física e resolvi ser uma boa opcao mudar também a residencia virtual. Estou agora, e pelos proximos meses, em: www.diasnafloresta.blogspot.com
Nao digo que nao continuarei a deixar aqui qualquer coisa de vez em quando. Mas ficara esta como casa de fim-de-semana.
Como estou em terra de habla castellana: saludos a todos!

17/08/08

cheira bem?

Já tentaram definir um cheiro? É complicado, não é? Quando toca a odores, parece que temos poucos adjectivos à disposição. Nada comparável com o que se passa com a visão. O costume é acabarmos por recorrer a cheiros já conhecidos e dizer que é mais ou menos como isto ou aquilo. Ou, num atrevimento de imaginação, misturar essas memórias odoríferas, e tentar, pelo menos, uma maior aproximação ao real.

Ontem dizia eu à minha avó:

- Têm que ir conhecer os Açores porque vale a pena, lava os olhos e enche a alma! E além disso há aquele cheirinho…

- Ai sim? Cheira a quê? – perguntou-me logo, como se quisesse imaginar tudo ao pormenor para formar um quadro mental perfeito.

E eu hesitei. Como é que se define um cheiro outra vez?

- Bem, a mim cheira a fresco, a humidade fresca (notem a redundância) e a verde (o cheiro de uma cor, portanto!).

Não fiquei muito convencida comigo própria… Ela levantou os olhos para procurar, por momentos, esse horizonte açoriano. Voltou a querer saber:

- É como a relva cortada?

- Não é bem isso. Cheira a plantas sim, mas é mais doce (tentei). E cheira a mar também. Mistura-se tudo nessa humidade que está em todo o lado.

- Ah… - aceitou, pensativa - Olha, uma coisa de que tenho muitas saudades é o cheiro de Luanda! Não era bom António?

O meu avô estava com a atenção na televisão.

- António, estás a ouvir? – insistiu ela.

- O quê, o quê? Os alemães o quê? – respondeu de repente (e a eterna piada do alemão que ainda não cheguei a perceber).

- Se te lembras do cheiro de Luanda?

- Ah, lembro. Mas olha que não era grande coisa… Cheirava a farinha quente.

Cheirava-lhe a farinha quente!

E com esta, I rest my case.

.............................

08/08/08

Anita burricando

Repeti este ano uma experiência de há dois anos. Quatro dias em terras de Miranda, debaixo de um sol abrasador, em companhia de burros, gaiteiros, gentes de fora e locais dispostos a receber. O passeio é co-organizado pelo grupo de música tradicional Galandum Galundaina e pela AEPGA (Associação para ao Estudo e Protecção do Gado Asinino) que, como o nome indica, se dedica a não deixar morrer esse património genético que é o dos burros de Miranda e que, por tal boa causa, vai promovendo a animação no planalto mirandês.

À chegada a Miranda do Douro, pela noite da véspera, é altura de inscrições e põem-se logo os gaiteiros a tocar. Para quem vai pela primeira vez e não está habituado ao som das gaitas e a ter os músicos (determinados) sempre ao lado, dá logo uma certa emoção. Vai-se ficando por ali, os roncos a ecoar, a cerveja a ser servida para os canecos, soltam-se “olá, tudo bem?” a caras conhecidas, uns e outros mais afoitos encetam bailaricos, a noite está morna, tudo vai bem.

No primeiro dia de real burriquice deslocam-se as boas almas para uma das aldeias e ocupa-se o tempo com workshops de dança, de pauliteiros, de língua mirandesa, de maneio de burros ou de gaitas e precursão - é à escolha do freguês. Alguns metem-se logo na tasca mais próxima (não vou dizer quem, que o barbudo ainda me vem acusar de queixinhas!). Os dias seguintes são já para se passar em caminhada. Cada grupo acompanha um burrico e, quem quer, vai alternando para montar. O olhar, esse, vai-se perdendo nas searas, nos lameiros delimitados por toscos muros de pedra, no feno enrolado em cilindros, nesses campos amarelos pintalgados de carrascos e pedras, e reserva-se na memória – não tenho dúvida – o contraste magnífico das cores mirandesas. Claro que há pó. Um imenso calor. Pernas que, às tantas, precisam de ir em piloto automático para se moverem. Há cansaço, sede, burras teimosas e gaitas que, inexplicavelmente(!!) dentro dos tímpanos, às vezes apelam ao silêncio. Mas a experiência vale essa pena. Até caminhar atrás de um burro a quem dá um súbito ataque de diarreia é coisa que se vê compensada pelos sítios, as vistas, os ares e as gentes.

O que me espanta, ao voltar de locais como este, é a fraca ligação que pessoas como eu têm à sua terra. Ao seu lugar. Dá a sensação, depois de conhecer gente rural, que flutuo com suavidade por cima do solo, sem nunca lhe tocar, sem nunca ele me agredir, nem tão pouco me oferecer o que seja. Não o conheço. Para ele sou invisível. É verdade, para uma Lisboa sou absolutamente invisível! Não consigo sequer deixar uma pegada - dada a calçada e o alcatrão a perder de vista. E é normal que assim seja, estou rodeada por um milhão de lisboetas igualmente invisíveis. Parece que da cidade só tiro, só percorro, só aproveito miradouros, cinemas, cafés, bares… E nada dou. Por estranho que pareça, quem não dá sente-se vazio.

Mas voltando à burricada! É revigorante conhecer um grupo de gente nova que se preocupa em manter viva a sua cultura. Por banal que isto soe, é verdade. Como prova disso, somos acompanhados por várias crianças locais que também tocam os bombos, as gaitas e as pandeiretas que nem gente grande – para além de controlarem os burros, coisa que nós não conseguimos, de todo, fazer. Arre, arre burrica, em frente! [e a gaja decide comer umas ervas apetitosas mesmo ali ao lado]. Wow, wow, devagarinho… [e ela arranca desembestada, dando encontrões a torto e a direito, porque a outra burra, que é a sua maior amiga, vai lá para a frente]. Seguimos assim, de aldeia em aldeia, falamos com os antigos, levamos a confusão e a festa e parece-me que a maior parte deles gosta. Alguns burriqueiros vão armando tendas e dormindo nos locais de paragem, outros, depois do arraial, metem-se na camioneta que os leva de volta ao parque de campismo (no meu caso foi mais a kangoo da SemNexo, feita T0).

No dia seguinte era mais do mesmo. No total palmilhámos o percurso: Constantim – Póvoa – Malhadas – Pena Branca – Miranda do Douro. Não faço ideia da distância. Só sei que, mais uma vez, foi uma curtição.

Obrigada à companhia!












31/07/08

e finalmente foi Verão!

Quando eu era miúda, na praia, as avionetas passavam por cima do areal e deixavam cair brindes. T-shirts, bonés ou bolas de praia insufláveis, a questão é que caíam do céu e toda a gente corria para os apanhar. Tudo bem – concedo – pode ter acontecido uma única vez. É possível que a emoção tenha sido tal, que a memória tenha extravasado ligeiramente… Quem pode garantir o contrário? Mas lá que me lembro, ora essa, se me lembro! Havia coisas sobre o Verão que não se viriam a esquecer. O genérico da série “Marés vivas” (e as cenas de afogamento repetidas ao pormenor quando íamos à barragem). A voz do Eládio Clímaco a apresentar os Jogos sem Fronteiras. A excitação só proporcionada pela venda de rifas da feira da Achada e toda a tralha que de lá trazíamos. O incansável bolo “meia-lua” empurrado a Tang no aniversário da M. O cheiro a gasolina no barco. Os saltos que ele dava nas ondas quando o levávamos para a barra. A visão da senhora das bolas-de-berlim a aproximar-se com o cesto de verga debaixo do braço. Andar de bicicleta à noite pelo aldeamento. E, por fim, essa hipótese de um aviãozinho passar lá no alto e abrir as portas ao marketing. Ainda hoje, quando os vejo passar, acredito por breves momentos que irão começar a cair objectos. Só que hoje a mente põe-se a vaguear logo pelo consumismo descontrolado, os problemas ambientais e o ego desmedido de todos nós. Não sei se por esta ordem. Nem sei se isto são consequências de entrar no mundo dos adultos, se no mundo actual. Às vezes confundo-me. O último avião que vi trazia uma daquelas fitas presas à cauda onde se lia: “Português Suave – Um romance inesquecível”. O marketing, portanto, estendido ao ponto de nos apontar a leitura adequada à situação em que nos encontramos. Está na praia de papo para o ar? Então devia estar a ler a Rebelo Pinto! (é o que todos os outros estão a fazer) Algo deste género. Pasmei um pouco. Anúncios voadores a livros? Onde é que isto já se viu? Mas depois dei-me conta que, a quem pudesse ouvir a indignação ressoar dentro do meu cérebro, surgiria como uma octogenária estereotipada. Sejamos francos, muitas vezes os livros vendem-se pela capa. Escrever passou a ser também um negócio e, portanto, nada mais natural que seja tratado como tal. Produto a tornar atractivo e vendido à fartazana. Ou não? [a octogenária em mim bate o pé] O sucesso, afinal, não se mede em euros? [e franze o sobrolho, já zangada] Não sei. Com o tempo fiquei mais seca, tremendamente analítica e pouco do que o avião oferecesse me faria mexer uma palha. Mas a verdade é que há um instante muito preciso, um quase nada, uma fracção de fracção de segundo, em que oiço aquele som ao longe e descortino que se trata de um avião e, secretamente, se acende uma esperança, uma trémula sede de criança. Que já não é de brindes. Não é de t-shirts. Deixou foi de saber exactamente de que é.

03/07/08

all aboard? [quase post nº100]

Escrevi uma vez um poema, coisa única, a uma tia velha que se foi daqui com sacrifício. Pessoa que conheci sempre sem pretensão. Só que, certo dia, o meu pai pegou no computador e apagou-me os textos sem aviso. Foi como se mos arrancasse da carne.

Entretanto, eternidades volvidas, chegou-me o Samuel Beckett. «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor». E deixou-me a pensar… Porque não? Porque não viver para se afastar cada vez mais do erro, em vez de ter por meta a excelência ridícula e desesperante da perfeição? Que tal a segurança de partir com o que já se tem – a tal falha – e trabalhar o mundo próprio a partir daí?

Gostava de saber repetir o poema… Não era grande coisa, não. Mas, em poucas palavras, dizia o que queria. Agora… Agora? Vou ter que falhar de novo. Talvez um pouco melhor.

30/06/08

o tal concerto

Acabou por ser assim, decidimos ir as três estarolas à última da hora. Liguei a reservar mais um bilhete, ao que me respondeu a voz do outro lado: “não é preciso, há muitos lugares”. A ideia preocupou-me. Apressei o dia aquilo que pude e voltei para casa com a estarola terceira, a fim de mudar de roupa e jantar com leveza. Torceu o nariz arrebitado sem cerimónia ao cuscuz que lhe cozinhei. Ó senhores, vá de hambúrguer no pão! A estarola segunda chegou entretanto, maldizendo a vida e a infinita lata masculina. Durante o jantar tratou de expurgar a neura, dando-lhe um formato verbal que, tanto eu como a terceira, ouvimos quase em silêncio. Ruminando.

Desde o início da tarde que me sentia um bocado nervosa sem motivo. Ansiosa. Como se fosse euzinha subir ao palco essa noite e enfrentar um público. Como se a mim afectasse directamente o volume de audiência que, ao que parecia, ficava muito aquém das expectativas. Sempre fui assim tonta, a encaixar problemas alheios (até os que por auto-recriação vou inventando). Quando, nas aulas, os professores davam uma descasca em alguém, os meus olhos colados na mesa não conseguiam mexer-se. Um sufoco idiota. Mas pronto, nesse dia, estava tensa com o espectáculo. Depois do jantar, despachámos a cena mudança-de-roupa-e-demais-coqueterias com relativa rapidez. E foi de tal modo rápido que consegui fechar uma porta em cima do dedo indicador. Fabuloso! Num daqueles ataques que me tomam quando a dor estala, dei um senhor pontapé na porta culpada, deixando as estarolas boquiabertas a olhar para mim, enquanto fugia para a varanda agarrada ao dedo. Que aqueceu, desatou a latejar. E eu, respirando fundo e procurando na casa-de-banho uns minutos de água fria, vi-me obrigada a pedir : “M., vais-me buscar um saco com gelo?”. Portanto, acabei por sair de casa com o dedo enrolado num pano verde alface que envolvia uma bolsinha de gel frio. Lindo.

Chegadas ao Coliseu uma hora antes do concerto, à cause dos bilhetes, encontrámos o espaço às moscas. Fomos entrando, subindo, sorrindo, aceitando revistas e panfletos, e acabámos por nos sentar no chão, lá no alto no piolho, enquanto o resto das pessoas, provavelmente, acabava os seus jantares. Logo aí uma verdadeira adversidade: estarola terceira tem vertigens e nós não sabíamos! O cabo dos trabalhos para a convencer a colocar-se a três passos do varandim, onde se deixou ficar tesa que nem um carapau, os olhos no chão com nervoso miudinho. O que fazer? Nada a fazer. Ir espreitando as formigas lá em baixo a entrar aos poucos (muito poucos) e silenciosamente. Continuava nervosa, apreensiva com a sala tão cheia de espaço e imaginando o inevitável nó na barriga dos que se encontravam, nesse momento, do outro lado do palco. Mas, devagar, a área da frente foi-se compondo e, quando as luzes se apagaram, já o cenário não parecia tão negro.

Ela entrou seguida das palmas, algo brilhante, vestida de cor e em cima de uns saltos pouco habituais. O meu samba vai curar teu abandono… E parecia o CD a tocar. A voz é tal e qual e, no Coliseu, a distância do piolho ao palco não nos ajuda a sentir o forro quente do ambiente – principalmente tratando-se de pitosgas como eu.

Entretanto a estarola terceira mantinha a postura pétrea, muito embora nos esforçássemos por provocar uns abanicos conjuntos ao ritmo do samba. Na única vez que se dirigiu directamente ao público, ao fim de duas ou três músicas, Maria Rita disse-nos que estávamos em casa e que, portanto, fizéssemos o que mais nos apetecesse. Sentar, levantar, dançar, cantar… Ao que um gajo cá de cima gritou “queremos ir aí para baixo!”. Alguns risos nossos, dos pobrezinhos. Mas a verdade é que, depois de repetidamente a estarola segunda ter observado “bem que nos podiam mesmo deixar ir para baixo, há tanto espaço!”, as vozes do povo foram ouvidas. Um dos meninos de fato veio informar-nos que, se quiséssemos, nos podíamos mudar para as laterais lá de baixo, aquelas de onde só se vê meio palco. Bem, foi ver-nos a todos descer quatro lances de escada o mais rápido que as pernas permitiam! O passo da estarola terceira a limitar um pouco o nosso trote. Mas lá chegámos e, tendo esperado o fim de uma música, abriram-nos as portas para entrar. Foi incrível, de repente estávamos ali em cima, até podíamos ver as expressões na cara da mulher! Sentámo-nos as três, para grande alívio da vertiginosa mas eu, na verdade, fiquei um bocado inquieta por não me poder mais abanar. Ao fim de duas músicas levantei-me e afastei-me para não quebrar visibilidades. M. secundou-me e gozámos o Pagu com menos reservas. Nem toda a feiticeira é corcunda, nem toda a brasileira é bunda, meu peito não é de silicone, eu sou mais macho que muito homem! Deliramos com isto. Só que o espaço nas bancadas também não é muito e tardou pouco a decidirmos descer para dar chão aos pés. A coisa não parou por aí. Uma música volvida e alguma alma iluminada, das que se encontravam connosco no local, abriu a portinhola do varandim que separava a bancada lateral da central e, em segundos, transbordámos para a melhor zona possível: mesmo ao lado das cadeiras da frente, em pé, com imenso espaço de dança, sem incomodar vistas, e tendo o palco a uma distância quase ridícula. A cantora estava cada vez mais animada e o público já se ia levantando e vibrando. A fraca tentativa do fato engravatado nos dissuadir de ficar ali foi posta de lado como um par de meias sujas. Não houve insistências. Parecia que o concerto tinha então realmente começado. O repertório passou a incluir músicas anteriores e mais conhecidas e ela ia gingando de um lado para o outro do palco, de braços no ar como de costume. Parava à nossa frente e abria grandes sorrisos à Elis. Gritámos, cantámos, saltámos, fingimos que sambámos e divertimo-nos à grande. Posso dizer que foi dos melhores concertos a que já fui. Um encanto. Mesmo vestida para sambar, a Maria Rita surge-nos como uma pessoa real e talvez seja isso, para além da voz, da presença e da simpatia, que a liga tanto ao público. Depois de mudar para um vestido muito, muito mini, entrou no palco debaixo de uma cascata de assobios. O resultado foi um envergonhado ataque de riso que não a deixou cantar metade de uma música. Já se sabe, é destas coisas que se alimenta a empatia entre as pessoas.

Saímos de lá a tender para o histéricas, com o ritmo sambista no sangue a pulsar. Não nos calámos até casa. E depois disso. E só dava vontade de lhe ligar para dizer “Rita, obrigada! Foi único. Deixaste-me endorfinas para o mês inteiro.” Não seria mentira.

25/06/08

hoje apenas isto

Somos por comparação. Vivemos toda uma vida por comparação. Padrões e bitolas, é o que é.

22/06/08

descobertas

A Maria Rita vem a Lisboa para a semana e eu e a M. lá estaremos no Coliseu, esperando o samba seu. Conheci a música dela há alguns anos, enquanto espiolhava o computador de uma colega por novidades. Gostei, copiei. Achei-lhe uma voz diferente, muito redonda e sincera. Envolve. Ouvi muito, acompanhou-me sempre que havia dados para analisar, relatórios para escrever (qualquer coisa que me prendesse horas solitárias ao computador) e, mais tarde, arranjei também o álbum “Segundo”. Estranhamente, ao longo dos anos, nunca googlei a rapariga. Foi, portanto, só depois de muito a ouvir que descobri que traz um fantasma acoplado: o da mãe, Elis Regina. A própria Maria Rita diz que demorou muito tempo a enveredar pela carreira musical porque confundia a sua vontade com as expectativas dos outros.

(ouvi, pois: Cara Valente e Tá perdoado, por exemplo)


Eu, da Elis, julgava só conhecer o nome. Por “intermédio” da filha, comecei a procurar música da senhora – já agora para perceber what the fuss is about. De início reagi mal ao metálico que se lhe sente na voz. Desconfortava-me. Mas fui ouvindo mais, um pouco mais. E fui descobrindo uma data de músicas que, não só reconhecia, como sabia cantar às partes - resultado de uma infância em que a (única) novela do dia era brasileira e ritualizada. E, provavelmente por causa dessa familiaridade precoce, comecei a ouvir Elis com menos reservas. O desconforto mantém-se (pode tornar-se ele um vício?) mas deixo que o faça.

Não sei nada de música, mesmo. Mas pasmo com o modo como dela brotava uma voz límpida, cheia de garra, leve e divertida, forte, tudo ao mesmo tempo. É impressionante.

(a que deixo em repeat: O bêbado e o equilibrista)

Daí que, agora, gostava que também Elis viesse ao Coliseu…

17/06/08

dizer as palavras dos outros

A primeira vez que ouvi o poema “Aniversário”, de Pessoa na pele de Álvaro, foi numa encenação do grupo de teatro da Crinabel. Arrepiou-me. Os actores estáticos, muito brancos, como memórias congeladas. A iluminação dourada de um sonho – talvez porque as memórias não cheguem a ser verdades por inteiro. A entrada enérgica das crianças-Pessoa, jogando com os adultos como se de mobília se tratassem, como se fossem únicos seres vivos num reino moribundo. E a gravação ditando o compasso da acção. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos… Lindíssimo.

A noite passada foi domingo e estaquei na rtp2, onde a Paula Moura Pinheiro conversava com uma senhora de idade. Que eu desconhecia. Só que gosto do programa e fiquei por ali. A senhora chama-se Germana Tânger e foi professora de dicção no Conservatório Nacional durante uma carrada de anos. Amiga de Almada Negreiros, José Régio, Vitorino Nemésio… Espalhava poesia. E então foi-lhe pedido que dissesse o “Aniversário”, coisa que logo fez e com uma naturalidade desconcertante. Com os sentimentos certos no momento exacto. Eu não sou muito de que se leia poesia (ou o que quer que seja), porque sempre me pareceu que se desvirtuava o sentido, que não se devia desapropriar assim o autor, bem como o leitor, das emoções, dos instantes seus. Mas ontem gostei.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

27/05/08

fernanda câncio

Gosto desta senhora. Merece um copy-paste.

"O petróleo aumenta, aumenta, aumenta. Motivos múltiplos, alguns mais perceptíveis que outros. Mas vai dar no mesmo, qualquer que seja o motivo: os países que o têm passam bem e os que não têm passam mal. E passam tanto pior quanto mais dependem dele. E é espantoso o quanto dependemos, nós os sem-petróleo, do petróleo que não temos. Não só dependemos como queremos continuar a depender. Nem sonhamos outra coisa. É assim uma espécie de estado de negação permanente, uma patologia psíquica global.

Comecemos por um exemplo fácil. Temos os taxistas e as transportadoras em pé de guerra a exigir “gasóleo subsidiado”. Parece que o Estado (isto é, eu, quem me lê e quem não me lê) subsidia o gasóleo para uso agrícola e eles querem o mesmo tratamento. Não querendo perder muito tempo com o subsídio para a agricultura - faz parte de um mundo hipersubsidiado que sempre tive a maior dificuldade em entender -, fico de boca aberta ante a exigência. Por que carga de água hei-de eu, com os meus impostos, subsidiar o combustível que alimenta os táxis e os camiões? Para que os táxis não aumentem e as mercadorias não subam de preço devido ao custo acrescido no transporte, respondem-me. E eu respondo de volta: e por que não hão-de as mercadorias ser transportadas de comboio e de barco, meios que têm um dispêndio inferior de energia? Por que não hão-de os táxis ser reconvertidos para trabalhar a gás, que, ao que ouvi dizer, é coisa que não custa assim tão caro, permitindo usar um combustível que é mais de 50% mais barato e ainda por cima menos poluente? E, não despiciendo, por que há-de quem não usa táxi subsidiar quem usa?


A mesma lógica se aplica aos detentores de automóvel - afinal, ninguém é obrigado a ter carro, e se o tem, estando disposto a fazer face aos acidentes de percurso (a começar pelos propriamente ditos), por que não há-de ver na subida do preço da gasolina e do gasóleo mais um acidente? -, como aos transportes públicos em geral e a toda a gente em particular. Escolha como quer reagir a esta situação: chorando e exigindo “apoios” ou aproveitando para mudar hábitos, poupando energia e dinheiro? Quantas pessoas há que deixaram de usar transportes públicos há anos, passam horas em bichas e a procurar lugar para estacionar, apenas porque meteram na cabeça que isso é mais cómodo e lhe confere mais statu? Quanta gente há que não dá um passo a pé, para quem é impensável viver num prédio sem elevador e para quem as práticas ambientalmente conscientes são “perdas de tempo” e “esquisitices”?

O papel do Estado é fundamental nesta matéria, é. Mas recusando subsídios e encorajando a reconversão e a poupança energética, a começar pelos transportes públicos. Já fazemos todos parte, quer queiramos quer não, do Movimento dos Sem-Petróleo (MSP). É altura de a ele aderirmos à séria, com entusiasmo e militância."


publicado no DN de 23/05/2008